Texto por Marco Fialho
Tem filmes que tem tudo para dar certo, uma produção esmerada, ótimos atores, domínio técnico impecável, mas não funcionam quando o vemos na tela. Algo parece não acontecer, mesmo que os meios tenham sido aparentemente os ideais. É o que ocorre com Antártida, filme dirigido por Bruno Safadi e protagonizado por Andréa Beltrão, Marina Ruy Barbosa, Leandra Leal e Lázaro Ramos, e que conta com coadjuvantes de peso, como Gero Camilo, Mariana Sena, Antonio Calloni, João Vitor Silva e Henrique Barreira.
A obra foi filmada em um estúdio virtual, para que o pública tenha a sensação de que o elenco de Antártida estava no local mais frio do mundo, com temperaturas que podem chegar a 30º negativos. O problema de Antártida não está na veracidade das imagens, mas no roteiro que abusa de diálogos expositivos e se equivoca na maneira como expõe a discussão central, a do estupro e da violência de gênero contra a mulher, um dos mais habituais crimes da nossa sociedade.
Antártida narra um crime de estupro que ocorre dentro de uma estação de pesquisa na Antártida, composta por militares e cientistas brasileiros. Inês (Marina Ruy Barbosa) é uma cientista que está chegando à estação e encontra uma situação de crise energética. Uma festa é dada e a novata se embriaga e acaba por ser violentada sexualmente, mas como estava desfalecida não lembra quem é o agressor. O grande mote do filme é o mistério do tipo: quem estuprou Inês? O roteiro de Claudia Jouvin (que também é criadora da ideia do filme) e Dennilson Ramalho se esmera nessa descoberta, que muito faz lembrar os grandes sucessos novelescos do Brasil de ontem e hoje, como "quem matou Odete Roitman" ou "quem matou Arthur Brandão"?
Esse é um problema real de Antártida, se perder em um jogo de gato e rato onde a vítima Inês vai sendo escanteada no processo, deixando por demais o mistério em primeiro plano. Descobrir o criminoso se torna mais importante do que discutir o ato em si. A partir de então, todos são suspeitos e a nova Comandante Elisabeth (Andréa Beltrão), que ocupa o cargo no meio do percurso, depois que um acontecimento trágico marca o fim do comando anterior. O roteiro escorrega feio quando ao final tenta justificar a conduta firme de Elisabeth a atrelando a um acontecimento do seu passado, algo desnecessário, já que um estupro em ambiente profissional deveria ser por si mesmo motivação suficiente para que se investigue com o máximo de rigor o acontecimento.
O machismo presente, muito por conta da evidente militarização do ambiente, é amplificado em cada diálogo e ação, e às vezes colocado em cena como elemento a desviar o olhar do espectador para os verdadeiros suspeitos. A sequência da bebedeira de Inês e de vários funcionários da estação e a da briga do Capitão Vicente (Lázaro Ramos) com a ex-esposa Marina (Leandra Leal), a única médica do local, abusam do expositivo e exageram propositalmente o machismo, que poderia ser colocado com mais sutileza e respeito à inteligência do espectador.
Conforme já explicitamos, Antártida conta com um elenco muito vasto, e esse excesso de personagens atrapalha a fluência e o ritmo do filme. A sensação é que há uma visível aceleração da trama, a própria resolução acontece às pressas, o que impacta muito na proposta de buscar o responsável por um crime. Alguns flashbacks forçados são utilizados como parte de uma investigação que a comandante Elisabeth está levando a cabo, mas eles terminam por aumentar a sensação de celeridade, pois a partir de alguns deles rapidamente se chega à resolução do caso.
Mas como fica efetivamente a discussão sobre a violência contra a mulher no Brasil? Ao nosso ver fica perdida no meio da investigação policialesca que se estabelece na trama e em outros detalhes que vão se sobrepondo, como os segredos que levaram cada um a aceitar embarcar numa missão em um lugar tão inóspito, gélido e isolado do mundo. Tudo é muito estranho nessa produção, é muita produção para um thriller que poderia ser feito em qualquer outro lugar.
Ao final da sessão, a sensação que fica é que algo falta em Antártida, pois o filme não escapa de ser um entretenimento banal, algo para ser esquecido, não porque queremos isso, mas especialmente porque nada de interessante e relevante acontece para levarmos para casa como reflexão. Não há verdadeiramente algo a refletir e a informação vinda do letreiro final só aumentam as suspeitas. Nele é dito que a maioria da violência contra a mulher no Brasil é praticada dentro dos lares. Se é assim, mais um motivo para perguntarmos do porquê realizar um filme na Antártida, nos cafundós do mundo, se podia-se filmar a mesma violência em qualquer lar do Brasil? Seria apenas para experimentar alguns recursos técnicos novos dos Estúdios Globo?

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