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KARUARA, O POVO DO RIO (2024) Dir. Stephanie Boyd e Miguel Araoz Cartagena


Texto por Marco Fialho

Karuara, O Povo do Rio, acompanha o cotidiano de uma família da tribo dos Kukama, situada na Amazônia peruana. Mariluz lidera a família e o seu povo contra os homens ambiciosos que querem explorar as riquezas do solo onde vivem. Mas do que qualquer coisa, o filme quer mostrar o quanto rio é um ser vivo e como tal precisa ser preservado. 

O mais interessante em Karuara, O Povo do Rio é a sua narrativa que abarca tanto o universo onírico das lendas e mitos dos indígenas quanto a dura realidade. A primeira é retratada por meio de uma animação com um colorido que emula a textura de uma aquarela, já a segunda, a câmera dos diretores Stephanie Boyd e Miguel Araoz Cartagena mostram a vida cotidiana da família de Mariluz em seus momentos de lazer, trabalho e luta pelas tradições ancestrais. 

A direção faz questão de demarcar a diferença entre a vida dos povos indígenas antes da chegada dos não indígenas, o que serve para mostrar o quanto a vida tranquila e pacata foi ameaçada com a ambição de mineradores interessados no petróleo daquelas terras. O rio é tratado como um ser vivo e dele é retirado a água a ser bebida, o banho, o lazer, a limpeza das roupas e o alimento de todos os dias. 

O documentário dá um destaque para Juanita, a jovem indígena que precisa aprender sobre a cultura dos não indígenas para poder se defender, mas sem se esquecer de cultivar as tradições ancestral do seu povo. Ela inclusive é responsável por um dos momentos mais bonitos do filme ao dizer que prefere a água do rio à terra. 

Luiz, um dos integrantes da família, um pescador experiente, pede permissão aos espíritos dos ancestrais antes de utilizar as plantas medicinalmente. Em outra fala, afirma que para ele os botos são pessoas. O filme explora bem essa ligação dos indígenas com os animais da floresta, em um nítido respeito aos seres que ali habitam. As manchas de petróleo aparecem na animação como um perigoso agente capaz de matar a vida do rio.    

Os diretores inserem alguns discursos oficiais, como o do presidente do Peru defendendo o desenvolvimento do país devido à exploração das riquezas minerais. O avanço da civilização passa a ser uma ameaça brutal para os indígenas, além de provocar que eles precisem estudar e trabalhar por dinheiro para poder participar da vida social. Os governos não oferecem escolaridade completa para os filhos dos indígenas e os jovens precisam ir para as cidades grandes para poder dar continuidade aos seus estudos, embora a diferença de aprendizagem seja historicamente visível e desigual. Os indígenas vendem bananas para poder bancar a ida dos jovens para outras cidade. 

Karuara, O Povo do Rio possui uma força impressionante tanto por desvelar a bela cultura dos indígenas quanto o de afirmar a liderança e luta de Mariluz e seu povo contra os interesses obscuros de mineradores inescrupulosos que só pensam em se enriquecer. Valorizar a sua tradição e a necessidade de fazer que ela perdure nas gerações futuras está reafirmado no filme, no final do filme, quando vemos o nascimento ritualístico de um novo bebê, filha de Juanita e neta de Mariluz. A luta e a tradição estão garantidos e o cinema está a registrar e fomentar esse importante gesto.        

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