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O UNIVERSO É TUDO, O QUINTAL É UM (CRÔNICA nº 2)

Diz-se que cada ser humano é um universo em si, embora o mesmo possa ser dito também de um lugar qualquer, por menor que ele seja. Penso aqui em um quintal, um gracioso quintal. Poderia dizer até que é um jardim, mas qual seria a diferença entre um e outro visto que essa diferença possa ser ínfima, ou mesmo de difícil precisão? Talvez a diferença seja mais organizativa do que de forma, já que em um quintal cabe um jardim enquanto o inverso jamais seria possível. Um quintal é anárquico, uma balbúrdia, uma festa de vida e alegria, nele cabe um universo, ou melhor conforma-se um universo. Ali tem tudo, coabitam famílias de bichos, invasores diversos e a escuridão, o mistério noturno. Nele há um desenho cubista traçado por árvores frutíferas portentosas a ofertar suntuosas sombras nos dias de calor. Meu quintal é assim, receptivo e convidativo, prestes a me sorrir com uma manga, uma acerola ou um cajá-manga. Nos dias mais festivos me brinda com um limão galego para uma caipirinha relaxante...

Músicas que habitam em mim n° 3 Calabouço

Música e política - Parte 1: Sergio Ricardo e o cala-boca do Calabouço Sempre fui extremamente ligado em política, de tal forma que nem lembro como esse elo começou, embora intuitivamente eu desconfie que essa minha relação primordial está fortemente entrelaçada com a música. Meus pais militavam na política e como desdobramento a música com um viés político estava no espectro de atenção deles, e assim, em casa ouvíamos LPs de artistas como Geraldo Vandré (1968), Sergio Ricardo, Carlos Lyra e um disquinho do CPC da UNE (ver ilustração abaixo) que tinha uma música, que ouvida hoje beira até o cômico, mas que à época eu achava o máximo: "Subdesenvolvido"  (1) Carlos Lyra - Canção do Subdesenvolvido - YouTube .       Na altura do campeonato, os leitores já puderam sentir que a força da presença da música na vida de cada um (no caso em mim) é o tema maior desta coluna, de como ela evoca lembranças e doces tempos já vividos e por mais que as experiências musicais seja...

UM FLÂNEUR EM BÚZIOS (CRÔNICA Nº1)

Entre cães, crianças, fragatas, um cavalo prateado e outros óbices Texto de Marco Fialho Mais do que tudo, o que um cronista precisa mesmo é do mundo. Constatei isso quando andei viajando pela bela península de Búzios. Nessas paragens pude observar e ficar a pensar sobre a natureza da crônica. A divagar cheguei a conclusão de que o cronista precisa mais do outro do que de si mesmo. Não importa muito o que se deva ou não fazer, mas sim o que está a viver o outro. Eis que então chegamos a outro ponto chave para o cronista: ele se realiza pelo outro. Muito antes do espectador do cinema, o cronista já era um voyeur nato, um flâneur (na acepção dada por Walter Benjamin*) aquele dado a saber como o outro vive e como está a agir. Para o cronista não importa o que pensa o observado. O que está em jogo é o viver do outro, nada mais. Nada mais o escambau, pois isso é muito, não é mesmo? O cronista é um ser paciente, um tipo de fotógrafo que espera o momento exato para tirar uma foto. É sabedor...

VITALINA VARELA (2019) Direção Pedro Costa

As sombras da escuridão  Texto de Marco Fialho  "Vitalina Varela" é uma obra rara, com ela, o cineasta português Pedro Costa se insere em um seleto grupo de diretores que dialogam idiossincraticamente com o cinema. Em um Festival do Rio passado, já havia me defrontado com "Cavalo Dinheiro" (2014), seu trabalho anterior, que me assombrou sobremaneira pelo vigoroso traço autoral do diretor. Inclusive Pedro Costa conhece Vitalina Varela quando buscava locações para esta obra anterior e o encanto foi tanto que não hesitou em incluí-la no elenco para depois aprofundar essa relação em um filme inteiramente dedicado (devotado?) a ela.    Apesar de "Cavalo Dinheiro" ser um filme potente, em "Vitalina Varela" observa-se um apuro de método e um maior rigor nos enquadramentos e fotografia. A manutenção da parceria com o fotógrafo Leonardo Simões muito colabora para o impressionante resultado estético com o uso do conceito pictórico do chiaroscuro , o que de...

