Pular para o conteúdo principal

O CASO DOS ESTRANGEIROS (2025) Dir. Brandt Andersen


Texto por Marco Fialho

Abordar em uma obra artística um tema ou acontecimento atual, mas cuja informações sobre ele são filtradas somente pelos grandes conglomerados de comunicação é complicado. É o caso de O Caso dos Estrangeiros, filme dirigido por Brandt Andersen, que trata da questão da Guerra na Síria, iniciada em 2011, objetivo era derrubar o regime político de Bashar Al-Assad. 

O Caso dos Estrangeiros enfoca em sua trama visões de personagens que se entrelaçam numa fuga desesperada da Síria. Assim, temos uma médica, um poeta, um soldado, um traficante de pessoas e um capitão grego que trabalha resgatando justamente refugiados vindos da Síria. O diretor Brandt Andersen vai narrando como cada um desses personagens chegou no limite de suas forças nesse difícil processo de uma guerra civil. Mesmo reconhecendo que os atores seguram a qualidade da encenação, é preciso reparar que outras escolhas comprometem o resultado final do filme.

A escolha por fragmentar a história não permite que se aprofunde muito as histórias e por isso ficamos com uma sensação de que sempre falta alguma informação a mais para uma análise mais complexa de um país onde muitos interesses estão em jogo. São sutilezas históricas que ficam pelo caminho tanto os interesses dos países envolvidos (Israel e Estados Unidos), como os grupos políticos internos que conhecemos pouco e que parecem ser simplificados pelo roteiro do filme. Esse é um conflito cujo lastro histórico demandaria um maior entendimento acerca das forças envolvidas. 

Para dirimir a amplitude e complexidade temática abordada em O Caso dos Estrangeiros, o diretor Brandt Andersen opta por uma narrativa francamente sensacionalista, onde as tensões e dramas aparecem com tintas fortes e eivados de um sentimentalismo exacerbado. Sempre desconfio de obras que salientam por demais emoção, pois elas sugerem aspectos racionais estão sendo escamoteados. O velho truque de fazer as pessoas se emocionarem para não pensar, apenas sentir o que está assistindo. 

Nota-se o quanto é conveniente para o roteiro de O Caso dos Estrangeiros incluir em quase todas as histórias narradas a presença de crianças. Esse acréscimo infantil facilita a inclusão do elemento emocional e permite um maior e mais fácil envolvimento emocional do espectador à história narrada. Como não se sensibilizar com uma criança em dificuldade ou em delicado estado de saúde? 

O Caso dos Estrangeiros é desses filmes apelativos, que partem de panoramas históricos devastados para poder enfiar uma ideologia que fortaleça a ideia de liberdade inspiradoramente estadunidense, vide a história de Marwan (Omar Sy), um traficante inescrupuloso de gente que sonha ir para os Estados Unidos com o filho, vendido por ele como o paraíso da liberdade na Terra. Cinema é assim, Hollywood lhe lança uma flecha enfeitiçada pelos sentimentos mais primários, como o do amor à família, a compaixão e o anseio por liberdade e tenta convencer o público que a felicidade está logo ali, embora esqueça de avisar que a guerra que estamos vendo na tela foi provocada pelo seu próprio país. É de lascar.    

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...