Texto por Marco Fialho
“Há homens que lutam um dia e são bons. Outros lutam um ano e são melhores. Outros, ainda, lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda uma vida: esses são imprescindíveis.”
Bertolt Brecht
Esse trecho da poesia de Bertolt Brecht, imortalizado pela voz inconfundível da cantora argentina Mercedes Sosa, foi a primeira coisa que me veio à cabeça ao sair da sessão do imprescindível Pau D'Arco, um documentário denúncia dirigido por Ana Aranha, no festival É Tudo Verdade.
Em primeiro lugar, esse é um filme de coragem, sobre pessoas corajosas e com uma direção igualmente corajosa. Pau D'Arco aborda o covarde assassinato de 10 agricultores ligados ao MST (Movimento dos sem-terra) por policiais na Fazenda Santa Lucia, no Pará, em 2017, a mando de fazendeiros inconformados com a posse de suas terras improdutivas. O grupo é apoiado por Vargas, um jovem advogado que colabora com os Sem-terra na luta para viverem de cultivar a terra.
Vargas é um personagem crucial de Pau D'Arco, o responsável por não deixar a luta esfriar, ainda mais depois que sua melhor amiga engrossa a lista dos 10 mortos na chacina de Pau D'Arco. O advogado diz que não se faz reforma agrária oferecendo flores, ainda mais que as forças em choque são desproporcionais. Antes de tudo, esse é um filme de militância, daqueles que deixam registradas as memórias de uma luta.
As ameaças fazem parte do processo e cria no filme uma tensão permanente. O medo de que mais um agricultor seja morto é constante. A diretora Ana Aranha se engaja na luta dos trabalhadores e coloca sua câmera à disposição das reivindicações dos agricultores. Os fazendeiros não aparecem na história, apenas em um cena, vemos políticos e polícia militar se colocando como vítimas, dizendo que apenas reagiram ao serem recebidos à bala pelo agricultores. Mas evidente que o discurso deles não se sustenta, já que não há um policial sequer ferido depois da operação e nenhuma viatura foi alvejada.
A fake news é uma das armas utilizadas pelos agentes da repressão a todo o instante, não há um fato que não seja deturpado por eles, que classificam os agricultores como assassinos cruéis e perigosos, enquanto Pau D'Arco filma os agricultores e prova o quanto pacífico eles são. Ana Aranha também filma Fernando, um agricultor gay, que é um dos dois sobreviventes de 2017 e que vive num pequeno sítio para sua proteção. Uma outra sobrevivente prefere não mostrar o rosto. Fernando passa a ser um dos protagonistas, junto com o advogado Vargas. Ambos serão acompanhados por Ana Aranha durante as filmagens.
A situação ganha contornos mais delicados quando Bolsonaro ganha as eleições em 2018 e assume a presidência em 2019. Com isso, Vargas é preso, numa armação da polícia local que inventa uma acusação de homicídio, depois de um áudio retirado do contexto. É incrível o quanto Vargas arrisca a si mesmo e a família, composta pela esposa e duas filhinhas pequenas. Tanto ele quanto Fernando estão sob à mira de ameaças dos policiais assassinos, que sempre desfrutaram de liberdade durante o processo jurídico que corre por anos.
Ana Aranha consegue extrair imagens e ângulos inesperados de vários depoimentos, em especial os de Fernando, que possui um dom para lidar com a câmera, independente dela estar mais abaixo ou colocada frontalmente a ele. A diretora consegue imagens igualmente impactantes de Vargas, sobretudo pela internet, em lives que naturalmente distorcem os rostos das pessoas. A pandemia agrava mais ainda as possibilidades de união dos trabalhadores e facilita o ataque dos fazendeiros que já vinham se organizando desde antes. A tática do desgaste emocional é francamente usada pelo sistema.
Pau D'Arco instaura um suspense permanente, uma tensão incontrolável. De repente, bate aquela vontade de querer que o filme não avance, para que não vermos o pior acontecer. O assassinato friamente calculado de Fernando faz o público desabar. Em certa altura, Ana Aranha já tinha posto Fernando como um personagem carismático e engraçado, capaz de rir das situações mais trágicas. Na sessão em que assisti ao filme, ouvi pessoas chorando a ponto de soluçar diante dos contornos trágicos que a história assume. O caso vai parar no Fantástico, da Rede Globo, diante de 11 assassinatos incontornáveis. A dor é infinita, afinal, os agricultores só querem cultivar um pequeno pedaço de terra.
Realmente, não lembro de nenhum filme que tenha sido tão difícil de assistir quanto Pau D'Arco, que traduza a atual situação política e social que vivemos, de uma elite cega, intolerante e violenta como essa. Esse filme nos faz solidários de imediato dessa causa, mesmo que antes já sermos adeptos dela, mas a partir do documentário a sensibilidade fica mais aflorada, de certo. O mais interessante é o quanto mesmo depois de tanta tragédia e injustiça, Ana Aranha tira forças para chegar até o Governo Lula e mostrar os trabalhadores assentados e plantando. Essa é uma guerra de longa duração e que precisará de uma luta imensa e cansativa para que todos possam ter terra e tranquilidade em um país marcado tanto pela desigualdade social quanto pela violência dos poderosos. Haja paciência e muita poesia de Bertolt Brecht para suportar.

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