Texto por Marco Fialho
O Riso e a Faca encanta pela sutileza que adentra em temas sensíveis. É bastante interessante como o diretor Pedro Pinho joga seu protagonista, Sergio (Sergio Coragem), aos leões. A aventura desse europeu/português em solo africano da Guiné Bissau é desconcertante, isso para dizer o mínimo. Ele representa uma OGN (Organização Não Governamental) e precisa emitir um relatório sobre o impacto ambiental, para dar continuidade a obra de uma estrada que atravessará o deserto e uma área de mangue. A pressão sobre ele é pesada.
Pedro Pinho realiza uma obra onde o ambiente paisagístico e humano africano tem um imenso peso, mas antes de tudo estabelece uma relação profunda com o tempo. A diversidade de línguas, costumes e tradições vão sendo mostradas no decorrer das 3 horas e trinta e um minutos de filme, que passam com grande prazer diante aos nossos olhos. A cada nova sequência ficamos como o personagem, sem saber o que vem pelo caminho.
O clima de sedução se estabelece na relação entre nós e a obra, somos impulsionados a seguir com Sergio, a sua curiosidade sobre o Guiné Bissau torna-se também a nossa e isso é fundamental para que queiramos permanecer acompanhando o protagonista na sua aventura cujo desamparo é pra lá de anunciado. Mas a sedução está presente a todo instante na própria diegese, com um Sergio que quer se expor através de seu desejo, o que vai gerar alguns dos melhores momentos de O Riso e a Faca.
A partir da primeira hora do filme, se forma um triângulo curioso entre Sergio (homem branco de olhos azuis, português), Guilherme (brasileiro, negro e gay) e Diára (mulher negra da Guiné Bissau). A maneira pela qual Sergio conhece Diára é inusitada, numa feira, onde ela, com uma peruca loira, passa a perna em um feirante, numa fuga espetacular, na qual Sergio participa diretamente. Essa sequência mostra bem a personalidade dessa nova mulher de Guiné Bissau, nada submissa e disposta ao enfrentamento. As cenas com esses três personagens em ação são muito inteligentes, marcadas com diálogos intrigantes e uma troca de olhares permeados pela dúvida. Diára (Cleo Diára, ganhadora do prêmio de melhor atriz na mostra Un Certain Regard, em Cannes) e Guilherme (Jonathan Guilherme) estão a desestabilizar Sergio com constantes manifestações de desconfianças, embora uma promessa desejante incite constantemente o português.
A partir dessa relação a três somos levados a pensar algo bem maior, o processo de colonização e neocolonização de Guiné Bissau. Não tem como desvincular essas relações dessa imensa cicatriz histórica, ela cria uma barreira intransponível para o diálogo entre eles, pois uma sombra de insegurança está sempre a pairar. Essas sensações são intensificadas cena a cena, até se emergir conversas fortíssimas que deflagram contradições sociais e geográficas. A exploração colonial foi um fenômeno tão avassalador que há uma identificação pela cor da pele e pela nacionalidade. Na visão de quem nasceu em Guiné Bissau, o ato de ser branco já carrega uma carga simbólica irrevogável, um tipo de carimbo difícil de remover.
A presença de Sergio, por mais que ele se mostre educado e simpático, tem a marca do colonizador, as indiretas e os olhares são fatais, indisfarçáveis. Sergio vai às festas das mais variadas, mas aos poucos percebe uma desconfiança e uma piada sarcástica, que logo põe as cartas na mesa, pelo menos algumas delas e que servem de pista, tudo indica que por trás dos sorrisos existe uma faca a ser apontada como uma ameaça. A sua existência portuguesa por excelência já diz tudo, como se não precisasse falar ou fazer mais nada. Apenas esse fato já é o suficiente para o definir. O diretor Pedro Pinho trabalha com um tipo de violência não anunciada, contida, mas que explode na discursividade dos personagens. É como que ela fosse sendo gestada até surgir de forma direta e inesperada, com uma força recalcitrante.
O Riso e a Faca sabe abrir um diálogo entre o processo colonial e o neocolonial, assim como afirmar suas diferenças. Enquanto no primeiro a exploração era escancarada e desmedida, nas relações neocoloniais as camadas são mais sutis, embora elas transpareçam por uma ação de suposta bondade. Assim, as ações humanitárias das ONGs são vistas aqui como uma ato de caridade da cultura europeia para camuflar os verdadeiros interesses de continuar a exploração econômica de antes, como a iniciativa de levar privadas para os "selvagens", sem jamais perguntar qual foi o processo que levou a essa ausência de "civilidade", ou quem as causou. Inclusive, Pedro Pinho constrói o filme tendo como base que os ex-colonizados não aceitam mais os desígnios dos colonizadores e Diára representa bem esse novo viés questionador.
