Texto por Marco Fialho
O documentário O Lendário Martin Scorsese, dirigido por Rebecca Miller, se propõe a realizar um retrato do maior e mais profícuo cineasta vivo dos Estados Unidos. São 285 minutos, que totalizam quase 5 horas, divididos em 5 episódios, um tour estupendo e delicioso pela sua gigantesca obra, composta por mais de 32 longas-metragens. Scorsese realmente é incansável como diretor e esse documentário explora bem esse viés quase alucinado de sua carreira.
Rebecca Miller opta por um formato bem televisivo e convencional, partindo primeiramente de uma longa entrevista que faz com o próprio Scorsese a narrar desde a sua infância sua aproximação com o cinema e com os temas que o perseguiriam durante a sua trajetória. O grande trunfo de O Lendário Martin Scorsese é fazer dessa conversa a espinha dorsal do documentário, pois como é prazeroso acompanhar a paixão do diretor, o entusiasmo ao falar de si e da carreira.
Ainda falando estruturalmente de O Lendário Martin Scorsese, outra característica do documentário é o de se ater à cronologia das obras, mas não necessariamente à cronologia da vida em si de Scorsese, já que cada obra traz lembranças temporais diversas e difusas. É como se o documentário fosse puxando fios de memórias que vão conectando fatos da vida pessoal à sua obra.
Mesmo que o documentário de Rebecca Miller formalmente careça de inventividade, ele envolve ao trazer a voz de Scorsese para o primeiro plano, como uma revisitação, mas trazendo depoimento de atores como Robert De Niro, Di Caprio, Sharon Stone, e personagens que o acompanharam, muitas vezes desde à infância, que possuem uma relevância na narrativa.
Outros depoimentos vão formando camadas interessantes e ricas, como os das diversas esposas de Scorsese, assim como os das 3 filhas, do pai e da mãe, essa inclusive figura importante que participou de alguns filmes do diretor como atriz. A figura pitoresca e incomum da mãe Catherine, mulher de personalidade única e afirmativa, capaz de realizar cenas de humor fora e dentro das telas.
O documentário sabe construir bem os momentos de altos e baixos de uma carreira longa como a de Scorsese e a máxima de que independente do sucesso de um filme, como o artista precisa estar sempre comprovando sua capacidade de realizar obras consistentes. Rebecca Miller explora exemplarmente essas fases, puxando na maioria das vezes depoimentos de colegas de profissão, como Steven Spielberg e Brian De Palma (que durante uma época da vida tentou rivalizar com Scorsese).
Mas a diretora não busca muitas entrevistas antigas, pois há uma preferência pela visão que hoje cultivam dele e isso é muito eficaz por mostrar visões mais abrangentes da obra e evita opiniões meramente circunstanciais. Esse método inclui suas relações de família, esposas e amigos, que podem falar de fatos às vezes polêmicos de maneira mais distanciada, e não no calor da hora.
Rebecca Miller vai costurando aos depoimentos diversos cenas dos filmes comentados, e como ela consegue falas que penetram nos bastidores trazendo informações e reflexões importantes, que permitem o público entender melhor a complexa carreira de Scorsese. Assim, algumas cenas controversas, podem ser melhor elucidadas a partir de personagens que viveram a intensidade do momento, mas que hoje podem esclarecer com detalhes e pressões que ocorriam durante as filmagens.
Os temas suscitados por Scorsese em seus filmes permeiam todo o documentário. Rebecca acerta em não criar blocos temáticos, mas ao deixar os temas virem com os filmes comentados. A influência do catolicismo (sim, Scorsese foi coroinha e quase padre) e redenção, a da violência das ruas de Nova York, da máfia, da música, em especial o do rock, a masculinidade nos Estados Unidos contemporâneo, os conflitos internos dos personagens divididos entre fazer o bem e o mal, o sonho americano e o pesadelo que vem junto a ele.
Mas como falar de Scorsese sem mencionar seu estilo único de abordar um tema, sua câmera invasiva que alterna movimento implacável com a câmera lenta. Como os personagens são fortes e imprevisíveis, as narrativas de muitos de seus filmes são em primeira pessoa, para que o público o conheça a partir deles mesmos. Rebecca Miller bate muito na tecla dos filmes de Scorsese falarem sobre a verdade desses personagens, de como os atores precisam ser verdadeiros em cena, o que fez Scorsese estimular muito os improvisos. Atores como Robert De Niro são cocriadores de suas obras, por participarem ostensivamente com dicas e propostas de cenas. Rebecca aborda muito esses detalhes de construção das obras, instiga os entrevistados a falarem do processo, o que faz o documentário ser algo rico e fisgar o espectador, que quer saber cada vez mais sobre tudo o que influencia a criação de Scorsese.
Rebecca Miller dá muito valor à mise en scène em si. Provoca Scorsese para saber como trabalha com seu câmera, com atores e equipe em geral. Essas indagações são fundamentais para que Scorsese possa se expressar e O Lendário Martin Scorsese parte de provocações que a diretora faz e como ela sabe aproveitar da arte de fabulação de Scorsese, que como um bom ítalo-americano é afeito à falar. Esse é um documentário que explora a infância de Scorsese e como era o convívio das pessoas comuns com os mafiosos de Little Itália, de como essa proximidade mudou a vida de tantas pessoas.
Scorsese sempre quis mostrar como pessoas comuns, extraídas da vida, de seus amigos e conhecidos possuem histórias mais excitantes do que muitas celebridades. Assim, ele fez delas celebridades e despertou a curiosidade sobre as regiões mais pobres, antes desprezadas pelos cineastas. O mundo das drogas, em especial a da cocaína, que se mistura com parte da vida do cineasta e que quase o levou à ruína são contadas de maneira aberta e sem freio.
O Lendário Martin Scorsese traz para o primeiro plano a dubiedade de personagens que traduzem a complexidade e contradições do próprio Scorsese, mas há coragem de Rebecca de não esconder as idiossincrasias de Scorsese e revelar o quanto dele existia nos seus filmes. Scorsese sempre foi o menino que veio das ruas pobres de Nova York e se esmerou em traduzir com fidelidade tanto o brilho quanto suas sombras. O encanto desse retrato está no final, quando queremos saber mais ainda sobre esse pequeno grande homem chamado Martin Scorsese. 5 horas pareceu até pouco para tanto talento.

Também achei o documentario muito bom ...
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