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FLORESTA DOS LAMENTOS (2007) Dir. Naomi Kawase

Texto por Marco Fialho O cinema de Naomi Kawase é rico em tornar relações humanas e com a natureza em um caminho para o mundo sensorial tanto dos personagens quanto dos espectadores. Floresta dos Lamentos reverbera esse cinema com uma imensa força. O filme tem dois personagens fundamentais: Shigeki (Shigeki Uda) e Mackiko (Mackiko Ono). Ambos são marcados por expressivas perdas. Shigeki, é viúvo há 33 anos e ainda manda cartas para a sua amada esposa, enquanto Mackiko, carrega a sombra e a culpa pela perda de um filho.  A presença angustiante dessas ausências antes de serem postas como o principal, servem apenas como base para tudo o que Kawase quer construir com e para esses dois personagens. Debaixo dessa superfície de dores, a diretora mergulha em um mundo sensorial para além do que é visível, até alcançar mistérios e fendas profundas que levam os personagens no âmago de suas almas. Por isso, Floresta dos Lamentos pode ser lido não só pela história que narra, mas para instaurar ...

TERRA DEVASTADA (2025) Dir. Frederico Machado

Texto por Marco Fialho Um homem está numa floresta montado em um cavalo enquanto a câmera o acompanha sem pressa. A música que ouvimos na mesma cena nos remete aos faroestes, com uma guitarra tocada com slide. A tela fica preta e entra o título do filme e volta numa imagem que depois descobriremos que se passa no passado. Veremos na continuidade o massacre de uma família pela posse de uma terra. O sobrevivente desse massacre é uma menino, justamente o que está no cavalo na primeira cena. Essas são as credenciais que o diretor Frederico Machado apresenta para o espectador, na apresentação de seu nome filme, Terra Devastada . Quem espera mais uma daquelas obras metafísicas, quase impenetráveis, errou feio, porque dessa vez o diretor aposta em um cinema mais cru, onde a disputa pela terra e por corpos estão postos de maneira direta, sem muitos rodeios. Um filme de personagens, onde  Shakespeare marca um encontro inusitado com Sergio Leone (em especial as cenas das matanças, com os cl...

O ACORDO (2025) Dir. Mohamed Rashad

Texto por Marco Fialho O Acordo , primeiro longa de ficção dirigido pelo cineasta egípcio Mohamed Rashad, trata de temas fortes e comuns das periferias dos países da América do Sul, Ásia e África, que reúnem favelização, pobreza, tráfico de drogas, exploração da mão-de-obra, falta de escolaridade juvenil, famílias sem a presença paterna e violência.  Em O Acordo , os jovens Hossam e Maro não estudam, apenas precisam trabalhar para ajudar a manter o lar onde a mãe doente tem não condições de laborar por ter um problema grave de inchaço do pé. O pai deles, Sayed, trabalhou numa metalurgia e agora, Hossam, o filho de 22 anos e Maro de 12 anos, herdam o posto do pai, morto em um suposto acidente de trabalho.  Mohamed Rashad realiza um filme repleto de realismo, em que salienta as condições econômicas difíceis da família, a casa pobre e a necessidade de aceitar o jogo posto pelo sistema a eles. Hossam teve no passado adolescente uma relação com o tráfico, mas agora quer trilhar o c...

THE MASTERMIND (2025) Dir. Kelly Reichardt

Texto por Marco Fialho Kelly Reichardt está no panteão das grandes cineastas do século XXI. Obra a obra ela vem mostrando uma imensa inteligência cinematográfica, um pensamento muito próprio sobre a mise-en-scène, o quadro e como construir histórias já contadas com um viés contemporâneo, como já fez com o faroeste, em First Cow (2019). Em The Mastermind , Reichardt lança um olhar, ou melhor, uma releitura dos tradicionais filmes de assalto.  Se a base dos filmes de assaltos são o planejamento, a ação e a negociação, aqui não existe nenhuma dessas fases. Kelly Reichardt realiza uma obra irônica, onde o ambiente tragicômico dá o tom e o protagonista é um ser desprovido de carisma e entusiasmo. Aliás, tudo em The   Mastermind é aparentemente sem graça, ficamos nos perguntando que filme é esse que estamos vendo, de um cara incoerente, que na teoria teria tudo, uma esposa, dois filhos e pais com recursos financeiros (o pai é um juiz), um típico homem de classe média alta de Massach...

HOMO ARGENTUM (2025) Dir. Mariano Cohn e Gastón Duprat

Texto por Marco Fialho O cinema argentino é um dos cinemas mais plurais do mundo. Nele você encontra diversos formatos, todos azeitados e contemplados com filmes bem produzidos e com roteiros bem acabados. Uma das provas disso é a capacidade de realizar comédias populares, com linguagem direta e inteligente. A dupla de diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat são ótimos representantes desse cinema, e Homo Argentum ,   seu mais recente trabalho ,  comprova essa competência múltipla argentina.  Homo Argentum almeja, por meio de 16 curtas, todos protagonizados pelo ator Guillermo Francella, traçar um painel ou projetar uma tipologia do argentino, mas tendo o humor como ponto de partida da narrativa. Antes de tudo, trata-se de uma bela homenagem ao talento de Francella, que passeia por papéis completamente diferentes nos 16 episódios ou pequenas esquetes.  A cada episódio vamos conhecendo algum aspecto da sociedade argentina e o primeiro creio que seja o episódio mais simb...

