Texto por Marco Fialho A Vizinha Perfeita chama atenção pelos dispositivos utilizados pela diretora Geeta Gandbhir para analisar a história de um assassinato ocorrido dentro de um conflito no Condado de Marion, na Flórida, entre uma família negra e uma senhora branca. O dispositivo que mais atrai nesse documentário indicado ao Oscar é o do uso da câmera corporal de policiais em serviço, na maior parte do tempo, o que implica pensarmos sobre essas imagens e as poucas imagens gravadas fora desse contexto. O uso das câmeras corporais efetiva em um primeiro instante, que boa parte do filme partiu de imagens e sons extraídos quando o conflito já está de alguma forma conflagrado. Se o filme inicia com imagens da polícia chegando após um crime ocorrer, o de Susan Lorincz (a mulher branca) atirar em Ajike Owens (a mulher negra), o que vemos depois são imagens resgatadas de muito antes, que registram uma etapa mais inicial do conflito, com Susan implicando com as crianças vizinhas que brin...
Texto por Marco Fialho Bom Trabalho é uma baita obra da diretora Claire Denis, com a colaboração luxuosa da fotografia, e em especial da câmera de Agnés Godard. Cada imagem tem um requinte diferenciado, uma expressividade que deixa os diálogos sistematicamente em segundo plano. O filme me remeteu a filmes como "Querelle", de W. Fassbinder, pelo culto aos corpos masculinos que reiteradamente faz, e me fez pensar ainda em "Apocalipse Now", de Francis Ford Coppola, pela crítica ao militarismo e seus rituais. A câmera tem uma fixação pelos corpos dos soldados na mesma medida em que o oficial Galoup (Denis Lavant) fica ensimesmado por um soldado de sua legião. Bom Trabalho reproduz os pensamentos e as memórias de Galoup sobre sua experiência incomum e dilacerante em um país da costa africana. O cinema de Claire Denis se expressa como profundamente sensitivo, extremamente tátil, que intenciona a sensação do toque, que induz a ele e nesse sentido é provocador por ensej...