Texto por Marco Fialho
ATENÇÃO: Texto com spoilers.
Grace Passô há muito já vem agitando a cena mineira, seja com a turma da produtora Filmes de Plástico, atuando como atriz em diversas obras como Temporada e No Coração do Mundo, ou seja com Ricardo Alves Jr. com quem realizou o interessantíssimo média metragem Vaga Carne. Mas dessa vez, Grace Passô mostra o quanto impactante é a sua estreia em longas com o surpreendente Nosso Segredo. E não seria de espantar, caso causasse inveja até ao grande cineasta Luis Buñuel- se este ainda tivesse vivo - o mais cultuado artista surrealista da história do cinema, dada a ousadia de como a mise-en-scène se configura e desenvolve nesta obra. Passô divide a obra em duas partes: uma mais intimista e sutil, e outra mais contundente e fantástica. Essa mistura é administrada com o devido esmero e imensa maturidade artística.
E voltando mais especificamente para Buñuel, Nosso Segredo remete ao artista espanhol por retratar uma situação inusitada que é encenada como realista, tal como em Anjo Exterminador (1962), quando convidados de um jantar não conseguem sair dele, sem que haja nenhum impedimento concreto que os impeça de ir embora, ou mesmo outras obras do diretor espanhol como O Discreto Charme da Burguesia (1972), quando um grupo de amigos ricos se reúnem para conversar e defecar em vasos sanitários numa mesa de jantar, enquanto comem escondidos em uma bacia, trancados em um banheiro. O desconcerto de uma determinada situação em Buñuel se espreita igualmente em Passô, que sem efeitos especiais ou monstros consegue provocar o espectador com algo inesperado e fantástico.
É bom lembrar que em o Nosso Segredo, o elemento surreal é nada sutil, pois trata-se de um hipopótamo em meio a uma obra interrompida no andar de cima da casa depois da morte do pai da família (Nanego Lira). O filme nos faz lembrar ainda aquele famoso ditado popular: "tem um elefante na sala". Nitidamente, Passô trata o tema do luto como algo perturbador e embaraçoso dentro de uma família de classe média baixa, formada por pessoas pretas. Aqui, o surreal é trabalhado como um elemento de caráter diacrônico, uma espécie de traço encruado e profundo na sociedade brasileira. Durante a narrativa, pormenores vão sendo expostos, como o bullying sofrido na escola por Sidney (Juan Queiroz), namorado da jovem Grazi (Jéssica Gaspar), uma das filhas do dono da casa que morreu inesperadamente.
Com exceção da primeira sequência, toda encenada em um carro de aplicativo, onde vemos o motorista Gilson (Robert Frank), um homem negro (que não sabemos ainda quem precisamente ele é), numa conversa misteriosa com Marcelo (Mateus Aleluia), um passageiro igualmente negro. Depois descobriremos algo curioso, de que essa sequência é uma das poucas que não se passa no terreno da casa da família de Gilson, que vive um penoso luto com a morte de seu pai. A sequência expressa uma força mística impressionante, onde o passageiro diz coisas misteriosas para o motorista e que ecoam até o final da obra. Essa é uma sequência que fica forte em nós, ainda mais que ela termina com uma linda cena de Gilson andando de carro por Belo Horizonte sob a música Caravana, cantada por Geraldo Azevedo. É interessante o quanto essa música nos incita a olhar com atenção detalhes da vida que na correria perdemos de observar e como isso vai se relacionar decisivamente com o restante de Nosso Segredo. E ainda mais, a música fala do quanto a vida muda tão rapidamente, que sequer temos tempo de nos adaptar a ela: "Corra não pare, não pense demais. Repare essas velas no cais, que a vida é cigana."
Ainda na primeira sequência, a do carro, ouvimos duas vezes: "A saudade é uma herança nossa". Essa é a frase que escutamos vinda de um CD - que registra uma coletânea de músicas especialmente preparadas por Marcelo para livre doação em suas andanças pelo mundo - ofertado como presente para Gilson. Evidente que esse "nossa", genericamente, abarca a saudade vivida por um indivíduo. Mas nesse contexto específico do filme, seria mais oportuno entender a frase como uma fala com conotação mais ancestral, que remete aos povos negros que foram escravizados e conduzidos à força para o Brasil. E vale dizer que essa diáspora traz para o filme um forte sentimento de melancolia .
