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RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY


Texto por Carmela Fialho

Retrospectiva Vivian Ostrovsky

"Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas". 

Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026.


Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.) (1982); Idas e Vindas (1984); Copacabana Beach (1983); Domínio Público (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União Soviética.

Os corpos em trânsito, apresentados pelo recorte curatorial de Fernanda Pessoa, prioriza os primeiros filmes de Vivian e perpassam o seu trabalho experimental não somente pelas imagens em movimento, mas pelas acelerações e recortes, assim como pela livre mistura de espaços e tempos dentro de um mesmo curta. As trilhas sonoras, uso de narrações de rádio e músicas fora do contexto das imagens também servem a uma experiência integrada. A livre associação de imagens e sons causa estranhamento, e por vezes, uma comunicação direta com o espectador. 

Vivan Ostrovsky registra várias imagens em arquivo de super8 kodachrome 40, de 3 minutos, e realiza seus curtas a partir de recortes segundo temas selecionados por ela, como se fossem colagens. Um exemplo é Movie(V.O.) em que ela mistura cenas urbanas de Paris, Berlim, Amsterdã e Rio de Janeiro que deixam o espectador confuso, mas desafiado para entrar na lógica desses recortes, que são todos filmados à noite e os gestos fazem a passagem entre as cenas. A trilha sonora mistura música europeia, indiana e samba. O mais importante da proposta da cineasta é experimentar e entrar na brincadeira.

O mais famoso curta de Vivian Ostrovsky, Copacabana Beach, teve a imagem da mulher andando de bicicleta no calçadão inserida no cartaz de identificação do festival. O curta é quase um diário das atividades físicas no calçadão da praia de Copacabana, com a colagem de cenas do cotidiano aleatórias que a cineasta capturou em várias situações diurnas, principalmente em dias ensolarados. Inclusive o uso de uma trilha sonora a partir de uma narração de rádio de um jogo de futebol do Flamengo, enquanto nas imagens vemos uma cena acelerada dos banhistas andando e se exercitando no calçadão de Copacabana. Nesse mesmo curta, tem uma cena hilária de um grupo de mulheres fazendo ginástica de maiô nas areias e Vivian acelera as imagens dando a impressão de que as mulheres estão batendo as asas como as galinhas e coloca como trilha a canção Co, Co, Co, Co, Co, Co, Ró, o galo tem saudades da galinha carijó, de Carmem Miranda, é difícil não cair na gargalhada. 

Outra experiência filmada por Vivian Ostrovsky e que retrata o cotidiano é o curta Idas e Vindas, em que ela se utiliza da aceleração da câmera durante todo o filme de 12 minutos e que registra um grupo de pessoas passando um tempo em uma casa de campo na França durante o verão. As cenas são super divertidas, com os humanos circulando sem parar, andando entre os animais como galinhas, cachorros e gatos, inclusive alguns estão nus realizando atividades do dia a dia, como a arrumação da casa, limpeza e lazer. O humor domina as cenas, lembrando as imagens do cinema silencioso, com uma trilha sonora que mistura vários sons engraçados e partes de músicas aleatórias escolhidas por Vivian.

U.S.S.A. é um filme que mistura as abreviações tanto dos Estados Unidos quanto da União Soviética. A cineasta é descendente de russos e dos anos 1960 até os 1980 fez várias viagens a União Soviética, principalmente na Rússia para visitar parentes da família paterna e colecionou filmagens que fez no período e misturou com as imagens dos Estados Unidos, onde reside. O título também soa jocoso ao juntar países que à época ficaram conhecidos pelo antagonismo e o embate da Guerra Fria, onde ambos financiavam guerras em outros países, mas sem jamais se enfrentarem diretamente.

Em Domínio Público a artista experimental parte para uma ideia de colagem de várias atividades físicas como boxe, saltos ornamentais e grupos fazendo esporte, se utilizando do conceito de raccord (quando a direção aproveita o sentido do movimento para emendar imagens) para fazer as passagens de cena em livres associações de imagens. 

A curadora e estudiosa da obra de Vivian Ostrovsky, Fernanda Pessoa, realizou o curta V.O. por F.P. (2026) em que aborda a liberdade do seu processo criativo, e nesse filme, ambas filmam em Super 8 em Copacabana, de dentro do apartamento de Vivian, e também nas ruas do bairro, roubando imagens do cotidiano e improvisando, pois Vivian é conhecida por ser contra a elaboração de um roteiro prévio, lembrando que as livres associações de imagens e sons representam a tônica dos trabalhos de Vivian. Através de um bate-papo com Fernanda, ela vai revelando suas ideias sobre o cinema experimental e comenta algumas de suas obras.

O trabalho de Vivian me lembrou uma outra grande artista, a cantora e compositora Rita Lee, que fazia associações inusitadas e bem humoradas nas suas músicas. Em várias entrevistas Vivian relata que no tempo em que morou no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, em Copacabana, trouxe para a sua obra um pouco do bom humor típico da carioquice. O público agradece a inserção dessa leveza à sua obra. 


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