Texto por Marco Fialho
Trens é um documentário polonês, premiado no IDFA (International Documentary Film Amsterdam), um dos maiores festival dedicados ao documentário no mundo. O diretor Maciej J. Drygas se utiliza de imagens de arquivo para realizar um filme impactante visualmente e um tributo ao movimento, uma das faces basilares do cinema, dentro de uma proposta poética, com fortes traços históricos, de ver como os trens interagiram com alguns fatos cruciais do século XX. O que esse documentário nos traz é um labirinto de imagens, um passeio misterioso, encantador e assustador tendo os trens como ponto de partida para a construção de um cinema que indaga mais do que responde.
Maciej J. Drygas passa um longo tempo mostrando a fabricação e o complexo processo de montagem de uma locomotiva. Se o filme fosse circunscrito a mostrar somente isso, já teria fortes qualidades a serem destacadas dada à beleza, o poder e o ineditismo dessas imagens (provavelmente pouquíssimas pessoas já viram imagens como essas), mas evidente que a ideia do diretor é bem mais ampla e ambiciosa. Em paralelo à montagem dos trens vemos bombas sendo fabricadas, assim como seus resultados mais imediatos, como o terror que foi a Primeira Guerra Mundial. Os trens poderiam ser tão lúdicos quanto o filme de estreia dos Irmãos Lumière ou imersos no mistério hitchcockiano, tal como vislumbrados em Pacto Sinistro (1951), mas não. O que o diretor polonês explora são as tragédias humanas que se utilizaram do trem para levar à humanidade ao caos e a desolação.
Se o trem parte com soldados alegres numa vã esperança patriótica, o mesmo trem trará os rostos deformados e corpos mutilados pelas bombas. A beleza ou tragédia dos trens está sujeita ao uso que o homem faz dele. O interessante é como Maciej J. Drygas explora as dicotomias: o horror das tragédias contrapostas aos desfiles de moda burguesa que ocorrem nas estações de trens. Portanto, registra-se tanto o movimento dos trens quanto o da sociedade burguesa que o criou. Essa sociedade burguesa então vive a experiência do trem como um frescor ilusório da vertigem capitalista. Até bailes dançantes transitavam pelos vagões avivados pelos devaneios musicais. Dessa forma, a beleza e a catástrofe parecem caminhar ardilosamente pelo mesmo trilho. Até uma sala de cinema adentra os vagões, anunciando, quiçá, um porvir esperançoso para o mundo.
Nada mais cruel do que ver o nazismo solapar qualquer traço de promessa de um novo mundo. O nazismo marca peremptoriamente a decadência dos trens. Durante a Segunda Guerra Mundial, o simples ato de entrar no trem já simbolizava uma sentença de morte. Os judeus viveram isso na carne, o horror da separação e o prenúncio da perda. Ver um ente querido entrar em um trem poderia se transformar celeramente numa despedida para sempre. Nada é mais devastador e desolador do que ver os corpos esquálidos numa viagem fúnebre sem volta.
Entretanto, o trem depende sempre do uso que o homem fez dele. Se a política o transformou em uma viagem ao inferno, existiu em paralelo uma ode à vida que só a arte sabe prover. Chaplin é um ótimo exemplo ao emprestar e incorporar sua intensidade artística e seu encanto lúdico ás paisagens dos trens, enquanto vemos, poucos anos depois, o famigerado Hitler utilizar os trens para sua autopropaganda, é um verdadeiro horror ver as tramóias dele e de seus asseclas sendo feitas dentro de um vagão de trem, seus planos perversos e ávidos para conquistar o mundo.
Provavelmente, Trens agradaria com louvor um personagem importante do cinema, o soviético Dziga Vertov, um dos pais do documentário e partidário de um cinema tanto sem heróis quanto avesso ao individualismo burguês que contestou o uso do cinema como narrativa alienante e condicionado a simplesmente contar histórias, como o fez o norte-americano em nome de uma propaganda ideológica da figura do herói individual. Na contramão dessa ideologia dominante até hoje no cinema, Maciej J. Drygas parte de um cinema de arquivo e pensa a montagem como valorização do ritmo e do uso criativo do som, ambos elementos fundamentais para efetivar a forma fílmica em Trens. Nessa obra de rigor estético apurado, nada melhor do que nas imagens aparecer a figura do grande S. Eisenstein, outro diretor soviético, que sonhou um cinema a partir de uma reflexão crítica da montagem clássica de sua época.

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