Texto por Marco Fialho
Como ser feliz em plena guerra que arruína o emocional das pessoas que residem em países em conflito? Essa é a pergunta que fica em Feliz Aniversário em Belgrado, do diretor Milica Tomovic, ao abordar a Guerra da Bósnia (1992-1995), que terminou por dissolver a antiga Iugoslávia e abalar a vida de tantas pessoas que nasceram nesses territórios marcados pela hostilidade.
O filme se passa em um período de 24 horas, numa casa situada em um bairro afastado do Centro de Belgrado, mas que muito diz sobre a alma desse povo que sofre com a guerra. E o diretor Tomovic se utiliza da festa de 8 anos da menina Minja (Katarina Dimic) para revelar muitas curiosidades da vida dos adultos presentes na festa.
A mise-en-scène de Tomovic se mostra bem interessante pelo fato da câmera aproveitar os espaços íntimos da casa para desvelar relações, conflitos e indiscrições entre os presentes. Casais em crise, inclusive os pais da menina Minja, Marijana (Dubravka Kovjanic) e Otac (Stefan Trifunovic), que não transam faz um tempo, mesmo com a esposa já se masturbando bem às vistas do marido, que se faz de cego perante a cena.
A trama se desenvolve com um humor muito ácido em relação aos personagens, que juntos compõem um painel interessante da década de 1990, com suas vicissitudes, desejos e busca pela felicidade, mesmo que de maneira atabalhoada e enviesada. O diretor acerta em delimitar o quanto as 3 gerações presentes na casa não dialogam entre si, inclusive essa ausência de conversa serve para refletir sobre a incapacidade de todos em ouvir verdadeiramente o outro, sintoma que expressa a própria existência da guerra.
E ainda tem o menino Fica (Konstantin Ilin), um corpo francamente deslocado de todos os grupos, inclusive o infantil, porque ele é mais novo do que todos os outros, que deliberadamente não o inclui nas brincadeiras. Por estar em isolamento, Fica perambulando pela casa, vendo cenas secretas, inesperadas e faz um monte de peraltices ao tentar limpar sua roupa suja de chocolate no banheiro. A sua figura perdida simboliza o que acontece na casa, a falta de unidade e o excesso de individualidade, que não permite uma verdadeira integração das pessoas ali presentes. A mãe de Marijana fica no quarto sozinha, apartada tanto do grupo adulto quanto das crianças, mas será ela a única a confortar o menino Fica.
Feliz Aniversário em Belgrado possui cenas individualmente muito boas, com pequenas histórias entre personagens, como o casal gay Nesa (Slaven Doslo) e Ujak (Nikola Rakocevic), que se agarram pelos quartos vazios, assim como o trisal lésbico; a amizade entre o jovem punk (que já foi da juventude nazista) e a a filha adolescente dos donos da casa. Esses personagens formam um mosaico de um país em crise, que não consegue se estabelecer em uma unidade, tal como a família que reside na casa.
Quando Marijana sai a pé pela rua do bairro, ela vai como um animal, só com seus instintos aguçados e nada mais. Na sua cabeça tudo pode acontecer e acontece. Sua fome sexual se faz presente e a sua atitude feroz e inesperada constitui uma das mais fortes do filme. Os personagem são em sua maioria reativos, são pura emoção, são zero razão. Tomovic realiza um filme que muito diz sobre um país desencontrado, mas ávido por felicidade e por uma vida que valha à pena.

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