Texto por Marco Fialho
Por mais que Glen Powell transfira seu carisma para o personagem Becket Redfellow, um homem que convive com a frustração de nascer numa família em que a riqueza se avizinhava, mas que não podia usufruir dela, apenas depois da morte de alguns herdeiros mais próximos ao patriarca Whitelaw Redfellow (Ed Harris).
Manual Prático da Vingança Lucrativa, dirigido pelo diretor John Patton Ford (um burocrata que decupa seu filme da maneira mais óbvia possível), parte de uma proposta de refilmagem do filme inglês As Oito Vítimas, de 1949, estrelado por Alec Guinness. A versão atual até tem seus momentos de humor, embora não consiga em nenhum momento realmente convencer por completo. O roteiro aqui é tão redondinho que atrapalha o resultado, especialmente pelo excesso de previsibilidade. Fora que Margaret Qualley não consegue estabelecer um bom diálogo cênico com Glen Powell, como se os dois estivessem sem sintonia em suas composições.
Esse é um filme que soa o tempo todo datado, não chega a ser pavoroso, mas destoa por se apossar de uma trama já devidamente explorada no cinema. As cenas de assassinato são sem graça, carece de energia e pulsão. Não que a escolha narrativa de vermos o personagem de Becket contando retrospectivamente sua triste história, que o levaria à sentença de morte, seja equivocada, apenas ela se vislumbra sem maiores atrativos, afinal, em sã consciência, qual a graça de se matar pessoas para se apossar de uma rica herança? A evidência disso é tão descarada que em certa altura quando constatamos que Becket tem um bom emprego no mercado financeiro e uma namorada na qual é apaixonado e que também o ama e mesmo assim o nosso bom-mocinho decide continuar seu plano perverso de matança de familiares, tudo se torna bem forçado, pois nada no filme justifica tal insanidade.
Porém, o maior agravante de Manual Prático da Vingança Lucrativa é o aspecto ideológico ensejado em sua trama pelo viés cômico. Ao que tudo indica, o que o filme inspira verdadeiramente com sua trama rocambolesca é a ideia de que enriquecer deve ser o maior sentido humano na Terra, senão o único. Como sempre, os filmes hollywoodianos gostam de divertir o público tentando apagar o pensamento que está por detrás de suas histórias e aqui não é diferente. Ser rico é a única ambição a ser pleiteada por todos nós e ponto final.
Ao mesmo tempo, Manual Prático da Vingança Lucrativa nos inspira involuntariamente um nojo desses milionários vazios, excêntricos, egocêntricos e ridículos. Não há um denúncia sequer acerca da exploração que essa classe faz em relação ao seus funcionários ou dependentes. Isso salta aos olhos como um dado deplorável, por mais que esses personagens sejam colocados em alguns momentos como patéticos e desimportantes com suas vidas medíocres, toda essa construção de universo apenas serve para justificar e embasar as suas futuras mortes, como se o problema não estivesse na riqueza e sim no fato de você não a possuir.
Por tudo isso, Manual Prático da Vingança Lucrativa resulta em uma obra repleta de clichês cômicos envoltos numa narrativa clássica que carece de soluções criativas e esbanja elementos bem comuns no cinema hollywoodiano atual, onde a narrativa quer se sustentar por meio de atores carismáticos, com um roteiro nada criativo que se escora no banal. Creio que isso seja o bastante para colocar o filme numa categoria bem genérica de obras, bacaninhas de assistir, mas esquecíveis e sem maior brilho.

Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!