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A HISTÓRIA DO SOM (2025) Dir. Oliver Hermanus


Texto por Marco Fialho

A História do Som, dirigido por Oliver Hermanus e baseado em um conto de Ben Shattuck (também responsável pela adaptação para o cinema) é um filme sobre encontros. O de Paul Mescal com Josh O'Connor (e que dupla eles formam aqui), o da música com a vida, de David (O'Connor) com Lionel (Mescal) e da música com eles. A direção opta por narrar a história pela perspectiva de Lionel, um personagem que se encanta com David e viaja com ele rumo ao registro do folk norte-americano, que transita tanto pelo amor quanto pelos descaminhos da solidão.

Vejo Lionel como um personagem complexo, em busca de conexões profundas, cuja pesquisa musical do folk o leva a descobertas musicais escondidas em lugarejos rurais e que se apaixona por David, um músico que como ele adora o folk e almeja registrá-lo em modernos aparelhos de captação de voz. Essa conexão é o que guiará A História do Som desde o início até o fim. 

A História do Som é um filme sobre a graça de viver, e lógico, a música só poderia reafirmar tanto o amor quanto o encontro de almas que ali acontece, por isso vale sublinhar o trabalho de grande sensibilidade do trio Hermanus, Mescal e O'Connor, em especial por tratar o universo da masculinidade dentro de um paradigma diferente do habitual, o relacionando à possibilidade do amor, inclusive entre dois homens, e do afeto fluindo como pressuposto narrativo.

É interessante como Oliver Hermanus não está preocupado com o aspecto comercial da impressão musical e de vozes, mas sim com a sua faceta cultural com registro por meio de um fonógrafo de cilindros removíveis com cera como como memória de um canto e não como uma mera venda mecânica de um atributo humano. O ato de gravar vem atrelado à pesquisa e a capacidade de se arquivar um registro de voz cantada, algo relacionado com a perpetuação da beleza de uma cultura popular que logo tendia ao desaparecimento pela transformação econômica do campo imposta pelo capitalismo. 

Como é bom ver uma obra ser filmada e montada sem pressa, respeitando silêncios e compassos musicais contemplativos. O tempo é considerado um aliado do desenvolvimento dramático de A História do Som, com os atores nitidamente filmando com prazer, sem arroubos ou exageros. Há uma simbiose constante entre os personagens e o cenário em cada cena, uma valorização da simplicidade como motor da trama e do fazer cinematográfico.   

Em certo momento de A História do Som, o envolvimento afetivo e sexual entre David e Lionel passa a ser mediado pela lembrança, o que derrama uma dose de melancolia romântica na trama. A música também faz parte desse exercício de memória, ainda mais depois que Lionel encontra as gravações que ambos fizeram em suas viagens para o interior. Cada lugar um novo encontro, uma nova pulsão de vida irradiada. 

A História do Som tem uma estrutura interna narrativa que pode passar desapercebida, mas que o torna um filme bem atrativo, uma forma de circularidade da relação entre David e Lionel, de maneira que nem os deslocamentos permanentes dos dois pelo mundo o afastam completamente, já que depois do encontro deles existe uma referência constante que respalda alguma forma de reencontro, seja no encontro entre Lionel e Belle, a ex-esposa de David, nos pensamentos saudosos de Lionel ou mesmo no lançamento do livro de Lionel já idoso sobre a jornada deles pelo mundo das origens da música folk. Ainda há essa circularidade da própria música, sempre um elemento a fustigar a memória, caso do casal que Lionel encontra em sua volta à sua terra natal, cantando folk numa varanda de uma casa.      

Contudo, como chama atenção a câmera de Oliver Hermanus continuadamente encantada com a dupla Lionel e David, os registrando sempre com uma grande dose de afeto. Felizmente, A História do Som não é mais um filme cuja a maior preocupação seja a espetacularização do tema ou dos personagens. Aqui tudo passa com placidez e ternura, para que não sejamos atropelados por uma mise-en-scène acelerada ou avassaladora. Tudo é tão delicado que fiquei assustado de sentir o quanto até o fim essa coerência é preservada como uma joia a ser cuidadosamente guardada. 


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