Texto* por Marco Fialho
* A crítica contém spoilers.
Quem acompanha meus textos sabe o quanto eu sou crítico à espetacularização no cinema, em especial o quanto ela veste lindamente os filmes por fora sem se preocupar em mostrar qual essência se pode extrair da imagem retratada, o que resulta quase sempre em obras repletas de beleza, superficialidade e vazio. Normalmente, são os grandes estúdios hollywoodianos que se prestam a tal serviço, numa busca por uma boa bilheteria, alavancada por uma bela e eficaz campanha de marketing.
O surpreendente é quando um diretor ou diretora consegue impor um projeto dentro da indústria hollywoodiana que contraria essas normas empresariais que facilitam o superficial. Creio que Maggie Gyllenhaal tenha esse mérito ao realizar A Noiva!, logo em seu segundo longa, uma obra das mais consistentes e belas do nosso cinema contemporâneo, e o melhor, que tenha feito essa proeza dentro da maior e mais influente indústria cinematográfica mundial. Mas já se sabe o quanto Maggie Gyllenhaal foi obrigada a retirar cenas de seu filme, algumas vistas como violentas demais pelos executivos da Warner, fazendo A Noiva! se aproximar do próprio personagem de Frankenstein, nascido de um esquartejamento de corpos. Interessante ver o quanto Gyllenhaal salva seu Frankenstein preservando nele muito brilho e qualidades.
Mas porque A Noiva! é tão brilhante assim, mesmo com os cortes impostos pela Warner? O que a faz tão relevante e atual, e logo numa refilmagem de um filme de terror de 1935, isto é, de quase 100 anos atrás? Não se pode apenas citar um único fator, mas sim alguns. Os maiores méritos de Maggie Gyllenhaal estão na atualização histórica da trama, na encenação lúgubre e na interpretação dos atores (em especial, a dos dois protagonistas). Mesmo que o roteiro traga inconsistências, os méritos citados acima compensam os pontos frágeis da história, é a mise-en-scène superando a ideia de que roteiro por si salva o filme.
O primeiro acerto de Maggie Gyllenhaal é o da adaptação do título para o século XXI. Retirar a noiva do papel secundário e despersonalizado de ser a noiva do Frankenstein para ser a protagonista. Mesmo que ela nasça de um desejo dele, desde a primeira aparição sua presença é marcada pela independência e força própria. Assistir a A Noiva! é se perguntar a todo momento que mulher é essa que estamos vendo. Tudo o que vemos sustenta e endossa o título, inclusive há uma cena dedicada ao título, com Penélope (nome que Frankenstein escolhe para ela) sublinhando porque o filme não se chama A Noiva de Frankenstein, tal como o filme de James Whale de 1935. Curioso como Maggie Gyllenhaal leva seu filme para 1937, uma época próxima a da filmagem do filme original.
Maggie Gyllenhaal revela uma astúcia muito grande ao levar o filme para uma Chicago dos anos 1930, conhecida pela crise da Grande Depressão e pela ascensão dos gangsteres, mas ao invés de retratar essa Chicago como glamourosa como o cinema já fez em outras oportunidades, vide Chicago (2002), de Rob Marshall, prefere exibir uma cidade soturna e decadente, tomada pela violência, representada pela gangue do mafioso Lupino (Zlatko Buric), um contumaz violentador e assassino de mulheres. Vale registrar como a diretora introduz uma única sequência onde os monstros dançam emulando uma coreografia típica dos históricos musicais, o que também pode ser vista como uma crítica debochada dos filmes que volta e meia se utilizam dessa imagem alegre da época como um todo, podemos lembrar aqui de Cotton Club (1984), a clássica obra de Francis Ford Coppola, com Richard Gere interpretando um músico de swing jazz.
