Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho
A primeira cena de Massa Funkeira sintetiza pelo som muito sobre o que é esse novo documentário de Ana Rieper: vemos um computador e sons que emulam os gemidos dos prazeres do sexo. De cara somos arremessados nesse universo que une sexo e funk.
A proposta de Rieper é fazer um enorme painel desse território do funk contemporâneo, desde os precursores, como Mr. Catra e Valeska Popozuda, Tati Quebra Barraco até os mais atuais como DJ Jéssika, MC Dandara, MC Copinho e tantos outros. O painel é imenso e Rieper consegue sim traçar uma geral desse funk da putaria. Mas é lógico que em determinados momentos nos ressentimos de um maior aprofundamento de cada personagem, pois quando estamos querendo saber mais, logo Rieper pula para outro personagem.
Talvez esse seja o desafio maior de Massa Funkeira, subtrair em pouco tempo muito de seus personagens, pois a maioria demonstra um grande potencial para o protagonismo, mas isso é algo que Rieper administra bem durante o decorrer da montagem, o de dosar o tempo de tela e o assunto de cada personagem.
Esses personagens trazem frases realmente impactantes, assim como as músicas que eles cantam, os seus depoimentos são diretos. A bailarina de MC Copinho diz que "do jeito que eu danço, eu transo". Mais direto do que isso, impossível. A maioria dos depoimentos reafirma a ideia que falar de sexo é algo comum, já que todos gostam e fazem sexo na sua vida cotidiana, e que os melindres quanto ao tema demonstram o quanto as pessoas são hipócritas. Valeska Popozuda declara com todas as letras: "é preciso por a xereca na mesa", em um derivado do famoso "vou botar o pau na mesa".
A diretora Ana Rieper priorizou dar um protagonismo maior as compositoras e MCs femininas, dando voz aos desejos, sucessos e sonhos das mulheres em um ambiente em que homens sempre predominaram. Massa Funkeira reafirma o funk como manifestação cultural ao sublinhar a visão de mundo, identidade, autenticidade e autoralidade das crias das favelas cariocas, mobilizando nos bailes de rua milhares de pessoas, com shows e danças noite adentro.
Interessante como Massa Funkeira revela muito acerca desse mundo funkeiro e das origens familiares desses personagens. Um bom exemplo é a da bailarina de MC Copinho, quando ela diz que seu pai tinha três mulheres e ainda abusava das duas filhas. Ela termina dizendo: "o dia que ele morreu foi uma felicidade". Esse é um depoimento duro, mesmo que ela discorra com o máximo de leveza possível esse fato.
Massa Funkeira passeia por vários bairros cariocas (e chega também até Niterói), pelos principais bailes, como o do Tigrão e o da Disney. O funk nas periferias funciona ainda como uma forma de ascensão social. O filme ainda traz momentos emocionantes, como a que Deize Tigrona enche os olhos d'água ao dizer que viajou o mundo, que foi até a Europa para mostrar a sua arte. Apesar do sucesso, os personagens evidenciam o tanto de preconceito vindo do asfalto, mas MC Rebecca resume tudo dizendo: "o funk é nossa MPB". Fiquei a imaginar, como não amar essa frase tão lapidar.
Ana Riper como Massa Funkeira mostra o quanto o funk hoje possui uma poderosa mídia cultural, irrefreável, além de demonstrar a capacidade de criação do nosso povo, capaz de produzir arte em qualquer situação. Mas o documentário também desmitifica a máxima de que o funk da putaria seja realizado por pessoas sem estudo. Muitos tem muito estudo, mas amam fazer a música que fazem e essa visão sem preconceito da diretora é fundamental para que não haja um julgamento ou até mesmo um pré-julgamento.
Lá para o final de Massa Funkeira surgem momentos muito interessantes, em especial, com o DJ Vitinho da Penha, o príncipe da putaria, onde vemos ele na Vila do Cruzeiro realizando um show repleto de gente. A melhor parte, e que senti que havia algo que merecia ser melhor aprofundado, que é quando se fala do processo de edição do som, que nada mais é do que o processo de fabricação do som do funk, de sua batida específica e das variações possíveis.
Somos então, perto ainda do fim do documentário, apresentados ao Afro-House, esse estilo mais recente em que o som do batuque das religiões afrobrasileiras invadem as gravações. Esse tema merecia ser melhor estudado e esmiuçado, pois nele há uma conexão do funk carioca com algo ligado à ancestralidade. E o mais genial depois é quando Ana Rieper corta dessas explicações para o Piscinão de Ramos, um espaço de lazer onde o funk da putaria se sente muito bem. As imagens são ótimas e reveladoras.
Se Ana Rieper deixa de aprofundar certas questões que esse mundo tão perto e tão distante de quem vive no asfalto, nos premia com um grande painel introdutório, capaz de abalar os preconceitos que transitam quando o assunto é funk da putaria. É um filme necessário, que escancara um tema que a maioria finge não existir. Mostrar tudo o que ela mostra, dando enfoque nos rostos e corpos é um passo fundamental para que se respeite os fenômenos culturais vindos da periferia como integrante de uma visão artística e cultural maior. Sim, o funk da putaria também é nosso, e vem das nossas mais profundas entranhas, assim como o próprio sexo que propaga.

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