Texto por Marco Fialho
O que tanto falta nos filmes atualmente, e que estamos a reivindicar com insistência, é um pouco de ousadia nas suas construções narrativas. O problema dos filme não é propriamente eles serem narrativos e sim a falta de coragem para experimentar algo diferente. A Bola Preta, dirigido por Javier Calvo e Javier Ambrossi, dá uma aula de como ser arrojado e criativo, e não casualmente, a obra foi agraciada com o prêmio de direção no Festival de Cannes 2026.
A Bola Preta trabalha com três períodos históricos (1932, 1937 e 2017), que juntos compõem um mosaico narrativo perfeitamente encaixado. A montagem é o elemento cinematográfico definidor dessa obra corajosa, que ao final sintetiza a história, a cultura, a sexualidade, a resistência (até as mais silenciosas) e a dor de um país, que enfrentou um regime cruel, conservador e sanguinário. A dupla Javier costura com grande sensibilidade uma história de corpos que foram silenciados e resistiram à violência do Estado franquista (que perdurou até a morte de Franco em 1975), um libelo LGBT+ de grande impacto sensorial.
Outro aspecto de A Bola Preta é como a sua construção descontínua permite um diálogo direto, sem filtros entre as três épocas distintas abordadas, mas que ao final formam uma unidade impactante, isto porque essa é uma obra que fundamentalmente homenageia Federico Garcia Lorca, um dos maiores ícones artísticos da Espanha, assassinado pela ditadura do General Franco e que deixou uma peça inconclusa chamada "A Bola Preta". A câmera se mostra impaciente e encantada pelo movimento, afinal, esse é um filme em que o próprio tempo está em permanente mudança e deslocamento. Assim, os diretores abusam dos travellings e do uso da steadicam para nos arremessar para dentro da tela. Não há aqui distanciamento, o que os diretores querem é aproximação e participação, por isso privilegiam uma narrativa magnética e hipnótica.
Mas é bom que se reafirme: Lorca ocupa o cerne dessa história, tudo gira em torno dele, embora demoramos para descobrir isso, o que é algo fantástico na narrativa proposta pela dupla Javier, porque Lorca é o encantamento crítico que sintetiza o tempo histórico. Quando percebemos, já estamos envoltos por ele, presos à sua luta por liberdade contra o fascismo franquista. Mas cada personagem possui um peso e uma importância, e cada fase abordada tem o seu protagonista. Em 1932, temos Carlos (Milo Quifes), um jovem que pretende ingressar em um famoso cassino. Em 1937, nos deparamos com Sebastián (Guitarricadelafuente), um soldado alienado, que antes era músico, que para sobreviver é literalmente sugado para o exército de Franco. E, em 2017, somos apresentados a Alberto (Carlos González), um jovem diretor de teatro gay que recebe a notícia de um inesperado testamento de seu avô, cuja mãe não quer nem ouvir falar. Depois, descobriremos que esse avô é Sebastián, cuja vida foi totalmente transformada após sua participação na Guerra Civil Espanhola (1936-39).
Mas como já afirmamos acima, Sebastián não sofreu somente como soldado. Antes ainda, ele foi assolado pelo massacre de seu povo, presenciando o assassinato de sua mãe pela Itália fascista que bombardeou cruelmente o povoado em festa na intenção de recebê-los, e ele trompetista dessa recepção tomado pelo instinto de sobrevivência se viu obrigado a ingressar nas fileiras do franquismo como soldado, até que se apaixonou por Rafael (Miguel Bernardeau), um rebelde opositor do regime entregue aos seus cuidados para vigiá-lo e tentar tirar dele segredos dos republicanos revoltosos.
