Texto por Marco Fialho
Logo na primeira cena de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, a diretora Mary Bronstein mostra ao que veio. Uma câmera na mão está grudada no rosto Linda (uma Rose Byrne impecável) e fica nela enquanto ouvimos uma voz de uma criança e de uma outra mulher, que parece ser uma médica. Essa simples cena evidencia a angústia dessa mulher, aprisionada e enclausurada por uma situação incontrolável: sua filha se alimenta por meio de um tubo conectado a sua barriga e ela está só para encarar essa triste demanda da vida.
Mas há nisso tudo um imenso estranhamento. Não há uma imagem sequer da filha durante o filme, embora ouçamos a sua voz infantil cruzar implacavelmente a imagem. A força dessa ausência transparece o quanto a diretora Mary Bronstein faz questão de nos sublinhar a dor dessa mãe. Se não vemos a imagem da menina, por conseguinte não nos afeiçoamos a ela e centramos nossa atenção em Linda, a mãe.
E esse é o ardil fantástico de Bronstein. A sua escolha de quem filmar é crucial para as pretensões narrativas, já que nos obrigar a acompanhar Linda numa empreitada alucinada. Inevitavelmente somos levados e tragados pelas dores e aflições dessa mãe em busca de tentar dar conta das inúmeras tarefas de seu dia. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é sobre as barreiras que a vida impõe a essa mãe solitária tentando suprir as necessidades de suas muitas jornadas como mãe, profissional de psicologia e condômina. Lazer passa ao largo dessa vida, assim como qualquer resquício de tranquilidade.
Muitas vezes, Mary Bronstein constrói cenas paradoxais tomadas tanto por umas camadas simbólicas quanto por nacos de realismo social. O que representa o rombo que surge no teto de seu apartamento, depois de uma enxurrada de água vinda do vizinho de cima? E o que significa cada personagem masculino de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria? Gosto como a diretora aprecia as perguntas no transcorrer da narrativa. Se Linda como personagem é interrogadora, Mary Bronstein não fica atrás, ela adora questionamentos e é surpreendente como ela vai nos deixando sem pernas e sem ar.
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é sufocante, ácido e preciso ao nos encurralar com sua câmera frontal. Queremos saber mais sobre essa mulher incrível e viva que é Linda, embora queiramos igualmente vê-la liberta dessa vida cruel que vive. Linda é psicóloga, está em crise emocional, afinal, o marido nunca está presente e os seus problemas só se avolumam. Como dar conta de seus pacientes, quando a sua vida emocionalmente está um inferno, morando em um hotel, cuidando da filha doente e da obra do apartamento que o vizinho só adia o começo?
Para Linda, sobra se alienar na medida do possível. Assim, a bebida cai como uma luva, e a maconha e a cocaína também. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é filmado como um grande sonho. As cenas são tão fortes que parece que estamos imersos em um universo onírico. Volta e meia julgamos uma determinada sequência ser um sonho, o que faz essas searas estarem tão amalgamadas que causam no espectador uma confusão e uma vertigem. Não sabemos quando Linda está sonhando, bêbada ou sob efeito de outras drogas, pois essas são a maneira que ela encontrou para sobreviver ao massacre de sua vida cotidiana.
Por essas razões expostas acima, esse é um filme altamente sensorial. Mais do que expor fatos em si, nos é mostrado como esses fatos impactam em Linda. O excesso de responsabilidade está expresso em cada novo plano de Linda. A diretora sabe como vender suas ideias acerca da dificuldade de ser mulher no mundo contemporâneo, com as exigências do trabalho, do lar e dos cuidados com a saúde complicada da filha. Mary Bronstein é muito hábil em costurar algumas cenas, como o corte em que saímos do hamster esmagado no chão para o prato de comida disforme na mesa.
O som de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria também sempre nos chega para acentuar a confusão da cabeça de Linda, do quanto de sons díspares estão postos em cada cena, a ponto de atordoar os espectadores. A banda sonora está ali para exibir o desnorteamento da protagonista, mas também para alimentar o nosso, para que saiamos exaustos do cinema. Em sua narrativa, Mary Bronstein sabe nos fazer sufocar junto com Linda e isso além de incômodo, sugere um pé no estranhamento.
Quando ela enfrenta o mar (sim, a água tem um papel importante no filme), há uma contundência irrefreável. Essa mulher não aguenta mais ser cobrada e sugada pelo mundo, em especial pelos homens. O som do mar é no mínimo paradoxal. Ouvir, insistentemente, esse som nos evoca tanto a infinitude de seu movimento quanto à instabilidade que lhe é inerente e que pode nos levar para o afogamento. O mar hoje pode estar calmo, ou aparentemente calmo, mas pode repentinamente ficar enfurecido, disposto à destruição e a romper os limites esperados. Ele nos prova que a natureza é a maior fonte de aprendizado da humanidade e Mary Bronstein conduz com veemência nossa percepção para essa dura constatação.

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