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A VIZINHA PERFEITA (2025) Dir. Geeta Gandbhir

Texto por Marco Fialho A Vizinha Perfeita chama atenção pelos dispositivos utilizados pela diretora Geeta Gandbhir para analisar a história de um assassinato ocorrido dentro de um conflito no Condado de Marion, na Flórida, entre uma família negra e uma senhora branca. O dispositivo que mais atrai nesse documentário indicado ao Oscar é o do uso da câmera corporal de policiais em serviço, na maior parte do tempo, o que implica pensarmos sobre essas imagens e as poucas imagens gravadas fora desse contexto.  O uso das câmeras corporais efetiva em um primeiro instante, que boa parte do filme partiu de imagens e sons extraídos quando o conflito já está de alguma forma conflagrado. Se o filme inicia com imagens da polícia chegando após um crime ocorrer, o de Susan Lorincz (a mulher branca) atirar em Ajike Owens (a mulher negra), o que vemos depois são imagens resgatadas de muito antes, que registram uma etapa mais inicial do conflito, com Susan implicando com as crianças vizinhas que brin...
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BOM TRABALHO (1999) Dir. Claire Denis

Texto por Marco Fialho Bom Trabalho é uma baita obra da diretora Claire Denis, com a colaboração luxuosa da fotografia, e em especial da câmera de Agnés Godard. Cada imagem tem um requinte diferenciado, uma expressividade que deixa os diálogos sistematicamente em segundo plano.  O filme me remeteu a filmes como "Querelle", de W. Fassbinder, pelo culto aos corpos masculinos que reiteradamente faz, e me fez pensar ainda em "Apocalipse Now", de Francis Ford Coppola, pela crítica ao militarismo e seus rituais. A câmera tem uma fixação pelos corpos dos soldados na mesma medida em que o oficial Galoup (Denis Lavant) fica ensimesmado por um soldado de sua legião.  Bom Trabalho reproduz os pensamentos e as memórias de Galoup sobre sua experiência incomum e dilacerante em um país da costa africana. O cinema de Claire Denis se expressa como profundamente sensitivo, extremamente tátil, que intenciona a sensação do toque, que induz a ele e nesse sentido é provocador por ensej...

MILONGA (2023) Dir. Laura González

Texto por Marco Fialho Milonga marca a estreia de Laura González como diretora de longas. Pode-se dizer que esse é um belo filme inaugural por saber se apropriar de um ponto de vista, o da personagem Rosa, interpretada pela chilena Paulina García, uma das mais prestigiadas atrizes do mundo, para levar os espectadores a mergulhar na vida dessa solitária senhora, uma recém viúva, cujo filho está preso numa penitenciária. Como é bom ver um filme em que um personagem é o centro do desenvolvimento do enredo. No decorrer da trama vamos conhecendo detalhes e sutilezas acerca de Rosa, vamos nos surpreendendo e encantando com ela. Paulina García sabe como investir nos gestos e olhares, jogando com a nossa atenção e nos despertando para as suas ações e silêncios.  Se tem algo que se destaca na vida da personagem é a sua casa, vistosa e opressiva, que muito diz sobre um passado confortável que teve ao lado do marido, mas que a aprisionou sobremaneira. Mas ao mesmo tempo, Rosa deixa entrever q...

A VOZ DE HIND RAJAB (2025) Dir. Kaouther Ben Hania

Texto por Marco Fialho Nos últimos anos vivemos o assombro da dominação violenta do Estado de Israel em Gaza contra os palestinos. As imagens que chegam pelas reportagens de TV e pelos filmes* são chocantes, de uma desumanidade impossível de aceitar. A indiferença perante a essa ocupação torna-se algo igualmente cruel. A Voz de Hind Rajab , produção da Tunísia, dirigida por Kaouter Ben Hania só fez confirmar o absurdo e as denúncias que lembram os direitos humanos como um elemento fundamental para impor limites para uma agressão de um Estado contra um povo.  A Voz de Hind Rajab poderia ser um documentário, mas não é, na verdade até esbarra nele na sua proposta de mostrar um grupo humanitário, chamado de Crescente Vermelho, que tenta salvar uma criança de 6 anos da morte eminente, depois que um tanque israelense matou seus tios numa rua, situada no bairro de Tel-Hawa, em Gaza. Praticamente todo o filme mostra o trabalho desse grupo no telefone tentando manter a esperança da menina, ...

SIRÂT (2025) Dir. Oliver Laxe

Texto por Marco Fialho A primeira impressão que Sirât nos deixa é de ser uma parábola sobre uma determinada região geopolítica mundial e o que corrobora com essa ideia é o próprio espaço em que o filme transcorre, isto é, o deserto do Marrocos, bem na entrada do Continente africano para os europeus.  Do ponto de vista narrativo, Sirât parte de um filme de busca para um de sobrevivência em um piscar de olhos. Não tem como não ler essa obra sem pensar na relação que a Europa desenvolveu com o Continente vizinho, de como impôs domínios e provocou guerras, atiçando animosidades constantes, assim como sucessivos deslocamentos populacionais.   Logo na cena inicial temos a montagem de enormes caixas de som para a realização de uma festa rave no meio do deserto. Para os europeus, a África é um grande salão de festas e essa é uma metáfora bem interessante que Sirât evoca. Só que no meio dessa festa onde o paraíso se avizinha, tem um inferno bem mais próximo, algo que um pai, Luiz...