Se há algo que une todas as três narrativas é a discussão sobre a sexualidade dos personagens. Conforme diz Lorca, "nossos solos escodem muitos amores. É preciso desenterrar as histórias de amor." Essa é uma fala crucial para se reconstruir A Bola Preta. Inclusive, essa é uma obra tal como uma peça teatral, precisa ser remontada pela consciência de quem assiste. Ela não está inteiramente dada, ela é um exercício de consciência, exige do espectador fundamentalmente um esforço e uma reflexão sobre as relações entre presente e passado. Os diretores relativizam o tempo de vida, pois a intensidade da vivência de Lorca equivale a uma longa vida, que se perpetuou no tempo.
A Bola Preta não deixa de propor uma síntese do próprio cinema espanhol quando unifica o cinema político de Carlos Saura com o cinema imaginativo de Buñuel e melodrama pop social de Pedro Almodóvar, três importantes vertentes que melhor traduziram o espírito espanhol e suas resistências à política autoritária do franquismo. A inserção da música contemporânea e a solidificação do drama LGBT+ ao drama histórico marcam bem esse novo paradigma que Javier Calvo e Javier Ambrossi aqui edificam. Por isso, essa é uma obra densa e conscientemente ousada em suas premissas narrativas, o salto é audacioso, mas o resultado também o é.
Vale ressaltar que o único alívio cômico de A Bola Preta ocorre com a presença leve e sedutora de Penélope Cruz, como uma dançarina e cantora à época da Guerra Civil Espanhola, ofertada como um alento para os soldados, embora seja a sua personagem a proferir os discursos mais contundentes sobre a diversidade sexual, ao definir o transformismo como "a fantasia da possibilidade". Javier Calvo e Javier Ambrossi são hábeis em introduzir esses pitacos sobre uma ideia fluida da sexualidade humana numa sociedade repressora e ignóbil. Definitivamente, não é possível ler essa obra sem o seu viés da sexualidade, fazer isso seria como analisar o nada. Dessa forma, os diretores propõe um filme histórico, mas não de maneira convencional, pois aqui não se pode mais pensar a história sem a discussão da sexualidade em sua diversidade e isso faz toda a diferença, por desencavar histórias que foram presas à terra pelos tiranos. É preciso resgatá-las com a virulência necessária. Os diretores não só fazem isso, como ainda adicionam a devida e merecida poesia, o que certamente Federico Garcia Lorca agradeceria muito.
Observa-se o quanto a dor, o prazer sexual e o amor estão o tempo todo emaranhados em A Bola Preta. Há nesse sentido um esforço definidor do que é ser espanhol. Esse é um viés, que também está presente em Almodóvar, por exemplo, a reafirmação de uma eloquência que permeia não só os corpos, mas também as almas. Quando o personagem Rafael Rapún, último namorado de Lorca, e responsável por guardar e zelar pela sua última peça, é morto, a construção dramatúrgica sugere que aquele tiro disparado por Sebastián tem a força de um ato sexual, que ele sela uma atração interrompida pela violência do sistema franquista. Ali, o corpo desejante atira no corpo desejado, a pedido desse último. Há ainda nesse erotismo enviesado um deslavado ato político. Isso define essencialmente um certo tipo de ser espanhol que estamos a falar, em que poesia e sofrimento andam juntos por mais que sejam por terrenos tortuosos ditados por uma injustiça advinda dos descaminhos da vida política espanhola.
O lastro temporal que A Bola Preta evoca está condensado dramaticamente na presença de Alberto, um homem do teatro, gay (tal como o avô), mas um ser tipicamente caracterizado como do nosso tempo, em meio as paqueras dos aplicativos de pegação e em briga constante com a mãe, com quem vive às turras. A mãe, por sua vez, não suporta nem ouvir sobre a existência do pai, que a abandonou na infância. Entretanto, Alberto será o elo com esse passado ao mesmo tempo fascinante e dolorido. Ele representa o presente que precisa descobrir criticamente o passado para se alimentar dele e poder repensar sobre o seu futuro. Só Alberto pode desenterrar os amores e os apagamentos impostos por quem venceu e ocultou seus próprios crimes. Mas Alberto representa algo maior, ele simboliza todos nós e o senso de justiça que necessitamos para continuar nossa luta de hoje contra os opressores, para que novos apagamentos não vigorem mais.
