Texto por Marco Fialho
O Copan se constitui o maior prédio residencial da América do Sul, um complexo com 1.160 apartamentos e milhares de moradores. O que a diretora Carine Wallauer faz no documentário Copan é um esforço de tentar entender como o esqueleto dessa moradia monumental se estrutura para poder se manter de pé dia a dia, além de fazer uma interessante discussão sobre a dimensão política de um prédio imenso na maior cidade da América do Sul, mas situado em um país continental e multifacetado.
O mais importante aqui é tentar entender os princípios norteadores do filme, o que se pensou retratar nessa ambiciosa proposta cinematográfica levada a frente por Carine, uma jovem diretora. Creio que é importante começar pelo dado mais relevante no filme, isto é, a constante repetição, ou seria analogia, do processo eleitoral do cargo de síndico (há 16 mandatos na mesma mão) e a reta final da campanha presidencial brasileira em 2022 entre Lula e Bolsonaro, que representou quase um tira a tema dos últimos 20 anos de como a política se desenhou no país.
O fato de pouco sabermos sobre os moradores em si, que são os grandes protagonista do cotidiano do prédio, traz de certo um dissabor ao espectador, ainda mais aquele que pensa de imediato na proposta de abordagem invasiva e subjetiva de Eduardo Coutinho no clássico Edifício Master. Deve se observar que aqui não estamos a cotejar os dois filmes, porque essa comparação ou equiparação não dá conta da imensa distância da proposta deles. Se em Edifício Master reinava a interação, em Copan vigora o distanciamento. A abordagem do filme de Carine Wallauer é observacional, a câmera só mostra em seu registro o suficiente para cumprir o seu objetivo preciso, o de confrontar os processos eleitorais do Brasil e do Copan. Evidente que a frieza formal é intencional, pois esse é dispositivo utilizado pela direção e não estou aqui dizendo que tudo o que vemos é imóvel. Há barracos tão afiados e violentos quanto qualquer processo eleitoral. A reunião da votação é paradigmática quanto a isso, o pau come de verdade, com agressões verbais, denúncias e acusações recíprocas que atestam uma polarização entre os que apoiam e os que rejeitam o síndico, o Sr. Affonso. Qualquer semelhança com a presidencial não é mero acaso.
Mas é nessa discussão da votação, realizada no on line, que acredito ter sido assim devido à pandemia, se revela pontos fundamentais para se entender o funcionamento do prédio. A votação é pelo metro quadrado de cada moradia e não pelo número de apartamentos. Há assim uma desigualdade nos votos, os apartamentos de cobertura, os mais altos, se devidamente organizados, que é o caso aqui, dominam a votação. Estamos diante então de um processo censitário, em que os mais abastados do prédio escolhem o síndico, no caso, o mesmo de sempre que administra tudo a partir desses interesses. Será esse mecanismo eleitoral tão distante assim do realizado Brasil afora? Em Copan a distopia chamada Brasil se apresenta em detalhes quase irreais, por meio de uma fotografia que nos arremessa para um passado arranhado por uma camada de sépia que encaderna o documentário e como isso faz sentido para a proposta de Carine Wallauer.
O que ganha mais sentido em Copan não é mostrar que a polaridade existente na macropolítica ocorre no cotidiano do prédio tanto entre os moradores, a câmera registra isso em algumas manifestações públicas e privadas quanto entre os funcionários que discutem a eleição entre Lula e Bolsonaro. O que mais chama atenção nessa proposta de Carine Wallauer é o que ela detona a partir da micropolítica, em desvendar os mecanismo que perpetuam os privilégios de poucos perante a uma maioria, ou pelo descontentamento, ou pela resiliência de se adaptar aos mais injustos aparatos políticos que gerem um cotidiano patriarcal e injusto. A montagem contempla justamente a dialética proposta pelo filme, de contrastar o geral e o particular e isso faz o documentário crescer na tela.
Copan dá conta de ver que o Brasil profundo e desigual, não só existe, como possui mecanismos de perpetuação e muitas vezes eles são invisíveis ou passam desapercebidos no turbilhão da rotina do dia a dia. O prédio sem funcionárias mulheres, com um síndico que se elege há 16 mandatos e com distinções censitárias convivem em um clima de tranquilidade, lógico, na medida que um prédio dessa estatura pode ter de pacificação. Será esse gigante tão gigante assim? Essa é uma pergunta intrínseca que o filme faz e por isso também Copan é sobre proporcionalidade, de como podemos ser grandes ou pequenos em relação a uma determinada perspectiva adotada. E creio ser esse documentário propício para discutirmos isso.
Inclusive, o drone utilizado no início e no fim de Copan é o melhor que assisti em um filme brasileiro. Não há nenhum exibicionismo nessas imagens. Primeiro vemos Copan como um gigante que se aproxima de nós, algo que sobressai em meio a tantos outros prédios grandiosos. Mas depois, ao final, quando a câmera se afasta, a sensação é inversa, o edifício se apequena em meio a uma São Paulo avassaladora e maior. Esses são os movimentos do filme, aproximar, revelar e se distanciar novamente para podermos situar o prédio em uma consideração mais ampla, para além de si mesmo. Essa dicotomia entre o que está próximo e distante está no cerne do que é o cinema, do recorte que todo filme propõe para se pensar um determinado território. Aqui em Copan, o particular e o geral dialogam com maestria, assim como igualmente trazem interrogações: o que o prédio tem a dizer sobre o país que vivemos e como o país adentra ali? E mais: como o país em que vivemos é resultado de vários prédios, empresas e assim por diante, em um movimento dialético ininterrupto de idas e vindas entre o local e uma ideia de país.
Sempre tive críticas à crença histórica de que a abordagem observacional empregada nos documentários traz uma visão isenta, como se na seleção das imagens não houvesse qualquer intervenção política. Em Copan essa minha desconfiança se desfaz, pois ao confrontar o macro e o micro, Carine Wallauer interroga por meio de sons e imagens como as entranhas do país é mais embaixo do que parece, e que por isso não devemos nos precipitar na análise. Um país não se transforma só numa eleição majoritária, ainda mais quando sustenta em suas engrenagens cotidianas as sanhas centenárias que nos forjaram, os esquemas patriarcais, o predomínio político do voto censitário e o machismo saído diretamente das encostas senhoriais dos carcomidos engenhos, que mesmos ainda em ruínas insistem em controlar a sociedade no exercício recôndito das minúsculas ações que perduram no cotidiano.

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