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A ÚNICA SAÍDA (2025) Dir. Park Chan-wook


Texto por Marco Fialho

Algo que se deve valorizar em um realizador é a sua ousadia. E isso, o sul-coreano Park Chan-wook mostra que tem, e de sobra, ao filmar A Única Saída, adaptação do livro O Corte, de Donald E. Westlake, também adaptado pelo cineasta grego Costa-Gavras, em 2005. Enquanto a versão de Costa-Gavras é mais seca, a de Park Chan-wook é um thriller mais escancaradamente cômico e surreal. 

A Única Saída pode não está no mesmo patamar de outras obras geniais do diretor, como a trilogia da vingança composta pelos extraordinários Mr. Vingança (2002), Old Boy (2003) e Lady Vingança (2005) ou ainda de A Criada (2016), mas mantém a qualidade visionária desse diretor que é um dos grandes criadores do cinema do século XXI.

É bem curiosa a maneira como Park Chan-wook constrói A Única Saída, partindo de uma atmosfera inicial paradisíaca, até o personagem Yoo Man-soo.(Lee Byung-hun) adentrar no inferno, para se tornar um serial killer. Quando Park filma o paraíso da vida familiar de Yoo Man-soo, ele o faz pintando essa etapa da vida deles com todas as tintas possíveis, pesando a mão na felicidade eufórica, com direito até à folhas caindo em câmera lenta para forjar pelas imagens e sons um tipo de um quadro harmônico daquela família. Mas essa é a maior característica estilística de Park Chan-wook em A Única Saída, a de extremar não só os limites da história, mas também os da narrativa, impregnando as cenas do mais completo absurdo. 

Se tem algo bonito de ver é como Park Chan-wook filma suas cenas, enchendo nossos olhos de planos magníficos perfeitamente enquadrados. Há um requinte nas tomadas, além de uma primorosa direção de arte, uma montagem rítmica exemplar e uma fotografia impecável. Mesmo na comédia, o diretor não abre mão dos planos acadêmicos e do controle da interpretação dos atores. Isso faz dele, um realizador importante de se acompanhar. É conhecida a história em Park se interessou pelo cinema depois de assistir a Um Corpo Que Cai (1958), de Alfred Hitchcock, cineasta que muito o influencia até hoje. Em A Única Saída, o personagem Yoo Man-soo se utiliza muito de uma característica tipicamente hitchcockiana, a do voyeurismo e Park lança mão de ângulos e planos nitidamente inspirados em seu maior ídolo cinematográfico, para o deleite de todos os fãs do mestre inglês.      

Curioso ainda como A Única Saída desvenda um tipo de humor muito incomum, que abusa da subversão do personagem que é tido como sério, se tornando engraçado pelo inesperado da situação. Já imaginou, um homem engravatado cometendo um crime à mão armada ou tentando jogar um vaso de plantas do alto de uma casa na cabeça de alguém, se portando como um animal cego? Park se inspira muito em um humor que lembra aquele da época do cinema silencioso, em especial o de Buster Keaton, se utilizando de uma ação incomum do homem comum e fazendo disso algo engraçado, patético e desengonçado.           

A meu ver, Park Chan-wook monta uma peça atípica de uma crítica ao universo capitalista contemporâneo, que talvez faça muito mais sentido hoje do que fazia no ano passado e digo isso pensando no próprio mote do filme, a de uma empresa dos Estados Unidos dominando a indústria sul-coreana e impondo o desemprego, a automação e acirrando a competitividade do mercado de emprego. Em um mundo dominado por tarifas de importação mirabolantes recorrentemente anunciadas por um presidente como Trump, que invade um país para sequestrar um outro presidente, nada mal. Quem sabe até Park não se inspire e filme a captura de Nicolas Maduro no futuro, mas óbvio mantendo o humor do qual só ele sabe tirar um sarro como poucos das situações inusitadas.

É interessante como por meio da crítica política e social, Park Chan-wook aprofunda a temática pela ridicularização do homem que se encontra desarmado de sua função social de provedor familiar. O ridículo traduz a essência e o processo de construção da mise en scène de Park, que não poupa esforços para dentro de um cenário convencional subverter o papel de um homem que precisa urgentemente voltar à vida anterior para não perder de vez o status de vida que conquistou, mesmo que tenha que sair dos parâmetros da lei. E como é interessante exatamente nesse ponto, a combinação que Park faz da história com as músicas pops norte-americanas, fazendo tudo ficar mais hilário e debochado, um tipo de camada que se torna um comentário à parte e isso funciona muito bem na narrativa do filme.

