Pular para o conteúdo principal

A SEREIA DO MISSISSIPI (1969) Dir. François Truffaut


Texto por Marco Fialho

O tempo favorece os gênios, até quando eles não são geniais, afinal, ninguém é gênio o tempo todo. No lançamento de A Sereia do Mississipi, François Truffaut pagou um alto preço por não ter realizado mais uma obra emblemática, como já havia feito em filmes anteriores. Essa injustiça hoje pode ser superada facilmente quando vimos a obra dentro de uma mostra retrospectiva, em que ela pode ser lida em conjunto e em um contexto específico. 

A Sereia do Mississipi foi acusada de flertar com o cinema hollywoodiano e isso gerou fortes recusas do público que sempre o acompanhou. Mas houve exageros nessas comparações, pois apesar do filme de Truffaut fazer referências a alguns aspectos do cinema clássico norte-americano, sua feição geral continua sendo bastante francesa. O filme foi enquadrado à época como uma obra de aventura (filmado com vultosos recursos), além de oportunista, por Truffaut escalar Jean-Paul Belmondo e Catherine Deneuve, que eram dois astros do momento, com o intuito de atrair mais público para o lançamento. O diretor negou veementemente que tenha escolhido o ator e a atriz pelo chamariz e disse à época ter os escolhidos por ser um grande admirador deles. 

Mas se analisarmos sob o olhar de hoje, poderemos observar que A Sereia do Mississipi é fundamentalmente mais um típico filme de amor de François Truffaut, muito mais do que uma filme de aventura. O tratamento que o diretor confere aos personagens não deixa margem de dúvida quanto a isso. Louis (Jean-Paul Belmondo) é um homem rico e ingênuo, que busca um relacionamento em um classificados de jornal, até conhecer Julia (Catherine Deneuve), uma vigarista que vivia com um outro homem aplicando golpes pelo mundo. 

O que Truffaut faz de genial aqui não é simplesmente fazer Louis descobrir a mecânica do trambique de Julia e a desprezar a partir de então, mas ao descobrir a armação, continuar a querendo e lutar por ela e depois aceita-la como é. Por isso afirmo que essa artimanha do roteiro de A Sereia do Mississipi nada se aproxima dos romances rasteiros produzidos na maioria das vezes por Hollywood, algo que se resumiria entre a eterna luta do bem contra o mal. Truffaut, e estamos aqui em 1969, não escorrega nessa casca de banana e encaminha seu filme para uma discussão interessante sobre a natureza desse amor, que envolve decepção, mas também aceitação e isso não é pouco. Truffaut preferiu nomear a aproximação com o cinema estadunidense de homenagem afetuosa, o que creio ser uma boa definição. É bom não esquecermos que essa definição não é gratuita, pois o diretor começou no cinema como crítico de cinema da prestigiosa revista Cahiers Du Cinéma. Até um filme aparentemente mais despretensioso de Truffaut pode ser uma armadilha para o crítico, afinal estamos diante de um grande conhecedor da história do cinema.

Numa entrevista dada em 1975, Truffaut diz que pensou A Sereia do Mississipi como um roman-photo, que podemos traduzir como as populares fotonovelas, muito comuns também aqui no Brasil nos anos 1960 e 1970. Esse formato no qual o filme foi inspirado, ensejou que Truffaut inserisse algumas referências no decorrer da filmagem e montagem. Tem uma sequência onde Louis e Julia estão no carro e Truffaut faz diversos cortes abruptos (chamados de jump cuts) que muito lembram Acossado (1960), filme de estreia de Jean-Luc Godard, que revolucionou o cinema com sua linguagem insurgente e iconoclasta. Mas Truffaut não para por aí. Ele escancara homenagens a Hitchcock em cenas que lembram vários de seus clássicos, quando Truffaut se utiliza de imagens sobrepostas em movimento que criam sensação de vertigem e pesadelo, com uma música agitada e angustiante em primeiro plano. Ainda tem a homenagem a Jean Renoir (a quem o filme inclusive é dedicado) na cena final onde o casal está numa região de fronteira, que remete ao final de A Grande Ilusão (1937). 

Truffaut já considerou em uma fala, que houve uma baixa aceitação no mundo ocidental de A Sereia do Mississipi, especialmente pela maneira como a direção tratou a questão de gênero. Segundo ele: 

"A Sereia do Mississipi mostra um homem fraco (independente de sua aparência) enfeitiçado por uma mulher forte (mesmo parecendo frágil). Uma tomada de posição secreta me animava em meu trabalho, enquanto eu rodava o filme: para mim, Deneuve era um rapaz, um vadio cheio de experiência de vida, enquanto Belmondo era uma mocinha colocando toda a sua expectativa no casamento. Ele se casa através de anúncios sentimentais". 

Há uma notória inversão de papéis sociais na perspectiva de Truffaut, mas o diretor não deixou de ter coragem de assumir esses riscos na construção dos personagens. De certa forma, A Sereia do Mississipi também marca uma virada na carreira de Truffaut, no que tange a ter um maior cuidado plástico com o que está filmando. Visualmente, esse é um filme bonito, com muitos planos sofisticados e bem trabalhados. Visto com os olhos do século XXI, esse Truffaut ganha em requinte narrativo, sabendo ser leve sem ser pueril, além de mostrar uma relação amorosa a partir de uma ideia de amor nada convencional. Simplesmente, uma bela estratégia de desconstrução do filme romântico. Isso pode não ser genial, mas também passa longe de ser raso ou oportunista. Era só Truffaut sendo Truffaut.

Comentários

  1. Acabei de assistir pela primeira vez. Belíssimo filme. Bem misterioso, até. Gostei do que você escreveu sobre este não ser um filme de aventura, mas de amor. Não poderia concordar mais.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...