Texto por Carmela Fialho
O documentário Escrevendo Hawa, da afegã Najiba Noori, tem como personagem principal a sua mãe Hawa, que foi obrigada a casar com seu pai ainda criança com 13 anos e teve seis filhos, entre eles a diretora. O início da narrativa é a fuga de Najiba de Cabul para Paris, em 2021, quando o Talibã chegou à capital do Afeganistão e dominou o governo, proibindo as mulheres de estudar e trabalhar. A diretora vai para o exílio por ser jornalista, e com certeza no regime ditatorial islâmico seria perseguida.
O filme volta para 2019, quando Najiba começou a filmar as entrevistas e o cotidiano da mãe Hawa, cuidando do pai bem mais velho e já com sinais de demência. As conversas entre as duas revelam segredos da mãe, que amava outro homem, que também teve seu casamento arranjado e que não fugiu com seu único amor por causa dos filhos. Demonstra também seus anseios de se alfabetizar e começar um negócio de artesanato, bordando tecidos para uma loja, cuja dona se interessa pelo trabalho de Hawa.
Na primeira parte do filme, a personagem está cheia de esperança de realizar seus sonhos, e com uma pequena economia começa a sua empreitada, deixando o marido com os filhos homens, que ainda moram com ela. Hawa vai a uma aldeia distante de Cabul visitar a outra filha que estava casada e cuja filha do primeiro casamento tinha fugido para ficar com a mãe, porque a família do pai estava obrigando-a a se casar com 14 anos. A história estava se repetindo e Hawa, em defesa da neta Zahra, resolve cuidar da menina levando-a para a sua casa em Cabul. Uma das cenas mais bonitas do filme é quando a avó e a neta estão se alfabetizando usando livros infantis, Hawa se vê na neta analfabeta como ela e com um casamento arranjado.
A diretora filma a trajetória de Hawa nas ruas de Cabul, pelas livrarias, comércio de rua com a neta, comprando roupas e bijuterias, negociando seus bordados com total liberdade. Essa primeira parte entrará em contraste com a segunda parte do documentário, quando os EUA retiram as tropas do Afeganistão deixando o país à própria sorte e possibilitando as investidas do Talibã, que rapidamente domina o país e chega a Cabul. A cineasta ainda retrata imagens dessa chegada do Talibã à capital e da sua fuga apressada para Paris levando somente poucos pertences e as imagens filmadas de sua mãe.
O terror se instaura no país e a violência contra as mulheres é deflagrada. Hawa vê seus projetos de autonomia se desfazerem e se encontra obrigada a enviar a neta Zahra para a aldeia do pai para se casar, pois havia o risco real de prisão para todos os membros da família de Hawa, já que não tinham oficialmente a guarda da neta e segundo as leis do Talibã, ela deveria se casar. A família não teve mais notícias da neta. As escolas de meninas foram fechadas e elas foram proibidas de estudar. Vários protestos acontecem em vão e o massacre das mulheres continua.
O documentário é uma denúncia contra a situação das mulheres no Afeganistão, único país do mundo que proíbe as mulheres de estudar. As filmagens da mãe e da situação de Cabul foram feitas pelo irmão de Najiba, que morava com a mãe. Ele também foi vítima de violência por parte do Talibã ao levar uma surra deles. O contato de Najiba com a mãe em Cabul era feito por chamadas de vídeo no celular e por carta, que a mãe com dificuldade de letramento conseguia ler com a ajuda do irmão. Após três anos de separação, a família conseguiu asilo em Paris.

Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!