A ÚNICA SAÍDA (2025) Dir. Park Chan-wook

Texto por Marco Fialho Algo que se deve valorizar em um realizador é a sua ousadia. E isso, o sul-coreano Park Chan-wook mostra que tem, e de sobra, ao filmar A Única Saída , adaptação do livro O Corte , de Donald E. Westlake, também adaptado pelo cineasta grego Costa-Gavras, em 2005. Enquanto a versão de Costa-Gavras é mais seca, a de Park Chan-wook é um thriller mais escancaradamente cômico e surreal.  A Única Saída pode não está no mesmo patamar de outras obras geniais do diretor, como a trilogia da vingança composta pelos extraordinários Mr. Vingança (2002),  Old Boy (2003) e Lady Vingança (2005) ou ainda de  A Criada  (2016), mas mantém a qualidade visionária desse diretor que é um dos grandes criadores do cinema do século XXI. É bem curiosa a maneira como Park Chan-wook constrói A Única Saída , partindo de uma atmosfera inicial paradisíaca, até o personagem Yoo Man-soo.(Lee Byung-hun) adentrar no inferno, para se tornar um serial killer . Quando Park filma o pa...

HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET (2025) Dir. Chloé Zhao

Texto por Marco Fialho Hamnet: A Vida Antes de Hamlet possui uma estrutura narrativa basicamente delimitada em duas partes. Na primeira, a diretora Chloé Zhao edifica a família de Shakespeare (Paul Mescal), o seu encontro com Agnes (Jessie Buckley) e a vinda de três filhos. O filme abarca uma fase de Shakespeare antes do reconhecimento, por isso vemos ele contrariando as ordens do pai, que o quer seguindo a sua profissão, a de luveiro. Na segunda, temos a crise dessa família e a eclosão de Shakespeare pelos palcos elizabetanos de Londres. É bem notório que a primeira parte é bem inferior à segunda, contudo, precisamos admitir que vista em seu conjunto, a primeira prepara zelosamente o terreno para que tudo seja grandioso na segunda parte. Chloé Zhao adaptou Hamnet: A Vida Antes de Hamlet  do livro Hamnet, escrito por Maggie O'Farrell, em que a morte do filho Hamnet provoca uma cisão na família e empurra Shakespeare para uma crise descomunal, drama esse que deslocará para a criação ...

QUEM BATE À MINHA PORTA? (1967) Dir. Martin Scorsese

Texto por Marco Fialho A estreia cinematográfica de Martin Scorsese é um acontecimento. Quem Bate à Minha Porta?  é resultado de um filme que o diretor iniciou ainda como estudante na Universidade de Nova York, em 1965. O que mais chama atenção no filme é a sua grande ousadia narrativa, com várias tomadas criativas com a câmera em movimento e closes expressivos.  Se Quem Bate à Minha Porta?  é marcada por uma certa irregularidade e por uma direção errática, há uma notória paixão de Scorsese pelo cinema e sua história. Algumas influências são bem explícitas, como John Cassavettes, em especial na narrativa livre e inventiva de seu primeiro longa,  Sombras , de 1959. Gosto como o filme dialoga com Os Boas Vidas (1953), de Federico Fellini, por meio de um grupo de amigos de um bairro em Scorsese, sempre a sua Little Italy, enquanto em Fellini, temos a sua Rimini. Entretanto, mais uma vez, Scorsese presta homenagem aos seus ancestrais italianos.  Quem Bate à Minha Po...

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI (1974) Dir. Martin Scorsese

Texto por Marco Fialho  Uma primeira informação importante sobre Alice Não Mora Mais Aqui é que esse é um projeto que foi iniciado pela atriz Ellen Burstyn, que buscava um diretor para o roteiro de Robert Getchell, até que Francis Ford Coppola indicou o jovem Scorsese para ela. Então Burstyn vê Caminhos Perigosos , seu último filme e se apaixona e decide conversar com Scorsese.  A maior preocupação de Burstyn era garantir que a história tivesse uma perspectiva feminina ao invés de masculina, como quase todas são narradas. Por isso, a viúva Alice Hyatt é a grande protagonista de Alice Não Mora Mais Aqui , que junto com seu filho Tommy (Alfred Lutter) tentam recomeçar uma vida mudando de cidade.  A consagrada e exigente crítica estadunidense Pauline Kael se entusiasmou com a obra, a denominando de "cheia de engraçada malícia e vertiginosa vitalidade", mas surpreendentemente, não se atentou para a proposta feminista do filme. Já o crítico, também estadunidense, Roger Ebert n...

ATO NOTURNO (2025) Dir. Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Texto por Marco Fialho Tudo começa intenso em Ato Noturno , novo filme da dupla Marcio Releon e Filipe Matzembacher ( Tinta Bruta ), um thriller erótico queer com ótimas interpretações e uma premissa muito bem alinhavada, que parte de uma relação amorosa entre Matias (Gabriel Faryas), um ator ambicioso e Rafael (Cirillo Luna) um político em franca ascensão.  O filme semeia uma ideia de que políticos e atores notórios quando gays não podem expor seus sentimentos em público, mantendo um silêncio de corpos reprimidos numa sociedade conservadora pré-disposta a não aceitar a alteridade. Essa é uma camada que não impede os personagens a darem prosseguimento numa relação repleta de intimidades sexuais.  A noite é o grande palco dessa relação proibida, que se impõe por meio de cenas de grande impacto visual, com o predomínio de uma estética neon, com cores artificiais a acentuar uma atmosfera noir contemporânea. O azul, o laranja e o amarelo dão o tom noturno que contrasta com as co...