Pular para o conteúdo principal

QUEM BATE À MINHA PORTA? (1967) Dir. Martin Scorsese


Texto por Marco Fialho

A estreia cinematográfica de Martin Scorsese é um acontecimento. Quem Bate à Minha Porta? é resultado de um filme que o diretor iniciou ainda como estudante na Universidade de Nova York, em 1965. O que mais chama atenção no filme é a sua grande ousadia narrativa, com várias tomadas criativas com a câmera em movimento e closes expressivos. 

Se Quem Bate à Minha Porta? é marcada por uma certa irregularidade e por uma direção errática, há uma notória paixão de Scorsese pelo cinema e sua história. Algumas influências são bem explícitas, como John Cassavettes, em especial na narrativa livre e inventiva de seu primeiro longa, Sombras, de 1959. Gosto como o filme dialoga com Os Boas Vidas (1953), de Federico Fellini, por meio de um grupo de amigos de um bairro em Scorsese, sempre a sua Little Italy, enquanto em Fellini, temos a sua Rimini. Entretanto, mais uma vez, Scorsese presta homenagem aos seus ancestrais italianos. 

Quem Bate à Minha Porta? possui um fiapo de história, a de JR (Harvey Keitel), um desempregado que passa o dia e as noites com sua turma de amigos, fazendo besteiras pelo bairro e cidade. Scorsese trabalha bastante com a ideia da formação religiosa católica, a repressão enraizada pela prática que estimula o pecado e a punição, temas que o diretor revisitaria diversas vezes em sua longa carreira. JR conhece uma jovem (Zina Bethune), que o obrigará a afirmar ou rever sua educação católica. O filme é justamente isso, a história de JR com os amigos e a namorada. Todos os conflitos surgem desses dois encontros. Vale registrar que Harvey Keitel, era um ator desconhecido em busca de trabalho e foi achado através de um anúncio de jornal à época em que o filme ainda era apenas universitário e que Scorsese teria ficado fascinado com ele logo que o viu fazendo o teste de elenco.

Curioso como esse filme de estreia de Scorsese aborda o tema da repressão sexual, e mais especificamente, adentra na ideia da masculinidade tóxica do final dos anos 1960. JR transborda machismo em sua relação com a menina e quando está com seus amigos é comum eles se encontrarem para dividir noitadas com prostitutas. Na relação de JR com a menina, o que torna tudo difícil é uma confidência que ela faz de um estupro que sofreu, que ele não acredita, por achar que ela estaria mentindo para não assumir que perdeu a virgindade porque quis.       

Mas o que mais chama atenção em Quem Bate à Minha Porta? é o seu aspecto cinematográfico magnânimo e ostentoso. Sem dúvida, esse é o trabalho no qual Scorsese mais experimentou em sua carreira, ainda mais que sequer estava inserido na indústria, o que lhe deu bastante liberdade artística. Nota-se uma preocupação de Scorsese em escrever com a câmera, tal como Alexandre Astruc descreveu em sua câmera-stylo, escritor que influenciou muito a nouvelle vague francesa.   

O jogo de câmera surpreende cena a cena, os movimentos são arriscados, típicos de um jovem que almeja mostrar o que aprendeu na universidade. Em diversos momentos a câmera avança pela esquerda, mas depois sem cerimônia muda para a direita, para frente ou recua. Os atores parecem estar livres, mesmo que se saiba que o filme seguiu um planejamento detalhado tanto no roteiro quanto na decupagem. Inclusive, o trabalho de Harvey Keitel é algo que beira o sobrenatural, é incrível como ele conduz sua atuação flutuando pelas cenas, inebriando, e como um ímã, chamando todas as atenções para do espectador para si.  

A influência da nouvelle vague francesa se faz presente pela liberdade que Scorsese assume na feitura dos planos, há uma leveza nessa condução, a câmera como um personagem, que se deixa notar, seja por buscar ângulos inusitados ou por sua insaciável vontade de descrever ambientes e rostos. As cenas de cartazes, um tipo de colagem com os filmes de western, que tem um peso simbólico da masculinidade do personagem, é outro tributo ao movimento francês. Há um desejo simbolista, de se encantar com o próprio impulso de mostrar imagens que vão sempre além do fato, uma sinestesia de elementos cinematográficos postos em cena em busca de uma suposta espiritualidade. 

Quem Bate à Minha Porta? busca beleza e plasticidade, mas não o faz por artificialismo, e sim pela busca sensorial do espectador, caso explícito das inspiradoras cenas filmadas em close. As músicas são outro elemento de grande acerto e destaco a sequência onírica e imaginativa de JR com diversas meninas de programa, a cena mais erótica e sensual do filme, banhada pela belíssima The End, dos The Doors. Sem dúvida, essa é uma sequência das mais belas do cinema, com a câmera a bailar e a propor imagens entorpecedoras.  

Esse pode ser o filme mais irregular e frouxo narrativamente de Scorsese, mas é igualmente o mais corajoso na forma artística, que emula uma direção tomada pela ação alucinógena das drogas, onde o risco de se perder no caminho é imenso, embora suscite momentos cinematográficos únicos. É quase que um delírio de Scorsese sobre a vida, mas sem esquecer do quanto somos prisioneiros da cultura, aqui do catolicismo a ditar regras e proibições contra a liberdade dos corpos. 

Quase nada em Quem Bate à Minha Porta? é expositivo e óbvio. É um cinema puro, com um pé na vanguarda e que quer ao mesmo tempo mostrar que pode também narrar sem se esquecer de que estamos diante de uma obra cinematográfica, ousada sim ao se expressar, com grandes riscos e subversão afinal, só alcança o cume de um pico quem se atreve a subi-lo. Isso mostra o quanto Scorsese é um cineasta que já nasceu grande.

p.s. como é emocionante ver o personagem de Harvey Keitel pegar o LP histórico "Getz/Gilberto" nas mãos, que está logo na frente de uma pilha de Lps. Curiosidade: o álbum é de 1964.       

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...