Texto por Marco Fialho
Nos últimos anos vivemos o assombro da dominação violenta do Estado de Israel em Gaza contra os palestinos. As imagens que chegam pelas reportagens de TV e pelos filmes* são chocantes, de uma desumanidade impossível de aceitar. A indiferença perante a essa ocupação torna-se algo igualmente cruel. A Voz de Hind Rajab, produção da Tunísia, dirigida por Kaouter Ben Hania só fez confirmar o absurdo e as denúncias que lembram os direitos humanos como um elemento fundamental para impor limites para uma agressão de um Estado contra um povo.
A Voz de Hind Rajab poderia ser um documentário, mas não é, na verdade até esbarra nele na sua proposta de mostrar um grupo humanitário, chamado de Crescente Vermelho, que tenta salvar uma criança de 6 anos da morte eminente, depois que um tanque israelense matou seus tios numa rua, situada no bairro de Tel-Hawa, em Gaza. Praticamente todo o filme mostra o trabalho desse grupo no telefone tentando manter a esperança da menina, enquanto ela espera a ambulância conseguir entrar para resgatá-la desse tanque que avança sobre ela. Mas o que prevalece é a encenação, enquanto o documental fica no extra-campo, fato só quebrado nas cenas finais.
O mais impressionante em A Voz de Hind Rajab é o que está fora do quadro, isto é, a menina pedindo socorro. Apenas ouvimos a sua voz e mais nada. De resto, sobra a nossa imaginação de tentar ver o terror que ela está passando naquele momento. Kaouter Ben Hania escreveu o roteiro baseado nas gravações
registradas no dia dessa chacina, ocorrida em 2024.
A Voz de Hind Rajab passa por nós como um filme de terror realista, que acelera nossos batimentos cardíacos na aflição de ver aquela menina salva. Mesmo sem ver as imagens da menina, somos absorvidos pela sua voz repleta de medo, tensão e desespero. Todos a sua volta estão mortos, o sangue deles, que são seus parentes, está nela. Pior impossível.
O diretor usa algumas gravações originais durante o filme, como a hora em que os tios estão falando com a central de resgate e recebe uma rajada de metralhadora. Tudo é muito chocante, pois depois disso ficamos a ouvir Hind Rajab a pedir ininterruptamente por ajuda, para alguém a retirar daquele carro cercado pelos tanques de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro da extrema-direita israelense.
O que mais me impactou em A Voz de Hind Rajab foi a capacidade da direção de nos prender em cenas cuja a maior atenção estava numa menina colocada no extra-campo da imagem. As imagens finais são igualmente chocantes, ao vermos o estado do carro da família e a polícia retirando os ossos carbonizados das vítimas. O extra-campo aporta como tragédia e a nossa imaginação fica até constrangida pelas imagens reais. Quando o filme acaba, ficamos nos perguntando: será possível combater o terrorismo com mais terrorismo, assassinando crianças, mulheres e outros inocentes?
* O CineFialho separou críticas de alguns filmes sobre o estado atual da Ocupação israelense em Gaza:
- Sem Chão (2024)
- Guarde o seu Coração na Palma da Mão e Caminhe (2025)

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