Pular para o conteúdo principal

MORTE E VIDA MADALENA (2025) Dir. Guto Parente


Texto por Marco Fialho

Depois de alguns prêmios acumulados no currículo (em especial, no 58 º Festival de Brasília), Morte e Vida Madalena, dirigido por Guto Parente, estreia no circuito brasileiro. O filme inicia com Madalena (Noá Bonoba), vivendo o luto do pai (Carlos Francisco), um cineasta que está com um projeto pronto para filmar quando a morte o abraça inesperadamente. 

Morte e Vida Madalena começa então com uma crise instalada. Como concluir o filme sem a presença do diretor? Para complicar tudo, Madalena está grávida de 8 meses e como produtora do projeto cinematográfico do pai precisa arrumar alguém que aceite a tarefa de dirigir o roteiro escrito por ele, uma ficção científica meio antiquada e que beira o trash

Para início de conversa, não considero Morte e Vida Madalena das obras mais inspiradas de Guto Parente. Outros trabalhos dele me seduzem mais, em especial o extraordinário Inferninho (2018) em codireção com Pedro Diógenes; o surpreendente e misterioso Estranho Caminho (2023); a crítica social às elites brasileiras de O Clube dos Canibais (2018); e o arriscado Estrada Para Ythaca (2010), em codireção com Pedro Diógenes e Ricardo Pretti, filme importante para o chamado novíssimo cinema brasileiro. 

Morte e Vida Madalena tem sim algumas boas interpretações, sobretudo a de Noá Bonoba como Madalena, e Nataly Rocha, que vive Natasha, a assistente de direção de Madalena. O que mais trava a desenvoltura do filme é o seu roteiro que apela demais para diálogos expositivos ao invés de buscar soluções mais imagéticas. Assim, a fotografia e os enquadramento conformam uma mise-en-scène sem muitos atrativos visuais, deixando a obra por demais superficial em seu conjunto, cujo peso recai mais na narração da história em si.

Não que Morte e Vida Madalena seja um filme para ser descartado, ele tem sim bons momentos, inclusive cômicos, embora não seja efetivamente uma comédia rasgada. É sempre interessante quando um filme usa da metalinguagem em seu enredo, mesmo que as ideias dessa brincadeira com a linguagem não seja tão eficiente e criativa. Há uma intenção muito interessante no arcabouço da proposta fílmica, de entrecruzar algo que ocorre na trama com a dificuldade de se fazer filme independente no Brasil, mas ela verdadeiramente não emplaca, não sai do papel e ganha vida na obra em si. Há um evidente paralelo entre vida e morte (como o próprio título entrega) que impregna o filme, que não chega a entusiasmar. A direção pretende apostar no absurdo das situações, porém não se afunda nele como se poderia, fica a impressão que tudo está por demais domado, até a loucura e o inusitado da situação apresentada, de que o filme está a ser realizado por Madalena está à deriva.

Como já expomos, Morte e Vida Madalena propõe uma história de um filme dentro do filme, o que seria o maior mote, o de mostrar as dificuldades de realizar uma obra cinematográfica quando algo acontece no meio do processo de filmagem, em um país onde fazer um filme é uma guerra implacável. Entretanto, não se concebe bem que filme é esse a ser realizado, nem mesmo se discute o estilo do diretor que morre, porém Madalena se estabelece como a solução mais viável para assumir, depois que outras tentativas na prática se frustram. Tramas paralelas aparecem, mas elas não conseguem imprimir muita força dramática ao todo, ficam flutuando tanto como a personagem de Madalena. 

Morte e Vida Madalena flerta algumas poucas vezes com o passado, especialmente com o tempo da infância com o pai. Esse elo poderia ser mais constante e aprofundada, fora que enriqueceria a essência da personagem de Madalena. A paternidade da criança também é algo flutuante, perambula sem expressar e acrescentar muita coisa ao cerne do filme. Talvez falte isso a Morte e Vida Madalena, um cerne. 

Tudo em Morte e Vida Madalena soa periférico o tempo todo: o filme incompleto, a paternidade, os relacionamentos, a direção do filme e as relações profissionais. Não há vida fora do filme que está sendo filmado, a única interação dos personagens é com dois frágeis policiais. Há uma trilha musical que  lembra as do faroeste spaguetti, todavia esse elo pretendido não soma muito ao que é narrado. A famosa música cantada por Jessé, Porto Solidão, talvez seja o elemento que melhor expresse a alma do filme, a ideia de que a vida e a morte, a felicidade e a dor, caminham sempre juntas. Mas usando de sinceridade, isso é bem pouco.           

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...