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DORMIR DE OLHOS ABERTOS (2024) Dir. Nele Wohlatz

Texto por Marco Fialho A diretora alemã Nele Wohlatz vem realizando filmes sobre a experiência de ser imigrante. Seu longa anterior, O Futuro Perfeito já versava acerca do processo de adaptação de imigrantes chineses na Argentina, país em que a diretora já morou. Agora, Nele Wohlatz desembarcou em Recife para filmar  Dormir de Olhos Abertos e dar continuidade às suas reflexões sobre a vida cotidiana dos imigrantes chineses. O filme conta com Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux como um dos produtores associados, isto é, Nele não desembarcou em Recife desamparada, mas na melhor companhia possível.   O mais interessante de Dormir de Olhos Abertos é a simplicidade na qual Nele Wohlatz enseja sua mise-en-scène, sem arroubos interpretativos ou movimentos frenéticos de câmera, mas com a devida paciência para deixar o tempo se expandir numa Recife ensolarada. Se por um lado, existe uma praia tomada por tubarões, por outro, grandes prédios instauram um vazio existencial, ...

ATIREM NO PIANISTA (1960) Dir. François Truffaut

Texto por Marco Fialho Atirem no Pianista é o segundo longa do diretor François Truffaut, que veio logo após o estrondoso sucesso de Os Incompreendidos  (1959). O diretor tinha convicção de que deveria fazer um filme completamente diferente do primeiro e que o enredo passaria bem longe do tema infantil.  Atirem no Pianista possui uma evidente aproximação com o primeiro longa de Godard ( Acossado  - 1960). Há uma estrutura narrativa mais anárquica e desorganizada em ambas as produções, o que chama a atenção e que vale por isso destacar. A homenagem ao cinema policial hollywoodiano também é notório nos dois trabalhos, assim como um invólucro cômico permeando os dois filmes.  O que mais me surpreendeu em Atirem no Pianista é a não-linearidade do roteiro. O filme começa com um determinado personagem correndo na rua, em deliberada fuga, mas ele não é o protagonista, apenas o irmão dele. Mas quando ele adentra no recinto do bar, em que Charlie (Charles Aznavour) toca à noi...

O ÚLTIMO METRÔ (1980) Dir. François Truffaut

Texto por Marco Fialho Em O Último Metrô (1980), François Truffaut marca enfim o seu encontro com o teatro e escolhe a época da ocupação alemã em 1942, como período em que a trama transcorre. Para isso, o diretor francês convidou Catherine Deneuve e o astro em ascensão Gérard Depardieu como protagonistas. A história narra fatos turbulentos, de um momento de grande tensão social, onde ser judeu era um tipo de condenação a priori. O irônico é que mesmo trabalhando um tema histórico, o nosso mestre não deixa de o fazer sem esquecer da inserção, em doses sutis, do amor nessa trama. O filme em si é marcado por uma grande agitação cênica e tem um lado fascinante de adentrar o tumultuado bastidor de um teatro importante, fortemente impactado pelo período da ocupação alemã em território francês. O Último Metrô traz a marca daqueles filmes de Truffaut impregnados de verdade, afinal, o diretor viveu dos 8 aos 12 anos de sua vida sob a ocupação nazista. É notório que a turbulência dessa época est...

A SEREIA DO MISSISSIPI (1969) Dir. François Truffaut

Texto por Marco Fialho O tempo favorece os gênios, até quando eles não são geniais, afinal, ninguém é gênio o tempo todo. No lançamento de A Sereia do Mississipi , François Truffaut pagou um alto preço por não ter realizado mais uma obra emblemática, como já havia feito em filmes anteriores. Essa injustiça hoje pode ser superada facilmente quando vimos a obra dentro de uma mostra retrospectiva, em que ela pode ser lida em conjunto e em um contexto específico.  A Sereia do Mississipi foi acusada de flertar com o cinema hollywoodiano e isso gerou fortes recusas do público que sempre o acompanhou. Mas houve exageros nessas comparações, pois apesar do filme de Truffaut fazer referências a alguns aspectos do cinema clássico norte-americano, sua feição geral continua sendo bastante francesa. O filme foi enquadrado à época como uma obra de aventura (filmado com vultosos recursos), além de oportunista, por Truffaut escalar Jean-Paul Belmondo e Catherine Deneuve, que eram dois astros d...

O QUARTO VERDE (1978) Dir. François Truffaut

Texto por Marco Fialho Um dos temas mais marcantes em Truffaut é o do amor. O Quarto Verde (1978) é um filme da fase mais madura do diretor (e o último trabalho como ator) em que ele trata da ideia de amor sob uma perspectiva inusitada, a do culto da pessoa amada depois de morta. Óbvio que esta fábula de Truffaut tem uma vertente sinistra, mas o mestre não esquece do lirismo e faz de O Quarto Verde uma ode ao absoluto. Há uma não aceitação filosófica de que tudo na vida é provisório e substituível e em contrapartida Truffaut oferece a exacerbação de uma ideia perenal de amor. E o encontro de Davenne com Cecília (uma Nathalie Baye bela e talentosa) é exemplar e o melhor fio condutor de toda a trama, o que nos faz querer ficar ali para saber até onde vai toda aquela loucura, mesmo que seja o amor a maior motivação de todas. Vale salientar, que a ideia de um personagem de Truffaut construir um altar pode ser vista lá em seu filme de estreia,  Os Incompreendidos  (1959), onde o jo...

