Texto por Marco Fialho
Hollywood está sempre em busca de personagens extravagantes que se encaixem dentro de suas premissas enaltecedoras das individualidades, sejam elas propensas ao heroísmo ou ao anti-heroísmo. Marty Supreme, novo filme de Josh Safdie, agora sem a companhia costumeira do irmão Ben, se alinha nessa vertente temática pelo viés do anti-herói.
Em Marty Supreme não é só o personagem que é over, tudo se aproxima do superlativo. O filme chega a ser sufocante tamanha a velocidade em que transcorre a narrativa. Há uma tentativa de construir uma ideia de caos em torno do protagonista, muito sustentada por uma montagem que não permite que o espectador pense, o que vemos é um atropelamento sensorial. A câmera de Josh Safdie é alucinante, persecutória, ávida por descrever cenas e situações extremas vividas por Marty Mauser (um Timothée Chalamet em uma interpretação abnegada), um jogador de tênis de mesa talentoso, egocêntrico e afeito a viver no limite.
Chamalet agrega muita energia ao personagem, mas o faz como um bom ator hollywoodiano que é, com aquela vontade de fazer crível as loucuras e as ações extremadas de Marty. Não há algo que inspire uma reflexão maior sobre ele, em especial depois do que é estabelecido como Marty, Timothée Chamalet jamais decepciona, é coerente, límpido e intenso, o que para mim não o torna muito instigante, pois falta respiro para que possamos também refletir sobre ele e suas ações, e não só se deixar levar pela sua vibração.
Marty é aquele cara que gosta de confusão, de ter amantes casadas para que a dor de cabeça seja certa e constante. É um típico homem hétero dos anos 1950, que gosta de usar as mulheres em benefício de seu prazer, por isso tem tudo a ver a cena em que um óvulo fertilizado vira uma bola de tênis de mesa, pois essa é uma mistura que o personagem gosta de fazer: sexo e tênis de mesa. Em Marty Supreme tudo vira espetáculo e exibicionismo, não só em relação ao protagonista como no filme. Safdie quer que os corpos, a câmera e a história de Marty voem tão rápidos quanto uma bolinha de tênis de mesa. Tudo é para ontem, tudo já foi e isso torna Marty Supreme cansativo em alguns momentos.
Marty Supreme é daqueles filmes que querem envolver emocionalmente o espectador, que almejam dar credibilidade às habilidades esportivas de seu protagonista. Timothée Chalamet treinou anos a fio o jogo até conseguir praticar o esporte a ponto de não depender de dublê para realizar as cenas. As cenas dos torneios são críveis, completamente verossímeis, o que é um objetivo claro desse tipo de filme, dar veracidade ao que se está narrando. Acreditamos porque vemos tudo pelos olhos incrédulos de Marty, vemos o seu suor escorrendo e sua luta para conseguir competir, não importando o quanto de trambique haja nas ações que pratica. Quanto a sua moral, ela é expositiva, não há maiores julgamentos, pois a vida é como deve ser, mas a bravura que emana de seu enfrentamento é construída dramaturgicamente como plena e inquestionável.
Mas apesar de todos os esforços de Josh Safdie, Marty Supreme não escapa dos vícios sagrados das narrativas hollywoodianas. A tendência a só tocar o emocional do espectador é gritante mais uma vez aqui. Mesmo que o roteiro saliente aspectos negativos da personalidade e do caráter duvidoso de Marty, o filme o abraça com convicção. Marty não deixa de ser trambiqueiro, afinal é um desempregado em busca da sobrevivência, mas usa a personagem Kay (Gwyneth Paltrow), uma mulher casada interesseiramente com um homem rico e uma atriz que já teve sucesso, para obter vantagens financeiras, além de prazeres carnais momentâneos.
A discussão que mais achei interessante em Marty Supreme foi a de fazer uma crítica ao uso dos esportes, aqui do tênis de mesa, como um chamariz para que empresários ganhem dinheiro com exibições combinadas, do tipo os famosos Harlem Globetrottes, craques do basquete usados puramente para firulas visando entreter o público, tendência essa bem capitalista de explorar o talento para o mero comércio e não para o esporte em si ou seu desenvolvimento, sempre priorizando o jogo de cartas marcadas.
Contudo, essa discussão interessante e mais crítica se desvia e anula em Marty Supreme para a exposição de uma rivalidade tola entre Marty e Endo, o jogador japonês que o ganha numa final de campeonato mundial, o que acirra um tipo de polaridade entre Japão e Estados Unidos. O que me desagradou enormemente foi ver essa disputa ser levada como uma batalha feroz, e mais ainda, ver o contexto histórico ser, na prática, negligenciado.
Não podemos esquecer que o Japão ainda estava se recuperando de duas bombas atômicas que partiram dos Estados Unidos, em 1945, ao final da Segunda Guerra (1939-45). Esse era um momento de elevação da autoestima do país oriental e Endo representava um orgulho e uma capacidade de se reerguer de uma nação ferida pela derrota na guerra. Safdie constrói Endo como um típico vilão dicotômico hollywoodiano, pois nada sabemos dele ou o que significava verdadeiramente o tênis de mesa para ele, o ponto de vista é todo de Marty, ele sim é humanizado por completo. Creio ser esse instante de uma crueldade imensa, simbolicamente o equivalente ao lançamento de uma nova bomba destruidora ao Japão. Há um uso escancarado do cinema como atributo ideológico, para dignificar um país perante a comparação desprezível com outro.
Pelas razões expostas, Marty Supreme se reafirma como mais um filme típico da indústria de Hollywood a edificar valores morais individualistas, fazendo o público se identificar com ações forçosamente vitoriosas, mesmo sendo Marty um tipo de loser na sociedade estadunidense. As cenas com a atriz Kay reforçam essa contradição, embora as cenas finais forcem uma reconexão de Marty a um sentimento positivo e soe como uma redenção do personagem. Ele venceu, por mais que só ele saiba disso, em uma reafirmação de seu egocentrismo atávico tão comum na formação cultural dos Estados Unidos, em mais um daqueles clássicos filmes que possuem um final o mais feliz possível. Existe algo mais hollywoodiano do que isso?

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