Entretanto, na família de Gilson, cada um vive o luto de uma maneira. Ele próprio, trabalha o dia inteiro como motorista de aplicativo para fugir da rotina da casa, embora as memórias nunca o abandonem. Grazi, sua irmã mais nova, mergulha no mundo da música com seus fones, que a alienam do mundo a sua volta. Guto (Flip), o outro irmão, também ainda jovem, prefere cair nas noitadas para afogar suas melancolias e perdas. O personagem do menino Tutu (Efraim Santos) é decisivo para o desenrolar da história ao ser o primeiro a perceber o quanto algo de muito estranho está a rondar aquela família, A viúva Suely (Ju Colombo) se esforça para que cada um cumpra seu papel e sanidade na casa, embora escute saudosamente a voz do marido em um áudio de WhatApps, com a relação de material de construção a ser comprado para a finalização da obra. Contudo, Passô sabe revestir a melancolia de alguns momentos em afeto, como Anamélia (Marisa Revert) que se afunda na bebida e na maconha para driblar a ausência do irmão falecido, mas está presente na atenção aos sobrinhos, especialmente Tutu.
De maneira fragmentada, Grace Passô constrói pari passu uma narrativa enigmática e fractal, isto é, o todo se mostra a partir da combinação entre as partes, que se interligam erraticamente, forjando para o espectador uma visão bem imprecisa do todo. A câmera se esforça para tornar a casa uma personagem antagônica que beira o sinistro, por isso a câmera baila solta a perseguir os personagens, tal como um fantasma à espreita o faria, como se a presença de todos fosse vigiada por uma entidade superior, seria a do pai?
O trabalho fotográfico de Wilssa Esser salienta a melancolia da trama, preferindo as sombras à luz. A trilha musical de Amaro Freitas por sua vez reforça o sentimento pesado com delicadeza e sofisticação, explorando a dramaticidade sem se deixar cair no piegas. Em paralelo, uma lama alaranjada vai descendo do andar de cima pelas paredes do andar de baixo, como se a casa chorasse pelo abandono da obra inconclusa. Essa ideia da casa chorando é um achado e tanto de Passô, que ao fazer isso faz dela um personagem grave dentro do enredo.
Apesar de usar referenciais do cinema de horror, tanto no conceito fotográfico quanto na narrativa que não expõe de cara todas as situações e motivações de cada personagem, criando um mistério permanente, Grace Passô o faz sem esquecer de valorizar a dramaticidade das cenas e a fragmentação, que permite ao espectador estabelecer suas próprias correlações entre as sequências. Nosso Segredo não se coloca, portanto, como uma obra que comporte uma única interpretação possível e inequívoca, permite leituras múltiplas e isso que enriquece uma análise sobre ela, já que a própria direção não elege um, ou uma, protagonista. A família ocupa na narrativa um papel bastante horizontalizado, sem hierarquia de um membro familiar sobre outro. Por isso, entender como a ideia de família é construída se torna algo decisivo para se pensar esse filme.
Inclusive é bom lembrar, que a fragmentação da narrativa se constituiu em um dos pilares iniciais da ideia surrealista no cinema e nas artes como um todo. A sensação do onírico é que permite que se tenha peças que precisam ser juntadas pelo espectador, que é provocado a sair da passividade para participar da construção final da própria obra. Elementos fantásticos nesse contexto são extraordinários não só para somar ideias, mas também imprecisões e interrogações.
Nosso Segredo não se contenta com reflexões meramente individuais de cada personagem, abre francos enigmáticos e sugestivos da invasão do social e de acontecimentos históricos que inesperadamente atravessam à trama, como o do avanço da lama a tomar abruptamente a casa. É surpreendente o quanto Passô enlaça o íntimo ao coletivo sem didatismo e com uma força impressionante, seja para sinalizar a presença do racismo, da agressão sistemática da polícia às pessoas pretas ou na lama das mineradoras que evocam famosos crimes ambientais. O cinema aqui pode soar tanto onírico quanto realista, sem delimitar fronteiras ou limites, e assim ficamos refletindo o quanto algo tão pessoal e íntimo quanto a perda de uma figura central como a do pai pode ser mais uma peça de um quebra-cabeças interminável que chamamos de viver. Tem a peça saudade? Tem, mas também todas outras que compõe uma vida que ainda precisa ser vivida.

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