Pular para o conteúdo principal

Postagens

PRESENÇA (2025) Dir. Steven Soderbergh

Texto por Marco Fialho Não deixa de ser interessante ver Steven Soderbergh passeando pelo terror psicológico em seu mais novo filme chamado Presença . Fica evidente a pouca familiaridade do diretor por esse gênero , já que o filme estruturalmente se arquiteta mais como um drama do que como um suspense. Mas esse detalhe não deixa de trazer um aspecto mais sóbrio a Presença  e isso é notório logo na primeira cena em que a câmera está colocada na parte de dentro da janela, como se alguém olhasse a chegada de uma pessoa à casa. Esse fantasma já está ali, portanto, bastante naturalizado no campo diegético. Ele fantasma não promove maldades ou algo do tipo, o que faz a gente crer que o mal estaria no mundo, não ali no interior da casa.  Presença foi inspirado em uma casa em que a família de Soderbergh morou, que no passado havia acontecido um assassinato, em que a mãe foi morta pela filha. Embora tudo pareça ser ameaçador ou instaurar uma tensão, o que vemos é uma atmosfera familiar...
Postagens recentes

OESTE OUTRA VEZ (2024) Dir. Érico Rassi

Texto por Marco Fialho As primeiras imagens de Oeste Outra Vez são emblemáticas e elas expressam uma aridez fora do comum para um país como o nosso. Mas essa aridez passa longe do gratuito, ela é um marco de identidade dos personagens que acompanharemos logo a seguir, numa briga a mão, com claro caráter cômico, por conta de uma mulher. E diga-se de passagem que essa é a única e rápida vez que uma mulher aparece no filme.  A maior marca de Oeste Outra Vez  está na transposição dessa paisagem para uma interiorização dos personagens. É um filme de fora para dentro, onde a paisagem e o distanciamento do território se desloca para dentro do filme com uma força impressionante, esse é o dispositivo que vemos o diretor Érico Rassi aplicar com tremenda eficácia em sua obra. A exploração da aridez do território traz Oeste Outra Vez  para o ambiente do faroeste, para a masculinidade desse universo cinematográfico que tanta história fez na cinematografia clássica dos Estados Unidos e...

CÂNCER COM ASCENDENTE EM VIRGEM (2025) Dir. Rosane Svartman

Texto por Marco Fialho  Confesso que fui entusiasmado assistir a Câncer Com Ascendente com Virgem , de Rosane Svartman, depois de ouvir muitos depoimentos favoráveis e críticas efusivas, mas realmente fiquei pasmo com o que assisti. E não estou aqui para discutir o imenso carisma do filme e a temática super envolvente e até providencial de se falar de um assunto melindroso. Requer muita empatia e comprometimento com o tema, e isso o filme tem de sobra.  Porém, para além dessa relevância temática, tem um filme para se analisar, e nesse prisma, creio até ser difícil de comentar. Para mim, não há ali exatamente um filme, e sim uma peça publicitária institucional sobre um processo de tratamento médico altamente invasivo e penoso. O roteiro segue exatamente essa lógica de diálogo com o público, de como expor um tema delicado com o máximo de leveza, para não ferir a suscetibilidade das pessoas, inclusive as que já foram afetadas por essa terrível doença ou de familiares que já passa...

A BATALHA DA RUA MARIA ANTÔNIA (2023) Dir. Vera Egito

Texto por Marco Fialho Se Ainda Estou Aqui ampliou a necessidade de se rever o absurdo da violência da ditadura a partir de um ambiente de uma família abastada, A Batalha da Rua Maria Antônia , leva essa violência para dentro de uma instituição pública de ensino superior, no caso, da Faculdade de Filosofia da USP. E a diretora e roteirista Vera Egito realiza um filme com imensa pungência ao sublinhar a necessidade da luta contra os regimes de exceção, atualidade essa que também se afinal com o filme de Walter Salles. O filme narra as 21 horas que antecederam um conflito entre estudantes e o exército durante o regime militar e que culminou em uma tragédia histórica para o país. A diretora arremessa os espectadores para dentro de um ambiente de grande tensão, movido por 21 planos-sequências de tirar o fôlego. Aqui, os planos-sequências mostram as várias perspectivas da história, examinado o pensamento de professores e alunos, suas atitudes e decisões tomadas no calor da hora, no ápice da...

SEMPRE GAROTAS (2024) Dir. Shuchi Talati

Texto por Marco Fialho Sempre Garotas , dirigido pela diretora Shuchi Talati,   trata de um dos temas mais comuns do cinema indiano: o da repressão sexual sobre as mulheres e o que o filme nos oferece é uma rara visão de uma mulher, o que de certo valoriza a abordagem e nos faz ficar mais atento ainda ao fato narrado.  As reflexões de Shuchi Talati partem da história de Mira (Preeti Panigrahi), uma jovem do ensino médio de um internato que se defronta com dois desafios gigantes: se manter como a melhor aluna da turma, sendo a monitora-chefe e lidar com a sexualidade cada vez mais se aflora fisicamente, que se acentua com a chegada de Sri (Kesav Binoy Kiron), um jovem disposto a conquista-la com firmes propósitos de sedução. Mas no meio do caminho de Mira tem Anila (Kani Kusruti), a mãe, uma jovem senhora carente, que também faz seus jogos de sedução com o jovem pretendente.  A partir dessa história que Shuchi Talati constrói momentos de permanente tensão entre os personag...

"O BIXIGA É NOSSO!" (2025) Dir. Rubens Crispim Jr.

