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THE ECHO CHAMBER (2026) Dir. Andrea Pallaoro


Texto por Marco Fialho

Tem filmes que só precisam de um único e pequeno espaço físico para ir fundo em angústias humanas, em crises de identidade. É o caso de "The Echo Chamber", produção ítalo-belga dirigida por Andrea Pallaoro (diretor do maravilhoso, Hannah), baseado em um roteiro deixado por Bernardo Bertolucci. 

"The Echo Chamber" marca o encontro entre o talentoso, excêntrico e amargurado produtor musical Leo (Luca Marinelli), a melancólica cantora Ava May (interpretada pela incrível Susan Sarandon), afastada da carreira desde a morte do marido Beinot e a fisioterapeuta Anne (Alicia Vikander impecável e contida na medida), uma mulher dedicada, carinhosa e possessiva. O filme se constrói por meio de diversos encontros entre os personagens, com saltos temporais quase que indecifráveis. Pallaoro atinge um equilíbrio interpretativo fantástico e raro, uma dramaticidade genuína e respeitosa perante o espectador. 

Ava May estabelece uma relação dúbia com Leo, os momentos oscilam entre sintonias inesperadas e conflitos previsíveis, quando dois profissionais em crise, mas talentosos, precisam realizar um trabalho que mais lembra uma superação egóica do que algo fruto de uma dedicação desmedida. Um precisa largar o vício nas drogas, até para poder se concentrar no trabalho, e a outra, tem que vencer a melancolia atrofiadora, que impõe o medo e a insegurança.

Entretanto, a relação mais forte e penetrante de "The Echo Chamber" é entre Leo e Anne. Ela o espera sair para cuidar da casa dele às escondidas, mas aqui, um ato de carinho pode se transformar em outros vínculos mais perigosos e viciantes. Pallaoro explora os laços de intimidade e como pode se estabelecer uma relação de dependência recíproca. Nem tudo é tão visível e às claras, já que a direção apenas sugere algumas intenções. Pallaoro coloca o espectador como voyeur dessa intimidade ditada por amorosidade e outros sentimentos mais duvidosos, embora terrivelmente humanos, como o controle e a possessão.

Mais do que dirigir cenas e falas, Pallaoro atua diretamente nos gestos, olhares e corpos dos seus atores. A atenção aos pequenos detalhes toma volume, como o dia que Anne assiste a um ensaio musical de Leo e Ava May, em um ato de franco voyeurismo da fisioterapeuta. Pallaoro filma essa sequência com muita sensualidade, como se Anne estivesse vendo um ato sexual e não um ensaio.      

O apartamento de Leo funciona como uma caixa de ressonância, de eco. Mas que eco seria esse, já que o passado deles é um mistério, um tipo de fragmento que impacta imaterialmente em tudo que vemos. É como se o passado fosse um ente que está presente sem que pudéssemos ver, podemos senti-lo, mas a sua chegada ocorre de maneira muito fragmentada e incompleta. Entre vinhos, drogas e sons de piano vamos sendo tocados e tragados sensorialmente com e para as cenas. 

Aos poucos, vamos entendendo que o apartamento é um influente personagem, um depositório de memórias, e como Pallaoro o constrói é fundamental para a nossa experiência sensorial. Então, como o apartamento se apresenta para nós? Fundamentalmente em suas sombras e penumbras, a fotografia de Diego García é envolvente, mesmo que a princípio não pareça tanto, ela acolhe e afasta ao mesmo tempo. 

The Echo Chamber é uma obra sobre sentimentos, mas também sobre o tempo. Pallaoro amarra tempos diversos em sua narrativa descontínua, o filmando em uma sequência misteriosa, sabemos que há lapsos e sentimos que eles não estão dispostos numa cronologia, como se o apartamento estivesse narrando aquelas histórias sem se dar conta da ordem cronológica dos personagens humanos. Mas como dispor da memória desse apartamento, ainda mais que a direção não explicita isso? Lógico, que aqui fazemos algo deliberado, ditado por uma leitura arbitrária e calcada no livre arbítrio.     

Como o apartamento é o único elemento perene, ficamos com a sensação de que tudo que acontece fora dele, só tem importância se for depois para alimentar uma história que se desenrolará para a memória desse espaço. Caso exemplar disso é o acidente de carro de Leo, onde o apartamento parece observar a movimentação e sons que estão fora dele, o que nos remeteu ao filme "Um Quarto em Roma" (2010), de Julio Medem, em que a câmera também está circunscrita em um quarto, como se as imagens fossem regidas por um fantasma que ali residisse.

E será nessa fronteira cinematográfica, com o apartamento demarcando o universo condensador das emoções, que adentramos na complexidade dos sentimentos humanos, das fronteiras que os corpos traçam entre si, sendo que na parte final do filme esse fato se agravará e teremos outros aprofundamentos nas relações interpessoais. O que seria os limites entre amor e controle, entre o cuidado e a dependência? Como separar tantas minúcias quando elas se emaranham de vez? São perguntas postas e cujas respostas não possuem muita importância ou apenas terá para quem assim o quiser.

Andrea Pallaoro não tem como intuito esmiuçar essas fronteiras que o filme coloca. Prefere lidar com o sensorial que isso tudo provoca. Há mais sensualidade nas primeiras transas entre Anne ou Leo, ou nas últimas que vemos com Anne vindo para cima do corpo aparentemente inerte de Leo, ainda severamente limitado pelo acidente de carro?  

O melhor de "The Echo Chamber" são as perguntas sem respostas e as imagens sensoriais que valem mais do que é dito. O filme mostra como o corpo é mediado pelas nossas fraquezas e dores nos aproximam e aprisionam ao mesmo tempo, tendo muitas vezes o silêncio como sustentáculo narrativo e sensorial. Aqui os sentimentos não são expressões únicas, eles se expandem em um misto de felicidade e dilaceramento. Pallaoro tem atores em mãos que sabem explorar a complexidade e amplificá-la ao máximo, sem reduzir o filme em uma só camada, o que limitaria o seu resultado. Cada um sairá do cinema sentindo emoções diferentes e essa é a alma e o encanto desse filme.    

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