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MOTHER'S BABY (2025) Dir. Johanna Moder


Texto por Marco Fialho

Mother's Baby é um filme estranho, por isso, o melhor que o crítico pode fazer é tentar elucidar ao máximo como essa estranheza se edificou pelas mãos da diretora Johanna Moder, quais os elementos que ela utiliza para reafirmar um incômodo que é cena a cena cada vez mais latente. Mas devemos também averiguar o quanto é eficaz a execução de suas pretensões narrativas, isto é, o resultado final que é alcançado.

A primeira constatação que quero fazer é sobre o realismo que envolve a proposta narrativa de Johanna Moder. As interpretações, as locações, a fotografia e a montagem, todos esses elementos são extremamente realistas, ou visam reafirmar essa ideia. Assim, a narrativa evolui em torno de Julia (Marie Leuenberger) e do marido Georg (Hans Löw) na tentativa de fazer uma inseminação artificial para ter um filho por meio da clínica do Dr. Vilfort (Claes Bang). No parto, algo acontece e o bebê é retirado às pressas da sala do parto, sem que os pais consigam olhar para o recém-nascido. Quando o bebê chega aos braços de Julia, ela começa a desenvolver sinais de estranheza nessa relação.

Até então, tudo indica que Mother's Baby discutirá então o puerpério, esse difícil momento para muitas mães, que precisam lidar com as tarefas duras dessa nova experiência, muitas vezes aliando ainda uma depressão pós-parto. O realismo do filme aponta para isso e usa esse momento para nos deixar uma dúvida sincera, se o estado emocional de Julia está frágil ou se existe algo concreto para que ela não se sinta à vontade com aquela criança. A demora por escolher um nome traduz esse desconforto maternal e que faz com que o conselho tutelar cobre o registro cartorial que é a praxe de qualquer nascimento.  

Se observarmos que no cinema já tivemos histórias escabrosas de recém-nascidos como A Profecia (1976) e mais ainda O Bebê de Rosemary (1968), cuja criança se chama igualmente Adrian e que representa a semente do diabo, já ficamos mais alertas ainda sobre o bebê de Julia, que não esboça reações a barulhos e parece possuir uma calma nada comum aos bebês. Mas o que leva o realismo de Mother's Baby para o terreno do suspense ou do terror? Creio que a opção de câmera em capturar as ações de Julia é fundamental ao alternar sua agitação com imagens serenas do bebê. 

Mas algo que começa bem em Mother's Baby vai se perdendo, em especial na sua parte final. Se Johanna Moder constrói com muito cuidado dois terços do filme, criando uma tensão no espectador diante da estranha situação dessa relação que normalmente é tomada por um carinho indescritível, tendo a desconfiança de Julia como um elemento de angustia e isso realmente é o melhor que a direção consegue fazer ao jogar com as emoções espectatoriais. Se somam a isso também a estranha relação que membros da clínica do Dr. Vilfort, sugestivamente chamada Lumen Vitae, ao fazer visitas periódicas a Julia e o bebê, levando presentes, inclusive um bizarro axolote que Julia admirava em suas visitas à clínica.  

Quando Julia, já na parte final, entra na clínica Lumen Vitae para descobrir verdades sobre o seu suposto filho, tudo desanda em Mother's Baby. Naquele momento, o público espera já ansioso que Johanna Moder arremesse a narrativa para algo relacionado ao cinema fantástico e o que não acontece. O filme então fica repleto de dúvidas e lacunas. Quem era Adrian, afinal? Fruto de uma experiência genética da clínica? Se era, porque ao adentrar o espaço secreto, reservado apenas aos funcionários da clínica, só vemos uma série de axolotes em aquários, mas nenhuma experiência com bebês? Sabemos que esses bichanos mexicanos possuem uma capacidade regenerativa importante para que cientistas possam se aprofundar nos meandros do tema, mas isso não fica claro, apenas levemente sugerido.

A narrativa de Mother's Baby fica entre o realismo e o fantástico, o que empurra o filme para um limbo narrativo sem saída. Poderia ser um filme sobre o puerpério, um libelo feminista, mas não é. Poderia ser um filme sobre experiências genéticas, mas também não deixa isso muito claro. Se a construção inicial é interessante ao optar pela dúvida, a parte final é muito rápida e não permite que adentremos nos mistérios da clínica e tão pouco nos revela que criança é Adrian. Adrian não chega a ser o bebê monstrengo e nojento de Eraserhead (1977), que David Lynch nos brindou em sua estreia cinematográfica, mas tampouco dá sinais de trazer traços malignos como o bebê do filme de Roman Polanski. 

Se, por um lado o melhor cinema precisa trazer traços de indefinições para que haja a intervenção do espectador, por outro, Mother's Baby extrapola essa noção ao preferir o indeterminado ao invés da dúvida ou do complemento para quem assiste à obra. Infelizmente, mesmo tendo realizado uma obra cinematograficamente de interesse, Johanna Moder não consegue concatenar os elementos que traz em sua narrativa, transformando o filme em algo mal amarrado e com uma aparência mutilada.          

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