FUTURO FUTURO (2025) Dir. Davi Pretto

Texto por Carmela Fialho e Marco Fialho Futuro Futuro , dirigido por Davi Pretto ( Rifle ), mergulha no universo humano do esquecimento, após sucessivas tragédias sofridas pela humanidade. K (Zé Maria Pescador) acorda em uma escola desconhecida, com pessoas desconhecidas e assustado com o fato de ter perdido totalmente a memória. A síndrome do esquecimento atinge a maioria dos alunos e a professora tenta ajudá-los com slides de imagens cotidianas sucessivas e um oráculo de Inteligência Artificial que através do olho e um raio infravermelho reativa memórias no cérebro.  Em um futuro distópico, a sociedade encontra-se segregada entre ricos morando em condomínios de luxo e pobres nas favelas. A sensação de abandono perpassa todo o filme e a eminência do fim do mundo atormenta a elite. Futuro Futuro discute a consciência frágil da elite em contraste com a alienação dos mais pobres. Assim como o polvo do filme, K é um deslocado. O polvo está preso em um aquário, já K, se vê como pertenc...

O RISO E A FACA (2025) Dir. Pedro Pinho

Texto por Marco Fialho O Riso e a Faca encanta pela sutileza que adentra em temas sensíveis. É bastante interessante como o diretor Pedro Pinho joga seu protagonista, Sergio (Sergio Coragem), aos leões. A aventura desse europeu/português em solo africano da Guiné Bissau é desconcertante, isso para dizer o mínimo. Ele representa uma OGN (Organização Não Governamental) e precisa emitir um relatório sobre o impacto ambiental, para dar continuidade a obra de uma estrada que atravessará o deserto e uma área de mangue. A pressão sobre ele é pesada. Pedro Pinho realiza uma obra onde o ambiente paisagístico e humano africano tem um imenso peso, mas antes de tudo estabelece uma relação profunda com o tempo. A diversidade de línguas, costumes e tradições vão sendo mostradas no decorrer das 3 horas e trinta e um minutos de filme, que passam com grande prazer diante aos nossos olhos. A cada nova sequência ficamos como o personagem, sem saber o que vem pelo caminho.  O clima de sedução se estab...

PEQUENAS CRIATURAS (2025) Dir. Anne Pinheiro Guimarães

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho Pequenas Criaturas marca a estreia solo em longas da diretora Anne Pinheiro Guimarães, que em 2022 codirigiu o filme Transe , com Carolina Jabour. É surpreendente a maturidade artística demonstrada por ela em cada cena filmada, se levarmos em consideração o seu pouco tempo de carreira como diretora. É muito bonita a maneira como Anne Pinheiro Guimarães filma o espaço de Brasília, a ponto de eleva-lo a um dos protagonistas da história. Isso é uma qualidade só possível devido a decupagem da diretora. A mise-en-scène de Anne incorpora o espaço por meio de um olhar político sobre ele. Tal como Michelangelo Antonioni, o espaço não só participa como também comunga com a solidão dos personagens. Por isso, a solidão entra aqui como um elemento fundamental para se pensar Pequenas Criaturas .  Algo que merece ser mencionado é a direção de arte e a cenografia de Cláudia Andrade, que reconstitui com raro esmero os mínimos detalhes do ano de 1986, desde ...

MASSA FUNKEIRA (2025) Dir. Ana Rieper

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho A primeira cena de Massa Funkeira sintetiza pelo som muito sobre o que é esse novo documentário de Ana Rieper: vemos um computador e sons que emulam os gemidos dos prazeres do sexo. De cara somos arremessados nesse universo que une sexo e funk.  A proposta de Rieper é fazer um enorme painel desse território do funk contemporâneo, desde os precursores, como Mr. Catra e Valeska Popozuda, Tati Quebra Barraco até os mais atuais como DJ Jéssika, MC Dandara, MC Copinho e tantos outros. O painel é imenso e Rieper consegue sim traçar uma geral desse funk da putaria. Mas é lógico que em determinados momentos nos ressentimos de um maior aprofundamento de cada personagem, pois quando estamos querendo saber mais, logo Rieper pula para outro personagem.  Talvez esse seja o desafio maior de Massa Funkeira , subtrair em pouco tempo muito de seus personagens, pois a maioria demonstra um grande potencial para o protagonismo, mas isso é algo que Riep...

ARY (2025) Dir. Andre Weller

Texto por Marco Fialho Ary , é um documentário em tom de homenagem. E como o Brasil demorou a realizar uma obra sobre esse que foi o primeiro brasileiro a fazer um sucesso astronômico nos Estados Unidos, numa época em que o cinema deles ganhava plateias no mundo inteiro. A abertura de Ary é uma bela homenagem à Era do Rádio, com Dira Paes e Stepan Necerssian emulando esse tempo onde o rádio foi uma febre no Brasil, numa rara cena onde a ficção invade o documentário.      Andre Weller realiza sua estreia em longas esbanjando sensibilidade e cuidado ao abordar a carreira de um dos grandes nomes da música brasileira, que também foi radialista e locutor de futebol. A montagem de imagens é conduzida pelas narrações de Lima Duarte como Ary Barroso, salientando o viés poético dos escritos deixados por Ary. Há em Ary uma pesquisa muito esmerada, com imagens de arquivo muito bem selecionadas, conseguem dialogar com a narração. As imagens de carnaval de rua são fantásticas e p...