Todos esses embrolhos temáticos vem vestidos por uma mise-en-scène entorpecedora. A câmera está a serviço dos personagens, entregue a eles, numa subserviência quase invisível. Parece que Pedro Pinho adivinha de qual ponto de vista queremos assistir a O Riso e a Faca. O cuidado em filmar os corpos nos ambientes mais privados é flagrante, enquanto nas cenas externas há um esforço incomum para a integração deles com a paisagem, que se torna também personagem importante, afinal, ela espelha os contextos que o filme está a tratar. Pinho tem a convicção de que a sua obra abarca e abraça o espaço como objeto importante de seu estudo interpessoal. O cinema de Pedro Pinho é profundamente humanista, focado nos personagens e sua disposição no mundo.
Algumas frases e ideias são constantemente ditas, como "eu estou aqui", como se dizer essa frase resolvesse o abandono e o vilipêndio coloniais. A prostituta, em certo momento, pergunta a Sergio se ele verdadeiramente se importa com ela ou com as condições de trabalho das profissionais do sexo, metendo o dedo na ferida e arregaçando a hipocrisia europeia. A todo instante, limites de toda a ordem são impostos a Sergio, em especial por Diára, que chega a dizer para Guilherme quando este indaga sobre ela ceder a fazer sexo com Sergio: "deixa ele marinar um pouco". Nota-se assim, um desconforto permanente presente na relação entre Diára e Sergio.
Sergio é visto como o colonizador bonzinho, que chega sorrateiro para seduzir e conseguir o que antes se conseguia pela força. Isso é dito para ele sistematicamente. Ele faz uma cara de quem não está compreendendo bem o que está acontecendo. Sergio representa bem aquele estrangeiro europeu sozinho, fraturado pela origem opressora que carrega e em busca de redenção, de reconciliação. Porém, a curiosidade entre os corpos está fincada nesse triângulo em que a sexualidade está a provocar cada um de uma maneira diferente. Desejo e solidão se bifurcam, numa tensão permanente onde as ambições econômicas estão a transitar permanentemente. Há até um pequeno espaço para uma possível reconciliação histórica, mas que é embargada pela presença da figura do colonizador.
O capitalismo neocolonial é outro personagem crucial na trama, por mais que ele esteja camuflado e invisibilizado na maioria das vezes pelo cotidiano. Os interesses flutuam aqui e acolá, inclusive na presença de Horácio, um empresário local, negro, que faz embates discursivos fortes sobre a presença neocolonial e que quer participar dos ganhos financeiros do progresso, afinal, alguém provavelmente ficará com os lucros na construção da estrada? Ele é direto para Sergio: "o presente está a repetir o passado, mas sem a brutalidade, mas foram lá que se traçaram as linhas". E tudo isso é dito à beira de uma pista de dança, com suas luzes resplandescentes. Como é interessante o contraste entre o discurso duro dos personagens e a canção intimista de Tom Zé que dá nome ao filme, que adentra numa sequência das mais leves do trio de amigos indo a passear na praia, seria ali uma reconciliação possível?
Para Sergio, a Guiné Bissau, e os amigos que ali faz, são uma possibilidade de futuro, enquanto para Diára e Guilherme, Sergio representa a imagem do colonizador do passado. É uma equação cujo resultado nunca é redondo, sempre tem aqueles malditos decimais imprecisos. Diára desafia Sergio, ela, ousadamente, o convida para vê-la transando com um homem, e ele não faz cerimônia para participar, o que mostra que não há de todo uma falta de sintonia. Essa cena, belissimamente bem filmada, é crucial para mostrar os limites de Sergio e do comportamento sexual do mundo atual.
O Riso e a Faca é decerto mais uma obra desconcertante de Pedro Pinho, um realizador que vem exibindo um trabalho expressivo e reafirmando a qualidade do cinema português contemporâneo. A conversa entre Diára e Sergio sobre o privilégio de estar na posição de negociação e de ser subornado é cortante. Esse é Pedro Pinho um cineasta que vem construindo um cinema de quem tem muito a dizer sobre o nosso mundo que continua a viver da sombra do passado, mesmo que a fluidez no sexo esteja cada vez mais em dia para nos dificultar a visão. São os corpos supostamente livres dispostos em um mundo dominado cada vez mais por poucas corporações e conglomerados financeiros.

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