Texto por Marco Fialho "O Bixiga é Nosso!"  é aquele documentário que não tem vergonha de assumir o seu lugar no mundo. Se coloca como crucial na discussão sobre a importância da cultura como meio de luta para uma população marginalizada pelo poder instituído e pelas elites escravocratas que ainda mandam na política brasileira. Creio que estar marginalizado em São Paulo é obrigar-se a uma visão mais crítica da história da cidade, de se saber em contínua resistência frente ao avassalador poder econômico que destrói a natureza em nome do lucro.  Por isso, o documentário de Rubens Crispim Jr. começa com a luta comunitária para se reconhecer o passado quilombola da região, assim que as obras do metrô ganham força e revelam os subsolos do Bixiga, os vestígios de uma comunidade que resistiu urbanamente contra o domínio patriarcal das elites paulistas.  Rubens Crispim Jr. assume todos os riscos ao falar de uma região rica culturalmente, que possui um passado de grande lastro na ...

ADOLESCÊNCIA (2025) Dir. Philip Barantini

Texto por Marco Fialho Não é praxe analisarmos série aqui no Cine Fialho, mas Adolescência , dirigida por Philip Barantini, é um dos grandes assuntos do momento, fora que sua duração não passa de 4 horas de duração, o que nos motivou a vê-la e escrever algumas reflexões sobre ela.  A série é composta por 4 episódios filmados em 4 planos-sequências independentes, de mais ou menos 1 horas de duração cada. Muitos estão a comentar acerca da qualidade da filmagem, isto é, da ótima execução dos planos-sequências; da incrível direção de atores, fruto de ensaios muito bem executados que fazem os atores e atrizes serem impecáveis em suas interpretações; e lógico, da importância do tema da violência a partir de grupos e discussões vindos da internet e que confluem no cotidiano contemporâneo. Adolescência narra, a seu modo, a história do assassinato de Kate Leonard (Emilia Holliday), uma adolescente, pelo adolescente Jamie Miller (Owen Cooper). O que mostra os 4 capítulos da série e o que ess...

TODO DIA É DIA DE FEIRA (2024) Dir. Silvia Fraiha

Texto por Marco Fialho A feira livre faz parte do patrimônio imaterial da cultura carioca e presente no imaginário dessa cidade que aprecia sempre os modos de vida simples e descontraído de levar a vida. No mundo de hoje, regido pelo comércio virtual e pela impessoalidade, nada mais vivo, dinâmico e humano do que a ideia de se comprar mercadorias, em sua maioria frescas, no olho a olho com o feirante, esse ser que precisa usar muitas vezes do seu carisma para sobreviver.  O documentário  Todo Dia É Dia de Feira , dirigido por Silvia Fraiha,   parte dessas premissas para mostrar como funciona esse tipo de comércio tão carioca e que resiste aos hortifrutis, aos grandes supermercados e feiras virtuais. Mas nem tudo é moleza. Fraiha não esquece das noites mal dormidas e pelas madrugadas passadas nos galpões do CEASA e da CADEG para que logo nos primeiros raios da manhã, o público tenha disponível o que tem de mais fresco no comércio de frutas, verduras, legumes e peixaria. Si...

THE ALTO KNIGHTS: MÁFIA E PODER (2025) Dir. Barry Levinson

Texto por Marco Fialho The Alto Knights: Máfia e Poder  vem se somar aos tradicionais filmes de máfia produzidos na história do cinema. Entretanto, não é aquele filme de máfia onde vemos sucessivos assassinatos entre as gangues rivais com ação desenfreada dominando a narrativa. O experiente diretor Barry Levinson (Bugsy e Avalon), realiza um filme que aborda os bastidores da vida de Frank Costello, um mafioso já idoso, que vive um período turbulento com Vito Genovese, o seu grande rival do presente e ex-amigo de infância e juventude.  O diferencial dessa obra é ver Robert De Niro interpretando tanto Frank quanto Vito em mais um trabalho de composição muito acertado e cuidadoso. Mas porque  The Alto Knights: Máfia e Poder , mesmo tendo um ator do porte de De Niro não consegue se impor como uma obra de peso? Dentre vários fatores a serem elencados, creio que o roteiro seja o mais determinante por não ter desenvolvido bem a trama. O filme fica enclausurado em velhas fórmulas...

MILTON BITUCA NASCIMENTO (2024) Dir. Flávia Moraes

Texto por Marco Fialho Antes de começar a falar de Milton Bituca Nascimento , documentário dirigido por Flávia Moraes,   preciso declarar meu total comprometimento com o tema Milton Nascimento. Inclusive, confesso que aprendi a gostar do mundo ouvindo Milton Nascimento. Ele foi o meu griot ao cantar histórias do meu povo, em especial dos negros e me contou das injustiças, mas também das belezas que econtrou nas andanças que fez pelo nosso país. Hoje viajo para encontrar as suas canções, subo ladeiras e dobro esquinas na esperança de encontrar pessoas que ele tanto falou. Todas, sempre, ficaram em mim, e nas paisagens que tantas vezes visitei com suas músicas. O que seria de todos nós sem os sonhos que Milton tanto evocou nas suas obras. Escrevi, em 2023, uma crônica sobre Milton e o Clube da Esquina, que pode ser lida no link abaixo: https://cinefialho.blogspot.com/2022/10/musicas-que-habitam-em-mim-n-8-milton.html?m=1 Por esses fatores acima mencionados, a expectativa para assisti...