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PARQUE LEZAMA (2026) Dir. Juan José Campanella


Texto por Marco Fialho

O maior desafio de Parque Lezama, novo filme do consagrado diretor argentino Juan José Campanella, é driblar o seu formato original, o teatro. A peça I'm Not Rappaport, de autoria de Herb Gardner, serve de base textual para a adaptação, quase toda encenada em um banco de praça do Parque Lezama, em San Telmo, onde dois senhores de idade estabelecem uma relação ditada por suas solidões e expectativas de vida. 

A base dramática de Parque Lezama é o poder de fabulação dos personagens, e que às vezes descamba para o humor, o que justifica Campanella escolher dois atores impecáveis para essa empreitada, Eduardo Blanco (Cardozo) faz um personagem mais velho do que sua idade atual, com Campanella tendo que o maquiar para que caiba no papel. Já Luis Brandoni (León), representa um militante comunista que a todo instante reinventa sua vida pela força da imaginação. Evidente que o mais crucial aqui é a sintonia entre esses dois atores extraordinários, que nitidamente se divertem trabalhando e testando os limites de seus personagens.

Esse é um filme bem com a cara das produções da Netflix durante a pandemia, caracterizada pelo baixo custo, que quase sempre contava com cenários únicos, ou quase únicos, uma mise-en-scène voltada para o protagonismo dos atores e uma câmera disposta a escamotear a teatralidade textual advinda da origem das propostas. Para suavizar a carência de cenários e personagens, Parque Lezama propõe dois atores em cena, tendo sempre um conflito estabelecido entre eles, para que uma dinâmica narrativa seja resguardada e a trama não fique muito enfadonha.

Por isso, Parque Lezama se caracteriza por uma simplicidade narrativa e por um excesso de texto (algo que incomoda nesse tipo de proposta cênica), além do talento dos protagonistas. O filme pode ser visto como uma reflexão não só sobre a finitude humana, mas ainda instaura uma exploração dramática das nuances de uma etapa da vida onde as certezas abruptamente se esvaem e o sentido da solidão parece algo permanente. Cardozo, o personagem de Eduardo Blanco, um presentista, está convencido da derrota que o mundo contemporâneo impõe aos mais idosos, enquanto León, o personagem de Luis Brandoni, não se entrega facilmente às evidências que a vida continuamente traz, e por isso reage, reinventando vários fatos de sua vida.

A Cardozo cabe apenas aceitar a derrota de ser demitido e despejado do condomínio que mora e do qual a sua maior função é fazer a vigília da caldeira de aquecimento e tem como meta de momento retirar o máximo de benefício da situação catastrófica atual, algo que León tenta reverter. León é o personagem mais dinâmico, o que faz a história caminhar, como suas mentiras inventadas em relação a qualquer história que o ronda. Um dos méritos do texto original é abordar vários fatos da história argentina das últimas décadas, reservando um espaço ora para a nostalgia ora para a melancolia de quem viveu muito e não conseguiu triunfar em suas metas.

Entretanto, o maior objetivo dramatúrgico de Parque Lezama é criar um enfrentamento ontológico entre os dois personagens. Enquanto Cardozo tende à paralisia, o de León seja o dinamismo e a inconformidade perante os fatos da vida. Qual a melhor forma de encarar a vida, aquela que traz mais satisfação, realizações ou felicidade? Essa é uma interrogação que não tem uma resposta, já que a atitude mais ousada de León torna a vida dele mais intensa, mas não necessariamente melhor.    

Mas cabe mencionar um aspecto que por vezes compromete bastante a dramaturgia de Parque Lezama, no caso a trilha sonora. Ela se revela um elemento que na maioria das vezes deixa a desejar no filme, especialmente por investir no óbvio, com um piano meloso que emoldura algumas cenas de maneira bastante previsível. Caberia aqui um maior diferencial criativo e ousado, o que amenizaria os poucos recursos que a mise-en-scène proporciona para um formato tão diminuto de cenário. 

Apesar das dificuldades que o formato teatral impõe a Parque Lezama, vale a pena assisti-lo devido ao desafio da encenação, bastante dificultada pela sua dimensão espacial reduzida, ainda mais que apenas o mesmo local do parque é utilizado na encenação. Daí, vemos a importância de uma boa direção de atores e a criação de planos que amenizam a tendência à morosidade que a trama possibilita. Para quem gosta de ver bons atores em cena, sobretudo em um duelo cênico, esse é um filme que desperta interesse e uma boa dose de admiração, já que esse acaba sendo o seu maior atributo.

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