O documentário Rua do Pescador, nº6, de Bárbara Paz tem como mote principal documentar a tragédia sofrida pelo Rio Grande do Sul, em 2024, causada pela grave crise climática que estamos vivendo decorrente da exploração desenfreada dos recursos naturais, acelerada durante o ano de 2021, quando áreas de preservação ambiental foram abertas para especulação imobiliária e expansão do agro-negócio. Em recente viagem de carro pelas estradas do interior do Rio Grande do Sul pude observar a expansão avassaladora das plantações de arroz e milho na região do Pampa gaúcho, acompanhada pela destruição da paisagem e do ecossistema.
A importância do filme reside no fato de trabalhar como registro, memória e denúncia. A partir de imagens fartamente documentadas pela grande imprensa sobre a tragédia, que atingiu cerca de noventa e cinco por cento do estado do Rio Grande do Sul, Bárbara parte do macro para chegar no micro, adentrando no universo da tragédia humana. A investigação mergulha na Ilha da Pintada, ou pelo menos no que sobrou dos escombros das casas e dos poucos pertences dos seus moradores, que são em sua grande maioria pescadores, e tiram o sustento das águas.
O foco principal são os depoimentos desesperados de quem perdeu tudo, mas insiste em permanecer vivendo na ilha onde habitavam seus ancestrais e seus descendentes. A destruição das memórias físicas da comunidade ribeirinha, contudo, não apaga as memórias orais e afetivas que Bárbara busca registrar através das entrevistas. Ao dar nome e voz às famílias dos pescadores atingidos, a diretora personaliza a tragédia, tornando-a mais próxima do espectador que passa a conhecer o cotidiano dos personagens através dos relatos antes, na tragédia e durante a reconstrução. Incrível que mesmo diante da grande dor, alguns relatam que em outras regiões do estado do Rio Grande do Sul foi pior, pois não tinham nem como fazer o resgate de barco.
O diálogo de Bárbara acontece entre as imagens de época da tragédia de 1941, relacionando-as com a devastação de várias regiões apresentadas nas reportagens da grande imprensa de 2024, mostrando resgates de helicóptero de pessoas e do famoso caso do cavalo Caramelo que ficou estático no telhado esperando resgate e do cachorro que nada até conseguir subir no telhado, mesclados com os depoimentos emocionados dos moradores da Ilha da Pintada que não conseguiram salvar seus animais, pois tiveram que priorizar salvar seus familiares. As imagens retratam mais do que qualquer palavra a destruição da Ilha acompanhada por Bárbara in loco, emergindo o humano que gera um compartilhamento da experiência com o espectador.
A montagem das imagens foi exitosa ao traçar o diálogo abordado no parágrafo anterior e a opção pelo preto e branco na fotografia foi fundamental para retratar a crueza da tragédia. O documentário se torna importante em um país que em várias ocasiões insiste em apagar a memória de acontecimentos traumáticos.

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