Texto por Marco Fialho
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte, dirigido por Jane Schoenbrun, não é só bom cinema de gênero, é bem mais do que isso, o filme esbanja criatividade e se mostra reverente ao slasher, sem esquecer de ser onírico, apaixonado e radical. A história que vemos é a de Kris (Hannah Einbinder), uma jovem diretora de cinema queer escolhida para realizar mais um filme de uma famosa franquia e se deixa envolver por Billy Presley (Gillian Anderson), atriz que interpretou a primeira e icônica protagonista.
Logo nos créditos iniciais, Acampamento Miasma faz uma homenagem ao cinema slasher dos anos 1980, que começa na textura das imagens granuladas e numa caprichada direção de arte, com objetos como bonecos, jogos de fliperama com os motivos do filme e fotos em porta-retratos com personagens marcantes. É incrível como Acampamento Miasma brinca com o mote do filme dentro do filme, de uma maneira para lá de criativa e instigante.
Um dos grandes momentos de Acampamento Miasma é quando Kris e Billy Presley assistem à primeira versão do filme juntas, o que provoca uma avalanche de emoções e uma estranha conexão se estabelece, numa mistura de amor, desejo e delírio. Talvez esse seja um dos filmes mais eróticos dos últimos anos, cuja essência está entrelaçada pelo viés comportamental das personagens. Há uma relação muito intensa entre o que ocorre na ficção do filme original detonada quando as duas personagens se flertam ao assistirem juntas o filme.
Jane Schoenbrun filma com absoluta paixão e disposta a construir uma história que dialoga com a trajetória do próprio slasher como subgênero. Tudo está ali, o acampamento juvenil, a exploração do sexo, a violência masculina, o assassino psicopata, sempre com máscara e usando armas brancas, em ritmo de vingança devido a um trauma do passado. Mas a diretora não se contenta em lançar mão apenas dos clichês do slasher, ela quer o risco e ruma à ressignificação desse já surrado subgênero.
A reinvenção proposta por Jane Schoenbrun é poderosa por acrescentar ao subgênero do slasher elementos que beiram o mágico, se utilizando da fascinação e o poder inebriante do cinema. A diretora joga o slasher numa outra dimensão. Acampamento Miasma mexe com os clichês estabelecidos pelo slasher, inclusive os sonoros que são bem típicos, embora seja surpreendente ouvir a canção No Ordinary Love, com Sade, uma cantora ícone dos anos 1980, numa encenação romântica artificial, porém de grande beleza visual, quebrando sonoramente as convenções do slasher.
A interpretação de Gilliam Anderson dá um toque over à trama. Típica de um bom slasher, Billy Presley conduz cada cena, dando o tom sinistro que mantém o espectador grudado na tela, embora seja Hannah Einbinder a oferecer uma interpretação mais instigante e fora da curva para o subgênero. Há inteligência, mistério e sutileza na sua composição, o que traz um algo a mais para a narrativa, a faz bem mais penetrante.
Acampamento Miasma impressiona para além dos seus atributos como um slasher. Ele chama atenção ainda como crítica ao mundo digital, que não permite um maior comprometimento das pessoas perante os projetos. Enquanto Kris está vivendo o filme junto a Billy Presley, a equipe está em outro ritmo, o que fica evidente nas reuniões realizadas por vídeo. Outra sacada bem original é colocar uma câmera como máscara do psicopata, afinal, em um bom slasher a reflexão do real passa ao largo e a criação cinematográfica está mesmo ali a matar pessoas.
A fantasia do cinema é realmente a grande força de Acampamento Miasma. E como é interessante ver como o delírio pousa na trama por um caminho que lembra muito a psicodelia cultural (elemento mais recorrente no final dos anos1960 e início dos 1970), com sua liberdade visual que arremessa as personagens à deriva da imaginação, o que faz dessa obra algo especial e original dentro do slasher..
A concepção imagética tem um acabamento impecável, desde quando vemos o filme dos anos 1980 até quando estamos na inebriante atualidade. Acampamento Miasma é uma obra de fino trato, que mescla imagens bem acabadas com a dureza cômica intrínseca que fundamenta o gore. Uma metalinguagem impecável, que contempla imaginação, inteligência e um toque queer que lança o slasher para outro patamar, o do século XXI.

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