Pular para o conteúdo principal

FELIZ ANIVERSÁRIO EM BELGRADO (2021) Dir. Milica Tomovic


Texto por Marco Fialho

Como ser feliz em plena guerra que arruína o emocional das pessoas que residem em países em conflito? Essa é a pergunta que fica em Feliz Aniversário em Belgrado, do diretor Milica Tomovic, ao abordar a Guerra da Bósnia (1992-1995), que terminou por dissolver a antiga Iugoslávia e abalar a vida de tantas pessoas que nasceram nesses territórios marcados pela hostilidade. 

O filme se passa em um período de 24 horas, numa casa situada em um bairro afastado do Centro de Belgrado, mas que muito diz sobre a alma desse povo que sofre com a guerra. E o diretor Tomovic se utiliza da festa de 8 anos da menina Minja (Katarina Dimic) para revelar muitas curiosidades da vida dos adultos presentes na festa. 

A mise-en-scène de Tomovic se mostra bem interessante pelo fato da câmera aproveitar os espaços íntimos da casa para desvelar relações, conflitos e indiscrições entre os presentes. Casais em crise, inclusive os pais da menina Minja, Marijana (Dubravka Kovjanic) e Otac (Stefan Trifunovic), que não transam faz um tempo, mesmo com a esposa já se masturbando bem às vistas do marido, que se faz de cego perante a cena.

A trama se desenvolve com um humor muito ácido em relação aos personagens, que juntos compõem um painel interessante da década de 1990, com suas vicissitudes, desejos e busca pela felicidade, mesmo que de maneira atabalhoada e enviesada. O diretor acerta em delimitar o quanto as 3 gerações presentes na casa não dialogam entre si, inclusive essa ausência de conversa serve para refletir sobre a incapacidade de todos em ouvir verdadeiramente o outro, sintoma que expressa a própria existência da guerra.           

E ainda tem o menino Fica (Konstantin Ilin), um corpo francamente deslocado de todos os grupos, inclusive o infantil, porque ele é mais novo do que todos os outros, que deliberadamente não o inclui nas brincadeiras. Por estar em isolamento, Fica perambulando pela casa, vendo cenas secretas, inesperadas e faz um monte de peraltices ao tentar limpar sua roupa suja de chocolate no banheiro. A sua figura perdida simboliza o que acontece na casa, a falta de unidade e o excesso de individualidade, que não permite uma verdadeira integração das pessoas ali presentes. A mãe de Marijana fica no quarto sozinha, apartada tanto do grupo adulto quanto das crianças, mas será ela a única a confortar o menino Fica.

Feliz Aniversário em Belgrado possui cenas individualmente muito boas, com pequenas histórias entre personagens, como o casal gay Nesa (Slaven Doslo) e Ujak (Nikola Rakocevic), que se agarram pelos quartos vazios, assim como o trisal lésbico; a amizade entre  o jovem punk (que já foi da juventude nazista) e a a filha adolescente dos donos da casa. Esses personagens formam um mosaico de um país em crise, que não consegue se estabelecer em uma unidade, tal como a família que reside na casa. 

Quando Marijana sai a pé pela rua do bairro, ela vai como um animal, só com seus instintos aguçados e nada mais. Na sua cabeça tudo pode acontecer e acontece. Sua fome sexual se faz presente e a sua atitude feroz e inesperada constitui uma das mais fortes do filme. Os personagem são em sua maioria reativos, são pura emoção, são zero razão. Tomovic realiza um filme que muito diz sobre um país desencontrado, mas ávido por felicidade e por uma vida que valha à pena.    

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...