Mais do que uma história bem contada e com um roteiro primoroso, A Bola Preta é ainda um cinema que visualmente exalta a beleza (por mais triste que ela seja). E a grande sacada da dupla Javier é revelar a história de Carlos como uma encenação fictícia de A Bola Preta, isto é, uma obra dentro da obra, embora esse ardil só seja descoberto lá pelo final, pois ele está posto de maneira orgânica no próprio filme. Essa história de Carlos, por isso mesmo, é a mais simbólica, e curiosamente, a menos realista, algo que desperta um quê de mistério e contraditoriamente contrasta com a pretensão de Lorca, que diz que sua obra deveria soar como uma obra realista e com temperamento forte, sem poesia, no que Rafael Rapún rebate como algo impossível de acontecer numa narrativa de autoria de Lorca. Fora as três narrativas citadas e analisadas, existe ainda uma quarta, em preto e branco na qual se mostra os últimos momentos de Lorca com Rafael Rapún.
Javier Calvo e Javier Ambrossi exploram muito bem ainda a imagética simbólica e dicotômica do branco e do preto. A neve se transforma em um personagem e em um golpe narrativo imaginativo e delirante conversa com Carlos, o protagonista da peça "A Bola Preta". Os diretores transformam Carlos literalmente em uma bola preta inerte na neve. Na história, o branco significa a aceitação social enquanto o preto a falta dela e essa analogia serve para a história como um todo, do quanto a violência social franquista impossibilitou a vida de tantos e manchou a história da Espanha, a impregnando de dor e sangue. Isso está na alma não só dos que viveram, mas igualmente dos descendentes. Esse é um aspecto profundo e dolorido de A Bola Preta, embora represente sua poesia e a própria angústia de ser espanhol. Como então esquecer os corpos que se amaram e que os poderosos tentaram apagar nos subterrâneos da terra? Esse é um filme que impacta e fica na pele, que tem a capacidade de tocar em corpos na tela e fora dela.
A Bola Preta é um mergulho profundo na Espanha franquista e homofóbica, mas também cresce ao abordar seus desdobramentos na sociedade contemporânea. Como medir o quanto os silenciamentos ainda interferem no universo imagético das gerações que são filhos e netos dos franquistas que foram muitas vezes forçados a servirem ao sistema para sobreviver, como no caso de Sebastian, avô do teatrólogo, que era gay, músico frustrado, e na versão oficial, um soldado franquista? Daí ser crucial o resgate realizado pela dupla Javier, de desenterrar a vida desse homem que encarou a sua sexualidade de frente, e que mesmo numa situação adversa, conseguiu viver às escondidas com Ramón, como falsos parentes. Isso expressa as filigranas da sobrevivência, da luta silenciosa de corpos, de resistências possíveis construídas em um cotidiano opressor.
Não por acaso, a densidade histórica de A Bola Preta ecoa em nós com um misto de angústia, prazer e dor. A importância do histórico na obra da dupla Javier não está na cronologia nem na reconstituição de época impecável, mas sim na reconstrução de um quebra-cabeça que promove o espectador em jogador. Sem a participação de cada um de nós, as peças ficariam soltas pelo tabuleiro e sem sentido. Somos nós que precisamos agir para recompor a descontinuidade da proposta cinematográfica dos diretores, em um exercício que inicia no cinema, mas continua depois dele, em casa, em nosso mais recôndito imaginário, onde as interdições pouca valia tem.

Ui... A Bola Negra é tudo isto e muito mais o que a sensibilidade do espectador conseguir captar. Sem dúvida, é a obra do ano, quiçá figure dentre as melhores da década. Parabéns aos críticos pela fabulosa resenha.
ResponderExcluirCom esse ensaio crítico maravilhoso já vou comprar meu ingresso!
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