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PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

TRENS (2024) Dir. Maciej J. Drygas

Texto por Marco Fialho Trens é um documentário polonês, premiado no IDFA (International Documentary Film Amsterdam), um dos maiores festival dedicados ao documentário no mundo. O diretor Maciej J. Drygas se utiliza de imagens de arquivo para realizar um filme impactante visualmente e um tributo ao movimento, uma das faces basilares do cinema, dentro de uma proposta poética, com fortes traços históricos, de ver como os trens interagiram com alguns fatos cruciais do século XX. O que esse documentário nos traz é um labirinto de imagens, um passeio misterioso, encantador e assustador tendo os trens como ponto de partida para a construção de um cinema que indaga mais do que responde.   Maciej J. Drygas passa um longo tempo mostrando a fabricação e o complexo processo de montagem de uma locomotiva. Se o filme fosse circunscrito a mostrar somente isso, já teria fortes qualidades a serem destacadas dada à beleza, o poder e o ineditismo dessas imagens (provavelmente pouquíssimas pessoa...

ESCREVENDO HAWA (2025) Dir. Najiba Noori

Texto por Carmela Fialho O documentário Escrevendo Hawa , da afegã Najiba Noori, tem como personagem principal a sua mãe Hawa, que foi obrigada a casar com seu pai ainda criança com 13 anos e teve seis filhos, entre eles a diretora. O início da narrativa é a fuga de Najiba de Cabul para Paris, em 2021, quando o Talibã chegou à capital do Afeganistão e dominou o governo, proibindo as mulheres de estudar e trabalhar. A diretora vai para o exílio por ser jornalista, e com certeza no regime ditatorial islâmico seria perseguida. O filme volta para 2019, quando Najiba começou a filmar as entrevistas e o cotidiano da mãe Hawa, cuidando do pai bem mais velho e já com sinais de demência. As conversas entre as duas revelam segredos da mãe, que amava outro homem, que também teve seu casamento arranjado e que não fugiu com seu único amor por causa dos filhos. Demonstra também seus anseios de se alfabetizar e começar um negócio de artesanato, bordando tecidos para uma loja, cuja dona se interessa p...

RITAS (2025) Dir. Oswaldo Santana e Karen Harley

Texto por Marco Fialho Rita Lee é um ícone brasileiro, com sua personalidade única, rebelde, debochada, escrachada e carismática. Todos querem ouvir não só as suas lindas músicas como também as suas falas divertidas e controversas. O documentário  Ritas , realizado por Oswaldo Santana e codirigido por Karen Harley, é antes de tudo um filme de fã. O primeiro sintoma disso é o fato de os números musicais se sobreporem aos depoimentos. Por isso, Ritas é um filme para fãs.  Ritas não segue o formato clássico de documentários de artistas, onde se explora muito o por trás das câmeras. Não que o filme não tenha isso, até tem, mas não é o que guia o documentário. Assim, Ritas é um documento celebratório, ótimo de assistir, que parece acabar na metade, pois saímos com a sensação de que queríamos mais e mais. A empolgação de Rita Lee pela vida e arte são contagiantes e isso o filme proporciona, uma avalanche de momentos inesquecíveis e pulsantes.  Rita foi a verdadeira metamorfose ...

PAU D'ARCO (2024) Dir. Ana Aranha

Texto por Marco Fialho “Há homens que lutam um dia e são bons. Outros lutam um ano e são melhores. Outros, ainda, lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda uma vida: esses são imprescindíveis.” Bertolt Brecht Esse trecho da poesia de Bertolt Brecht, imortalizado pela voz inconfundível da cantora argentina Mercedes Sosa, foi a primeira coisa que me veio à cabeça ao sair da sessão do imprescindível Pau D'Arco , um documentário denúncia dirigido por Ana Aranha, no festival É Tudo Verdade.  Em primeiro lugar, esse é um filme de coragem, sobre pessoas corajosas e com uma direção igualmente corajosa. Pau D'Arco aborda o covarde assassinato de 10 agricultores ligados ao MST (Movimento dos sem-terra) por policiais na Fazenda Santa Lucia, no Pará, em 2017, a mando de fazendeiros inconformados com a posse de suas terras improdutivas. O grupo é apoiado por Vargas, um jovem advogado que colabora com os Sem-terra na luta para viverem de cultivar a terra.  Vargas é um per...

COPAN (2025) Dir. Carine Wallauer

Texto por Marco Fialho  O Copan   se constitui o maior prédio residencial da América do Sul, um complexo com 1.160 apartamentos e milhares de moradores. O que a diretora Carine Wallauer faz no documentário  Copan é um esforço de tentar entender como o esqueleto dessa moradia monumental se estrutura para poder se manter de pé dia a dia, além de fazer uma interessante discussão sobre a dimensão política de um prédio imenso na maior cidade da América do Sul, mas situado em um país continental e multifacetado.    O mais importante aqui é tentar entender os princípios norteadores do filme, o que se pensou retratar nessa ambiciosa proposta cinematográfica levada a frente por Carine, uma jovem diretora. Creio que é importante começar pelo dado mais relevante no filme, isto é, a constante repetição, ou seria analogia, do processo eleitoral do cargo de síndico (há 16 mandatos na mesma mão) e a reta final da campanha presidencial brasileira em 2022 entre Lula e Bolsonaro,...