Park Chan-woo consegue a proeza de realizar um filme sobre um serial killer, Yoo Man-soo, praticamente o colocando como vítima de uma violência empresarial e privada, a ponto de nos fazer ignorar a violência de seus atos e até de rir dela. Disputar emprego numa realidade afunilada o faz tomar atitudes extremas, mas o diretor surpreende quando entra na vida das supostas futuras vítimas para também os ridicularizar. Estamos diante a uma sociedade injusta para quase todos, onde as máquinas são mais valorizadas do que a força de trabalho humana. Creio que essa essência, que está no livro de Donald E. Westlake é o que move a narrativa posta por Park Chan-wook, que sabe bem adaptar a obra à sua realidade social.

Vale registrar como são hilárias as conversas que Yoo Man-soo trava com seus concorrentes nos empregos, esses encontros narram algumas especificidades da profissão de engenheiros especializados na fabricação em papel, o que confere mais um tom de intrínseca comicidade. Depoimentos como "tenho uma relação de vida com o papel" ou "a textura do papel me emociona". São falas que enriquecem o lado ridículo de um ser eivado de ideal civilizatório, e encobre com picardia os atos e práticas assassinas com as quais está trilhando para tentar sobreviver no caos em que se tornou a sua vida. 

Em A Única Saída, é uma ideia de dualidade que faz a comédia florescer e revelar instintos macabros que são inerentes à ideologia do sistema. É como se um fato, o da demissão, desencadeasse uma violência essencial, contida por frágeis regras de convivência. Como perder a casa conseguida com o trabalho e o que fazer do quanto se aturou de humilhações que fazem parte das rotinas dos empregos? Como não ser patético quando a empresa é a verdadeira instituição patética. Quando Yoo Man-soo vai falar com os novos diretores da empresa, ele não é sequer considerado por esses patéticos seres humanos. Mas o que o mundo faz a não ser transformar as vítimas em algo patético e não os verdadeiros promotores do caos e Park desnuda isso ao rir dessa inversão desleal, onde as vítimas parecem mais vilãs.do que vítimas do sistema.

Por isso, a humilhação dos personagens é flagrante tanto no universo do lar quanto do emprego, afinal, o que diferencia os privilegiados dos sem privilégios são os bens que esses adquirem com o dinheiro. Em casa, a esposa de Yoo Man-soo propõe tirar excessos, inclusive a assinatura da Netflix (nota-se que o filme será distribuído pela plataforma de streaming da MUBI e Park não deixa de fazer um chiste com a situação), mas a humilhação nunca vem sozinha e soma-se ainda o fato do filho roubar, junto com um amigo, uma loja de celulares, sendo pego logo a seguir pela polícia, algo que faz agravar sua humilhação na sociedade. No mundo do trabalho, ele aceita um emprego como estoquista em um supermercado, enquanto um de seus concorrentes vai trabalhar vendendo sapatos numa loja. Essas são camadas de uma violência diária que passam desapercebidas, mas que as pessoas vivem na pele e expressam osm comportamentos dessa estranha sociedade marcada pela competitividade desenfreada.  

Entretanto, deve-se admitir que Park Chan-wook tem uma certa dificuldade para terminar a sua história, ainda mais que a narrativa evolui bem no restante do filme. Realmente, a tarefa não é fácil para a direção, de manter numa proposta de comédia um ritmo intenso em todo o seu percurso. Embora perto do fim se sinta uma efetiva queda, uma irregularidade rítmica e uma dificuldade de se ter uma conclusão à altura do apresentado até então, há uma crítica social importante que sobressai à essa perda de impacto existente nessa parte final.

Contudo, A Única Saída, no todo, é um filme hilário que ri incansavelmente do suposto bem-estar do mundo capitalista. Park constrói cenas desconcertantes que desnudam uma face do sistema normalmente encoberta pelo mundo dos vitoriosos momentâneos. Trabalha com uma faceta dos indivíduos e sua vida aparente e o quanto tudo pode desmoronar de uma hora para outra. Park mostra como no capitalismo tudo que é sólido pode se desmanchar no ar como um vento que entra inesperadamente pela porta derrubando tudo numa casa, mesmo quando ficamos amparados em algumas aparências para não perdermos de vez a nossa pose diante da falácia que é o sistema capitalista. Nesse mundo de hoje, nem tudo o que parece é, e um adendo importante: somente os patrões ganham, enquanto a maioria é composta por perdedores. E Park nos faz lembrar de que no capitalismo é cada um por si, e os patrões, lógico, contra todos.

Comentários

  1. Excelente análise meu amigo. Eu estava doido pra citar os momentos hitcokianos do filme e ri demais com a cena em que eles mencionam a Netflix.

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