BELCHIOR: APENAS UM CORAÇÃO SELVAGEM (2022) Direção de Camilo Cavalcanti e Natália Dias

A beleza de um mito que se impõe pela própria grandeza  Depois de assistir a tantos documentários sobre cantores e cantoras populares por aí, confesso meu profundo desânimo quando anunciam um novo trabalho baseado nessa mesma ideia. Mas eis que "Belchior: apenas um coração selvagem" vem a redimir esses formatos biográficos de antes. O diretor Camilo Cavalcanti e a diretora Natália Dias fazem uma obra cirúrgica, nevrálgica e potente sobre um dos maiores mitos da nossa música, o rebelde compositor e cantor cearense Belchior. Tudo é tão preciso e ao mesmo tempo de grande profusão artística. Um dos méritos da direção é saber ouvir o material que tinham em mãos, de transformar o filme na própria voz de Belchior.  Chama muito atenção a montagem do experiente documentarista Paulo Henrique Fontenelle, que consegue dosar música, temporalidade, depoimentos sem jamais ser didático, ou óbvio, e sem perder de vista a condução narrativa do próprio Belchior, sendo cantando ou falando de man...

A PIOR PESSOA DO MUNDO (2021) Direção de Joachim Trier

Seguindo fórmulas de sucesso  A primeira ideia que podemos pensar sobre "A pior pessoa do mundo" é o quanto inusitado esse filme vai se revelando. Tudo poderia ser estranho, afinal estamos diante de uma personagem forte e em um primeiro momento disposta a tudo, mas Joachim Trier, a cada cena toma os caminhos mais previsíveis para ela. O invólucro é bem apresentado: os planos são ágeis, o roteiro é eficiente e os atores mais ainda, e tudo emoldurado por uma temática interessante, a da relação amorosa e de trabalho da geração millennials ou se preferir da geração Y (nascida entre 1985 - 1999). O filme narra a conturbada história de Julie (vivida pela ótima atriz Renata Reinsve), uma mulher jovem que busca a felicidade, o amor e uma profissão na qual tenha aptidão, não necessariamente nessa ordem. Trier se utiliza de fórmulas bem conhecidas para atingir o sucesso e as realiza dentro da esperada competência. "A pior pessoa do mundo" durante toda a projeção se equilibra ...

A FELICIDADE DAS PEQUENAS COISAS (2019) Direção de Pawo Choyning Dorji

Sinopse Ugyen Dorji (Sherhab Dorji)  tem 20 e poucos anos, e é professor, embora sonhe em se mudar para a Austrália e ser um cantor famoso. Em seu último ano de contrato com o governo, é mandado para Lunana, uma das regiões mais isoladas do mundo, onde deverá assumir uma escola infantil. Uma luz de humanidade vinda do interior do Butão   Texto de Marco Fialho Alguns filmes mostram o quanto o cinema pode ser poderoso e "A Felicidade das pequenas coisas", dirigido por Pawo Choyning Dorji, é um desses bons exemplos. Assistir a uma obra vinda de país inóspito e sem tradição no cinema dá um conforto na alma, afinal como poderíamos conhecer imagens vindas do Butão? Qual seria outra maneira de conhecer um pouco da cultura desse reinado budista situado na Ásia meridional? O inesperado no cinema nos cativa e aproxima do que é cultural e geograficamente distante. Mas só isso não basta. Um filme para nos atrair precisa também reunir qualidades cinematográficas e "A Felicidade das p...

MÚSICAS QUE HABITAM EM MIM - Nº 1 - Clarice (Caetano Veloso)

Coluna mensal de Marco Fialho  MÚSICAS QUE HABITAM EM MIM - Nº 1 - Clarice (Caetano Veloso) link para o LP Caetano Veloso - 1968:  Tropicália (Remastered 2006) - YouTube   ou  Spotify – Caetano Veloso Para escutar só a música "Clarice" https://youtu.be/L8Gi6lr3FnM Caetaneando em Niterói Texto de Marco Fialho O ano era o de 1970. Eu tinha cinco tenros anos de idade. Eu morava com meus pais em um sereno e apertadíssimo apartamento na rua Aymorés, na Praia do Saco de São Francisco, na singela cidade de Niterói (RJ). O Brasil vivia o auge do AI-5, meu pai, carioca convicto, não morava na aprazível Niterói por livre escolha. Era um tipo de esconderijo que restava a um militante do Partido Comunista nesse tempo. Lembro que até há pouco tempo eu vivia olhando para trás com um incômodo desmedido por sentir a presença de alguém no meu encalço. Meus pais andavam assim nas ruas e eu mesmo sem conseguir racionalizar a situação incorporei o trauma de sentir medo, por achar que al...