Pular para o conteúdo principal

MANUAL PRÁTICO DA VINGANÇA LUCRATIVA (2025) Dir. John Patton Ford


Texto por Marco Fialho

Por mais que Glen Powell transfira seu carisma para o personagem Becket Redfellow, um homem que convive com a frustração de nascer numa família em que a riqueza se avizinhava, mas que não podia usufruir dela, apenas depois da morte de alguns herdeiros mais próximos ao patriarca Whitelaw Redfellow (Ed Harris). 

Manual Prático da Vingança Lucrativa, dirigido pelo diretor John Patton Ford (um burocrata que decupa seu filme da maneira mais óbvia possível), parte de uma proposta de refilmagem do filme inglês As Oito Vítimas, de 1949, estrelado por Alec Guinness. A versão atual até tem seus momentos de humor, embora não consiga em nenhum momento realmente convencer por completo. O roteiro aqui é tão redondinho que atrapalha o resultado, especialmente pelo excesso de previsibilidade. Fora que Margaret Qualley não consegue estabelecer um bom diálogo cênico com Glen Powell, como se os dois estivessem sem sintonia em suas composições. 

Esse é um filme que soa o tempo todo datado, não chega a ser pavoroso, mas destoa por se apossar de uma trama já devidamente explorada no cinema. As cenas de assassinato são sem graça, carece de energia e pulsão. Não que a escolha narrativa de vermos o personagem de Becket contando retrospectivamente sua triste história, que o levaria à sentença de morte, seja equivocada, apenas ela se vislumbra sem maiores atrativos, afinal, em sã consciência, qual a graça de se matar pessoas para se apossar de uma rica herança? A evidência disso é tão descarada que em certa altura quando constatamos que Becket tem um bom emprego no mercado financeiro e uma namorada na qual é apaixonado e que também o ama e mesmo assim o nosso bom-mocinho decide continuar seu plano perverso de matança de familiares, tudo se torna bem forçado, pois nada no filme justifica tal insanidade. 

Porém, o maior agravante de Manual Prático da Vingança Lucrativa é o aspecto ideológico ensejado em sua trama pelo viés cômico. Ao que tudo indica, o que o filme inspira verdadeiramente com sua trama rocambolesca é a ideia de que enriquecer deve ser o maior sentido humano na Terra, senão o único. Como sempre, os filmes hollywoodianos gostam de divertir o público tentando apagar o pensamento que está por detrás de suas histórias e aqui não é diferente. Ser rico é a única ambição a ser pleiteada por todos nós e ponto final. 

Ao mesmo tempo, Manual Prático da Vingança Lucrativa nos inspira involuntariamente um nojo desses milionários vazios, excêntricos, egocêntricos e ridículos. Não há um denúncia sequer acerca da exploração que essa classe faz em relação ao seus funcionários ou dependentes. Isso salta aos olhos como um dado deplorável, por mais que esses personagens sejam colocados em alguns momentos como patéticos e desimportantes com suas vidas medíocres, toda essa construção de universo apenas serve para justificar e embasar as suas futuras mortes, como se o problema não estivesse na riqueza e sim no fato de você não a possuir.    

Por tudo isso, Manual Prático da Vingança Lucrativa resulta em uma obra repleta de clichês cômicos envoltos numa narrativa clássica que carece de soluções criativas e esbanja elementos bem comuns no cinema hollywoodiano atual, onde a narrativa quer se sustentar por meio de atores carismáticos, com um roteiro nada criativo que se escora no banal. Creio que isso seja o bastante para colocar o filme numa categoria bem genérica de obras, bacaninhas de assistir, mas esquecíveis e sem maior brilho.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...