Ao citar essa sequência da dança monstrenga de A Noiva, creio ser oportuno sublinhar a importância do corpo nessa obra de Maggie Gyllenhaal. De um determinado ponto de vista, esse é um filme sobre o corpo, especialmente o corpo feminino e como ele figura e é tratado pela sociedade, sobretudo pelos homens. Pode-se dizer que a violência sobre esse corpo é central em A Noiva! e a diretora pontua isso de maneira incontestável e irrevogável. Os homens são agressores mormente habituais, ocupam este lugar sendo eles um gangster, um policial, um dono de bar, sendo todos, em quaisquer circunstâncias, seja na rua ou em um espaço privado, vendo e abordando a mulher como um mero objeto de prazer egoísta e de violência.
A Noiva! é por isso, e ainda por outros detalhes, um belíssimo libelo feminista, embora reduzi-lo a isso seja subestimá-lo como obra de arte que é, não só pela coragem de dizer algo entalado na garganta, mas igualmente propor uma visão coerentemente artística desse universo. Daí a valorização que Maggie Gyllenhaal faz das interpretações. Jessie Buckley faz uma das grandes interpretações do cinema ao nos brindar com uma personagem de carne, osso e alma. O público fica abobalhado tal como Frankenstein (um fantástico Christian Bale) frente a ela, ao absurdo incontrolável de suas cenas. Penélope não é só uma mulher a reagir à violência, ela é um furacão afirmativo, mesmo que incompreendida, porque o mundo não está preparado para enfrentar ela sendo ela, não mais como uma sombra do homem. Retirar a língua de um policial depois de ser abusada por ele é um ato maior que extrapola até mesmo o simbólico. E Penélope ainda é referência para outras mulheres e Gyllenhaal lança essa revolução de que um corpo corajoso torna-se exemplo de luta e resistência contra a violência de gênero tão comum e que anda levando as mulheres para o fatídico feminicídio. Assim, a diferente Penélope, com sua boca manchada de sangue vomitado serve de símbolo para uma luta libertária dos corpos femininos. E Gyllenhaal filma isso com um vigor impressionante e de maneira apaixonada.
Como falar de A Noiva! sem falar de feminicídio? Vivemos em um mundo onde matar mulheres chegou a um patamar aterrorizante. Fora que devemos considerar que o mundo de hoje é mais terrível do que qualquer filme de terror. A Noiva! mostra isso de várias formas. Quando matam Penélope não a fazem apenas com tiros, mas com raiva e continuam atirando sem cessar, até uma mulher intervir e mandar parar. O que Maggie Gyllenhaal está transparecendo nessa cena é que há uma espetacularização da morte da mulher nessa sociedade e creio que ela não está se referindo a 1937, mas a história, e mais ainda, aos nossos dias. A Noiva! atualiza sim, mas não perde o enfoque diacrônico do problema de que homens matam mulheres não é de hoje e esse círculo tristemente ainda não se fechou, basta ligar a televisão por apenas um minuto em um telejornal para se saber disso.
Mas como não falar de Frankenstein, nosso coadjuvante de luxo, afinal, é ele o responsável por trazer Penélope à vida. Logo ele, fruto de uma experiência científica de um médico. Mas o melhor que Frankenstein traz para A Noiva é o seu encantamento por Penélope. Se a princípio ele é o protótipo do macho alfa, afinal seu desejo é ter uma mulher para copular e nada mais. Maggie Gyllenhaal transforma o seu "monstro" em algo maior e lança por ele uma necessidade de um novo olhar masculino para a mulher. Frankenstein simplesmente, admira, se encanta com o espírito liberto de Penélope, aprende a respeitá-la e encara junto as lutas por novas relações e descobrem juntos o sexo, e como transam, sendo essas cenas maravilhosas. Não estamos aqui diante de vilões, são vítimas de uma sociedade que não aceita o diferente, que nomeia como monstros quem não se alinha a um determinado padrão de estética e comportamento. Para Maggie Gyllenhaal, a sociedade patriarcal, classista, violenta e careta são os vilões. A violência deles é reativa e de sobrevivência, tanto que logo depois das agressões eles se perguntam se deveriam ter praticado o tal ato violento.
