Texto por Marco Fialho
Intensidade dramática define Kokuho: O Preço da Perfeição, filme do cineasta japonês Sang-il Lee. Inclusive, nota-se uma boa influência narrativa do bom cinema clássico hollywoodiano ao retratar a vida artística de Kikuo (Ryo Yoshizawa), um rapaz de 14 anos pretendente ao posto de ator do tradicional teatro Kabuki. Essa é uma produção esmerada, talvez longa em demasia, que sabe construir a jornada desse intrigante personagem.
Apesar de retratar uma manifestação tradicional no Japão, desde o século XVII, o filme se passa em meados do século XX, depois da derrota na Segunda Guerra. Kohuo era um filho de um chefe Yakuza, que confia sua educação artística a um consagrado ator Kabuki. O papel mais cobiçado dentro do Kabuki é o Onnagata, papel feminino interpretado por um ator homem, já que lá no século XVII, o xogunato, que governava o Japão, não permitiu a participação das mulheres no teatro.
Visualmente, Kokuho: O Preço da Perfeição é impecável, com a câmera captando detalhes da apresentação da representação cênica do Kabuki, mais do que explicar, o filme se atém a mostrar o delicado trabalho de composição dos personagens Kabuki. O filme possui uma maquiagem refinada, assim como uma fotografia impecável em diversas cenas.
O âmago de Kokuho: O Preço da Perfeição é a atuação preciosa e inebriante de Ryo Yoshizawa. Ele valoriza por demais um personagem complexo, que precisa vencer na vida por merecimento, mas também por possuir um quê de inato para a profissão de ator do teatro Kabuki, fora a abnegação obrigatória para quem quer seguir esse ofício. E o diretor Sang-il Lee mantém uma tensão permanente na trama, pois seria natural que Shunsuke (Takahiro Miura), filho do mestre, seguisse a trajetória do pai. Mas a direção sabe usar desse conflito para alavancar a dramaticidade dessa imponente obra.
A direção de Sang-il Lee mantém a coerência narrativa ao respeitar a cronologia rigorosamente para que o fluxo não se perca nas suas quase 3 horas de duração. Esse é um filme que se atém aos detalhes, da cenografia ao figurino tudo é tão caprichado que compensa o tempo estendido, assim como o precioso cuidado com as interpretações, todas tão corretas que conferem uma autenticidade à obra.
Kokuho: O Preço da Perfeição é mais uma obra a ser observada pela indústria hollywoodiana, que perdeu a mão de como narrar histórias fortes, consistentes e tecnicamente precisas. Além desse aspecto técnico, o filme valoriza ainda a historicidade, sem ser didático ou pretensioso. Talvez esse seja um ótimo exemplar de como se fazer uma obra densa, intrigante, informativa, reflexiva, sem precisar fazer uso de elementos apelativos, como andamos vendo tanto por aí.
.webp)
🙏⚘️
ResponderExcluir