Texto por Marco Fialho
Depois de alguns prêmios acumulados no currículo (em especial, no 58 º Festival de Brasília), Morte e Vida Madalena, dirigido por Guto Parente, estreia no circuito brasileiro. O filme inicia com Madalena (Noá Bonoba), vivendo o luto do pai (Carlos Francisco), um cineasta que está com um projeto pronto para filmar quando a morte o abraça inesperadamente.
Morte e Vida Madalena começa então com uma crise instalada. Como concluir o filme sem a presença do diretor? Para complicar tudo, Madalena está grávida de 8 meses e como produtora do projeto cinematográfico do pai precisa arrumar alguém que aceite a tarefa de dirigir o roteiro escrito por ele, uma ficção científica meio antiquada e que beira o trash.
Para início de conversa, não considero Morte e Vida Madalena das obras mais inspiradas de Guto Parente. Outros trabalhos dele me seduzem mais, em especial o extraordinário Inferninho (2018) em codireção com Pedro Diógenes; o surpreendente e misterioso Estranho Caminho (2023); a crítica social às elites brasileiras de O Clube dos Canibais (2018); e o arriscado Estrada Para Ythaca (2010), em codireção com Pedro Diógenes e Ricardo Pretti, filme importante para o chamado novíssimo cinema brasileiro.
Morte e Vida Madalena tem sim algumas boas interpretações, sobretudo a de Noá Bonoba como Madalena, e Nataly Rocha, que vive Natasha, a assistente de direção de Madalena. O que mais trava a desenvoltura do filme é o seu roteiro que apela demais para diálogos expositivos ao invés de buscar soluções mais imagéticas. Assim, a fotografia e os enquadramento conformam uma mise-en-scène sem muitos atrativos visuais, deixando a obra por demais superficial em seu conjunto, cujo peso recai mais na narração da história em si.
Não que Morte e Vida Madalena seja um filme para ser descartado, ele tem sim bons momentos, inclusive cômicos, embora não seja efetivamente uma comédia rasgada. É sempre interessante quando um filme usa da metalinguagem em seu enredo, mesmo que as ideias dessa brincadeira com a linguagem não seja tão eficiente e criativa. Há uma intenção muito interessante no arcabouço da proposta fílmica, de entrecruzar algo que ocorre na trama com a dificuldade de se fazer filme independente no Brasil, mas ela verdadeiramente não emplaca, não sai do papel e ganha vida na obra em si. Há um evidente paralelo entre vida e morte (como o próprio título entrega) que impregna o filme, que não chega a entusiasmar. A direção pretende apostar no absurdo das situações, porém não se afunda nele como se poderia, fica a impressão que tudo está por demais domado, até a loucura e o inusitado da situação apresentada, de que o filme está a ser realizado por Madalena está à deriva.
Como já expomos, Morte e Vida Madalena propõe uma história de um filme dentro do filme, o que seria o maior mote, o de mostrar as dificuldades de realizar uma obra cinematográfica quando algo acontece no meio do processo de filmagem, em um país onde fazer um filme é uma guerra implacável. Entretanto, não se concebe bem que filme é esse a ser realizado, nem mesmo se discute o estilo do diretor que morre, porém Madalena se estabelece como a solução mais viável para assumir, depois que outras tentativas na prática se frustram. Tramas paralelas aparecem, mas elas não conseguem imprimir muita força dramática ao todo, ficam flutuando tanto como a personagem de Madalena.
Morte e Vida Madalena flerta algumas poucas vezes com o passado, especialmente com o tempo da infância com o pai. Esse elo poderia ser mais constante e aprofundada, fora que enriqueceria a essência da personagem de Madalena. A paternidade da criança também é algo flutuante, perambula sem expressar e acrescentar muita coisa ao cerne do filme. Talvez falte isso a Morte e Vida Madalena, um cerne.
Tudo em Morte e Vida Madalena soa periférico o tempo todo: o filme incompleto, a paternidade, os relacionamentos, a direção do filme e as relações profissionais. Não há vida fora do filme que está sendo filmado, a única interação dos personagens é com dois frágeis policiais. Há uma trilha musical que lembra as do faroeste spaguetti, todavia esse elo pretendido não soma muito ao que é narrado. A famosa música cantada por Jessé, Porto Solidão, talvez seja o elemento que melhor expresse a alma do filme, a ideia de que a vida e a morte, a felicidade e a dor, caminham sempre juntas. Mas usando de sinceridade, isso é bem pouco.

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