SUÇUARANA (2025) Dir. Clarissa Campolina e Sergio Borges

Texto por Marco Fialho Mais do que ver Suçuarana como um road movie , vejo-o como um filme-deslocamento. Isso porque não é justamente a experiência que constrói a personagem Dora (Sinara Teles), mas sim a ausência dela. Suçuarana discute a falta de acolhimento de uma personagem que não acha seu lugar no mundo, pelo menos tal como ele está alicerçado. Creio ser difícil abrir um diálogo com esse filme sem se compreender a relação que ele instaura com o mundo e com os espectadores, a consciência intrínseca do desemparo que não só vemos, mas que também sentimos ao assistir o filme. O deslocamento físico da personagem aqui corresponde a um deslocado dela do mundo.     Suçuarana é aquele filme que vem, passa por nós e aparentemente vai embora, mas deixa em algum lugar dentro de nós, suas fraturas enraizadas. A sua relação com o tempo e espaço está relacionada com a ação deslocada de Dora pelo mundo, mas também com o seu mundo interior. Assim, tempo e espaço são ditados pel...

3 OBÁS DE XANGÔ (2024) Dir. Sergio Machado

Texto por Marco Fialho   3 Obás de Xangô aborda por um viés interessante a persistência e a resistência da religiosidade de origem africana na Bahia. Obá dentre outros significados se refere a um título nobiliárquico entre os iorubás, uma representação que aqui no Brasil caiu como uma luva para 3 artistas que serviram de mediadores e divulgadores da cultura iorubá em um momento de muitas agressões vindas da sociedade.  Assim, Carybé (o desenhista, pintor, músico e capoeirista), Dorival Caymmi (compositor e cantor) e Jorge Amado (escritor) se uniram para propagar a cultura afro-baiana. O documentário, dirigido por Sergio Machado ( Cidade Baixa ) resgata gravações inéditas realizadas pelo cineasta João Moreira Salles nas últimas décadas do século XX para discutir a força das artes para uma ressignificação dessa cultura afro-baiana com a sociedade. Essa é a força desse doc, a de frisar o quanto esses três personagens foram cruciais para a sobrevivência de uma cultura antes m...

PICASSO - UM REBELDE EM PARIS (2025) Dir. Simona Risi

Texto por Marco Fialho Assistir ao documentário Picasso - Um Rebelde em Paris me trouxe uma gama de reflexões acerca da narratividade inerente a alguns filmes. As opções da direção para realizar esse trabalho são curiosas e merecem um destaque. Há, na entrada do filme, algumas imagens de quadros de Picasso ressaltando sua paixão pelo universo circense e em paralelo entra em cena todo um aparato sofisticado e estilizado de imagem igualmente circense que introduzirá a figura da atriz iraniana Mina Kavani, que logo descobriremos será a narradora do documentário. A atriz fala sobre o poder do universo do circo para a construção do aparato mental contraditório de Picasso e assim começa o filme. Falar de uma personalidade do porte de Picasso não é fácil mesmo, dado à profusão humana e artística envolvida, mas creio que a cineasta Simona Risi escolhe estratégias duvidosas. A própria Mina Kavani em certo momento diz que conhece a condição de ser imigrante na França, porque como Picasso também ...

A VIDA DE CHUCK (2024) Dir. Mike Flanagan

Texto por Marco Fialho A Vida de Chuck se utiliza de um artifício de montagem, no qual o filme é visto em atos temporalmente de trás para frente, que visa esconder do espectador a explicação acerca do que está sendo visto, e assim, aumentar a expectativa sobre o tema abordado na obra. O Curioso Caso de Benjamin Button (David Fincher) e Amnésia  (Christopher Nolan) já foram exaltados por usarem o mesmo artifício narrativo. Mas será que aqui também funciona?   A grande questão de A Vida de Chuck é que a expectativa sobre a história se quebra logo no começo do segundo ato, quando começamos a descobrir quem afinal é o tal Chuck (Tom Hiddleston) que aparece insistentemente no primeiro ato do filme em quadros fixos como um fenômeno sobrenatural dentro de uma outra história. A nossa curiosidade inicial é desfeita, assim como o elemento sobrenatural que ele trazia (apesar que um pequeno toque sobrenatural ainda persiste em um tal sótão misterioso na casa do seu avô - interpretado...

FAÇA ELA VOLTAR (2025) Dir. Danny e Michael Philippou

Texto por Marco Fialho Usando de sinceridade: você confiaria sua vida a uma pessoa que empalhou seu cão de estimação? No mínimo, seria para ficar com o pé atrás. Os irmãos Andy (Billy Barratt) e Piper (Soro Wang) acham tudo normal e até comentam que acham Laura (Sally Hawkins) uma ótima pessoa. Pois é, sabe-se que sinais de psicopatia nunca são levados a sério em filmes de terror. E o que dizer então de Oli, ou Oliver (Jonah Wren Phillips), com a sua postura de quem tomou um vidro inteiro de ansiolítico? Antes de qualquer coisa, Faça Ela Voltar é um intenso filme de terror psicológico, mesmo que o gore se manifeste com vigor em alguns momentos precisos e que merece uma análise mais atenta e cuidadosa. Os diretores Danny e Michael Philippou ( Fale Comigo ) construíram o universo ficcional de Faça Ela Voltar  de uma maneira crua, depois que no processo de pré-produção viram um amigo passar por uma situação de perda de um ente da família. Faça Ela Voltar tem momentos duros, pesados, ...