Mesmo que A Noiva! seja marcada pela violência, afinal está se discutindo o mundo que vivemos, Maggie Gyllenhaal sabe banhar sua obra com momentos poéticos e escolhe o cinema para ser esse artifício onde o imaginário flui e lança os personagens para o universo lúdico e de esperança. O cinema entra em A Noiva! como vida e a felicidade da imaginação, o que me fez lembrar de O Espírito da Colmeia (1973), filme do espanhol Victor Erice, onde uma menina (Ana Torrent), em plena Guerra Civil Espanhola, aguça a sua imaginação depois de assistir a Frankenstein (1931), de James Whale. Em A Noiva!, Frankenstein assiste aos filmes de seu ídolo, o ator e galã Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal), com suas histórias românticas, embora se decepcione quando o conhece por trás das telas, numa das cenas mais interessantes e belas do filme.
A Noiva! se mostra uma reinvenção criativa e extraordinária de uma história contada há 90 anos atrás, que a atualiza com uma força tal que nem as censuras da Warner foram suficientes para retirar o brilho do filme. Dizem que os executivos mandaram Maggie Gyllenhaal retirar a cena em que Penélope vomita aquele sangue preto, da cor de sua língua, repisado depois de sua morte. Essa seria uma cena incrível e de uma sensualidade incomum e rebelde, um ato de amor e aceitação do nosso ex-vilão do cinema. Vale acrescentar que tanto Penélope quanto Frankie (nome sugestivamente adotado nesta versão) são basicamente desmemoriados, já que não lembram quase nada de suas vidas pregressas e a diretora tira o melhor disso, em um esforço de lembrarmos das opressões sofridas no passado e que também nos pertencem. A frase "você é um buraco negro", torna-se uma ótima metáfora da realidade deles pelo tempo presente, mas como um potencial mar de lembranças apagadas.
Até o momento não mencionei Mary Shelley, a escritora que criou o mito Frankenstein por meio da literatura e descortinou o gênero do fantástico e do terror. Gyllenhaal surpreende a elevá-la a personagem de A Noiva!. Ela (interpretada pela própria Jessie Buckley) é a pomba gira de Penélope, uma entidade que a guia na valentia de encarar o mundo de frente. Só essa ideia em si já valia o filme, mas Maggie Gyllenhaal faz mais ao propor uma encenação ousada, com uma câmera que beira o irascível, com ângulos insinuantes tal como a protagonista demanda em sua empreitada. Se Gyllenhaal pensa em realizar uma continuidade para A Noiva!, veremos (embora eu torça para não haver), pois o final deixa dúvidas pairando no ar.
A Noiva! não aceita ser aquele filme sobre mulheres fragilizadas, como muitas vezes acontece em diversas obras. Aqui, Ida morre, para renascer como Penélope, expressão de uma nova mulher que não precisa de homens que lhe dite o caminho a seguir na vida. Se Frankenstein precisou de pedaços de corpos de homens variados, Penélope é um renascimento do mesmo corpo vítima do feminicídio. Entretanto, Maggie Gyllenhaal vai além ao propor novos códigos para uma relação entre homem e mulher. Se a princípio, Frankie quer uma companheira parecida com ele para poder transar, já que as mulheres existentes no mundo se negam a ir para cama com ele, o que Frankie descobre é uma mulher inteligente e dona de si, na qual terá que mostrar atributos que atraiam a ela. Gyllenhaal atualiza o mito do monstro os humanizando em uma sintonia de corpo e alma, pela vontade deles de viver juntos o seu direito a amar e serem diferentes perante a uma suposta padronização social que ainda hoje atinge corpos e valores sentimentais. A maior certeza que temos ao sair do cinema é que monstros podem ser qualquer um de nós, menos Frankie e Penélope.

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