Texto por Marco Fialho
Na nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes, dirigido pela diretora Emerald Fennell, sobra beleza plástica e artificialismo. Talvez isso justifique a decisão de refilmar um dos livros mais adaptados para o cinema, de autoria da escritora inglesa do século XIX, Emily Brontë.
Emerald Fennell vem enfrentando muitas críticas pela escolha de Jacob Elordi como Heathcliff, já que na versão literária o personagem é um homem não branco, atitude considerada de embranquecimento (conhecida também pela denominação em inglês, whitewashing), mas no decorrer do texto ficará claro o porquê dessa escolha inapropriada para a história e adequada ao fim maior dessa mega produção. Entretanto, vale destacar que além desse fato já incômodo por si, a atuação de Elordi é canhestra, como se o ator estivesse ainda imbuído do seu personagem de Frankenstein não há uma pitada sequer de sutileza na sua interpretação.
Nessa adaptação nota-se que o roteiro é um dos pontos fracos, já que Emerald Fennell centra a sua versão na parte visual, inclusive esbarrando em um barroquismo explícito, como se quisesse condensar a história pela concepção visual, com destaque para uma fotografia que valoriza as sombras, o que faz O Morro dos Ventos Uivantes ser facilmente digerível.
Ainda dentro do aspecto visual, há um cuidado e uma ênfase nos décors, na construção de um pano de fundo que expressa o próprio temperamento obscuro de todos os personagens. Emerald se dedica muito à caracterização dos personagens, conferindo um peso dramático a cada um deles. Essa junção tipológica dos personagens ao ambiente sinistro ditado pela fotografia e cenário são pedras fundamentais para a concepção geral da obra. Uma pena que a atmosfera mais social como a apontada no início, quando a jovem Catherine (Charlotte Mellington) é impossibilitada de assumir um relacionamento com Heatcliff (Owen Cooper) pelo distanciamento social entre ela, vinda de uma nobreza decadente, e ele, um despossuído de tudo, de lar e de família. A ênfase recairá sobre os relacionamentos doentios, não mais na questão social que estará ali como moldura para o desenvolvimento do enredo, é a visão sensacionalista assumindo o comando narrativo.
Embora a diretora Emerald Fennell confira às interpretações do elenco um destaque dramático, esse peso não garante um aprofundamento da trama, apenas um excesso de artificialismo que soa vazio e que escamoteia as fragilidades de um roteiro que sublinha ações obsessivas psicológicas, que não permitem às contradições sociais prevalecerem sobre as idiossincrasias dos personagens. Há um apelo desmedido à violência, aos relacionamentos tóxicos, inclusive o que é a relação entre Heathcliff e Isabella (Alison Oliver) com a exacerbação do sadismo e da perversidade como práticas habituais. O romantismo da obra de Brontë é abandonado em nome do grotesco e do artificialismo barroco, que é a marca estilística de Emerald Fennell.
Como consequência disso tudo, Emerald Fennell prioriza em O Morro dos Ventos Uivantes um erotismo exibicionista que beira o mau gosto, com cenas montadas como videoclipes cafonérrimos, inclusive ornados com músicas pops românticas atuais e breguíssimas, especialmente inseridas para encantar uma plateia mais jovem. Essas características narrativas são estratégicas, pois esse é um filme visivelmente voltado para um investimento em um público específico no mercado audiovisual. Não casualmente temos aqui Margot Robbie (a nossa Barbie), como a maior protagonista, como Catherine adulta.
Se Emerald Fennell em Saltburn (2023) já mostrava as longas garras do excesso visual e narrativo, em O Morro dos Ventos Uivantes esse barroquismo, embora bem mais domesticado, continua a vigorar, e evidente que se considerarmos que a obra atual parte de um clássico literário, a ousadia dela ainda é bastante acentuado. Mas sinceramente, O Morro dos Ventos Uivantes não passa de um produto bem acabado e direcionado para uma finalidade bem grotesca: faturar uns dólares a mais com um elenco de famosos e produção brega bem esmerada. O resultado final, é muito apuro visual para um conteúdo pobre, a poesia romântica de Emilie Brontë é suprimida em nome de uma violência explícita e sensacionalista.

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