KARUARA, O POVO DO RIO (2024) Dir. Stephanie Boyd e Miguel Araoz Cartagena

Texto por Marco Fialho Karuara, O Povo do Rio , acompanha o cotidiano de uma família da tribo dos Kukama, situada na Amazônia peruana. Mariluz lidera a família e o seu povo contra os homens ambiciosos que querem explorar as riquezas do solo onde vivem. Mas do que qualquer coisa, o filme quer mostrar o quanto rio é um ser vivo e como tal precisa ser preservado.  O mais interessante em Karuara, O Povo do Rio é a sua narrativa que abarca tanto o universo onírico das lendas e mitos dos indígenas quanto a dura realidade. A primeira é retratada por meio de uma animação com um colorido que emula a textura de uma aquarela, já a segunda, a câmera dos diretores Stephanie Boyd e Miguel Araoz Cartagena mostram a vida cotidiana da família de Mariluz em seus momentos de lazer, trabalho e luta pelas tradições ancestrais.  A direção faz questão de demarcar a diferença entre a vida dos povos indígenas antes da chegada dos não indígenas, o que serve para mostrar o quanto a vida tranquila e pac...

RUA DO PESCADOR, N° 6 (2025) Dir. Bárbara Paz

Texto por Carmela Fialho  O documentário Rua do Pescador, nº6 , de Bárbara Paz tem como mote principal documentar a tragédia sofrida pelo Rio Grande do Sul, em 2024, causada pela grave crise climática que estamos vivendo decorrente da exploração desenfreada dos recursos naturais, acelerada durante o ano de 2021, quando áreas de preservação ambiental foram abertas para especulação imobiliária e expansão do agro-negócio. Em recente viagem de carro pelas estradas do interior do Rio Grande do Sul pude observar a expansão avassaladora das plantações de arroz e milho na região do Pampa gaúcho, acompanhada pela destruição da paisagem e do ecossistema. A importância do filme reside no fato de trabalhar como registro, memória e denúncia. A partir de imagens fartamente documentadas pela grande imprensa sobre a tragédia, que atingiu cerca de noventa e cinco por cento do estado do Rio Grande do Sul, Bárbara parte do macro para chegar no micro,  adentrando no universo da tragédia humana. A...

DOIS NILOS (2024) Dir. Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro

Texto por Marco Fialho  O que poderia ser uma mera e divertida homenagem ao cinema, em Dois Nilos se torna um importante reflexão sobre o que é fazer cinema no Brasil. A direção precisa de Rodrigo de Janeiro em parceria com Samuel Lobo, curta-metragista já com uma estrada sólida percorrida, onde se destaca o ótimo Noite Escura de São Nunca .  O filme tem como protagonista o cineasta e pensador cultural Afrânio Vital, diretor pra lá de independente, que além de tudo se mostra um excelente personagem, um rebelde consciente de que o Brasil passa ao largo de seus artistas, ainda mais aqueles que não escolheram o showbiz como profissão. A consciência da ruína que envolve o cinema é tanta que Afrânio Vital visita a Cinelândia, no Centro do Rio de Janeiro, para poder relembrar os cinemas que ali existiam e o tornaram um amante e cúmplice do cinema Assim, a maior arma de Dois Nilos é a valorização da memória contra o esquecimento, um dos grandes fardos que solapa nosso cinema. Se no ...

CHIBO (2024) Dir. Gabriela Poester e Henrique Lahude

Texto por Marco Fialho Chibo  é um filme fronteiriço, e ele o é de várias maneiras. Primeiro pela questão territorial, já que seus personagens, uma família, vivem literalmente à beira de um rio que divide o Brasil da Argentina. Segundo, porque um das personagens é uma adolescente que está prestes a decidir se parte com o namorado para uma cidade grande ou se contenta em ficar em seu pequeno vilarejo.  A familia vive de chibo, um tipo de transporte clandestino de mercadorias. A direção de Gabriela Poester e Henrique Lahude incorpora às filmagens a pasmaceira do vilarejo, uma vida que parece parada no tempo, com os afazeres domésticos e as brincadeiras da irmã com o irmão mais novo.  O que predomina no filme é uma atmosfera morna e agradável de uma vida sem grandes surpresas. A vida rústica dessa família pode soar para muitos como defasada, mas para nós que vivemos nos grandes centros e buscamos o bom viver, não deixa de ser um colírio para os olhos poder admirar o tipo de ...