Texto por Marco Fialho
Já se passaram 40 anos desde que O Beijo da Mulher Aranha (1985), dirigido por Hector Babenco, foi realizado e angariou muitos prêmios, inclusive um Oscar de Ator para William Hurt no papel de Molina, o prisioneiro gay que se contrapõe à dureza revolucionária de Valentín (Raul Julia). Essa primeira versão do livro do escritor Manuel Puig, contava ainda com a presença luminosa da brasileira Sônia Braga, como a Mulher Aranha, que a alçou à categoria de estrela internacional do cinema.
Eu sempre me pergunto porque a indústria hollywoodiana insiste em refilmar alguns sucessos do passado. Um dos requisitos para haver uma refilmagem deveria ser condicionada a essa nova versão trazer algum elemento que a diferenciasse da anterior. Até que nessa distinção, a atual versão, dirigida por Bill Condon, pelo menos isso alcançou, ao introduzir na história original um musical. A pergunta que passa a martelar em nossas cabeças é se o musical ajuda ou atrapalha a fluência do filme na versão de 2025?
A meu ver a parte musical retira a contundência dramática que a versão de Babenco trazia. Mesmo que reconheçamos que Jeniffer Lopez tem um talento que enobrece a parte musical, ela não funciona em conjunto com o filme. Analisada à parte, ela é bem filmada e interpretada, mas isso por si não basta, pois ela está inserida em uma proposta maior, a do filme, e é nesse ponto que tudo desanda devido essa parte musical não casar bem com a encenada dramaticamente.
Na versão de Babenco, a fantasia era mais imaginativa, mas a trama não se deslocava do drama, pelo contrário, até o aprofundava, como não acontece na versão de Bill Condon, preso somente à fantasia. Inclusive, na primeira versão, o personagem de Molina narrava uma história de amor com um homem fora da prisão, o que dava uma dimensão dele para além de ser um sonhador. Me perdoem a comparação, mas como não fazê-la se a própria ideia aqui é a refilmagem? Fica difícil de fugir dessa inevitável tentação de querer sentir as maiores diferenças entre as duas versões. Mas me empenharei a evitar as comparações, analisando a obra de 2025 de maneira mais deslocada em relação a de 1986, e lhe conferindo o destaque e atenção que o lançamento demanda.
Entretanto, deve-se destacar que a versão de Bill Condon tem outros problemas, para além do musical. Vivemos uma irritante realidade criativa, ou da falta dela, que se revela uma tendência observável em muitas produções atuais (muitos dizem ser o maior sintoma do fenômeno Netflix), de querer explicar demais o que está acontecendo em tela, como se o espectador não fosse capaz de chegar por si mesmo a algumas conclusões, ou até mesmo a outras conclusões, se for o caso. Na parte final do filme, há uma cena artisticamente falha, quando o diretor almeja explicitar o significado da simbologia do tal beijo da mulher aranha. Isso é um fenômeno atroz dos filmes recentes e mais do que um vício, mostra como os diretores vem cedendo às pressões das produtoras em detalhar as ideias postas em um filme para facilitar a leitura dos espectadores, e como isso vem empobrecendo em demasia a narrativa das obras.
É bom lembrar que a obra de Manuel Puig possui um cunho político estrondoso, se passa numa prisão durante a feroz e sanguinária ditadura militar na Argentina, que durou entre 1976 e 1983, isto é, parte de um fato histórico que sustenta a própria narrativa do filme. Observa-se que toda a estrutura do roteiro sempre explora fatos isolados, sempre alijando outros contextos que estão em jogo na trama. Nunca conseguimos ter uma visão mais ampla do que representou essa ditadura, inclusive nos créditos iniciais, a colocação chega a ser dúbia, ao informar que durante os anos 1970 e 1980 o governo argentino foi incomodado por uma forte oposição, isto é, o ponto de vista aqui, pode até ser inconsciente, é claramente o dos algozes, o que é definitivamente um problema sério de tradução da perspectiva do livro e do filme de Hector Babenco, que incorporou à trama paralela da mulher aranha o nazismo, o que agrega um tom político ao filme, coisa que o musical liquidifica e dissolve.
Curioso que uma das discussões que o personagem Molina (Tonatiuh Elizarraraz) encampa é sobre a natureza da arte, se ela é espetáculo ou precisa ser mais realista. A primeira ótica é hollywoodiana, já a segunda, mais revolucionária ou de um ponto mais marxista de politizar a arte visando transformar à sociedade. O mais surpreendente é como o próprio Valentín (Diego Luna) é rapidamente tragado pelo discurso hegemônico da tal beleza e sensibilidade da arte, e se apaixona pela representação cênica de Molina, a ponto até de se apaixonar pelo próprio. Aqui, a política é demonizada pelo discurso óbvio e simplista do filme, como se os gays velassem pela sensibilidade (e consequentemente pelas artes) do mundo e os héteros pela dureza do combate (no caso, da revolução). No filme de Babenco, Valentín possuía um visual parecidíssimo com o Che Guevara, o que dizia muito sobre o personagem e seu simbolismo. E Sonia Braga também fazia a personagem da namorada de Valentín. o que imageticamente era mais instigante. Na versão de Condon, Valentín não tem subjetividade e passado, não sabemos quase nada dele.
Entretanto, o discurso verbalizado em si nem seria tão necessário, já que na própria estrutura narrativa deste O Beijo da Mulher Aranha privilegia-se o espetáculo, representado pela própria inclusão do musical dançante à la Broadway. Mas vale sublinhar o quanto tudo aqui é exacerbadamente explicado e detalhado, para que o público não se atreva a tentar pensar, pois o fundamental é sentir, e somente os sentimentos importam. A política seria o lado racional, já a arte, o emocional. Dicotomias vazias e que de nada enriquecem a obra nem provocam uma visão mais questionadora e dialética da narrativa.
Se no discurso verbal O Beijo da Mulher Aranha não convence, o que dirá no seu discurso cinematográfico. Desviar a narrativa para o apelo espetaculoso nada mais é que esconder as premissas conservadoras que estão camufladas na forma fílmica, mesmo que o discurso explícito assuma um viés falsamente progressista (um personagem gay, politicamente alienado e supostamente mais sensível do que o masculinizado e inflexível do revolucionário). Essa perspectiva, politicamente, é, para dizer o mínimo, artisticamente duvidosa. Enquanto o final da versão de Babenco, o poético se soma ao político em um delírio desejante, que era a proposta do filme em si, na versão de Condon o realismo esvazia o poético, restando uma visão mais positiva, um tipo de final feliz explícito, enquanto a felicidade de Valentin no final de Babenco era da ordem meramente imaginativa.
A meu ver, a forma fílmica é tão ideológica quanto o discurso escrito ou falado, e no cinema, a maneira como o diretor constrói imagem e som são tão importantes quanto o que é dito pelos personagens. E nesse quesito, o filme de Bill Condon fica devendo, e muito, ao se dobrar ao cinema como um mero espetáculo de entretenimento e ao tentar atiçar inebriar o espectador, que se colocam ali para escamotear as intenções politicamente conservadoras do filme.

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