Texto por Marco Fialho
Dolores, dirigido por Marcelo Gomes (Paloma, Retrato de um Certo Oriente, Cinema, Aspirinas e Urubus e Criaturas da Mente) e Maria Clara Escobar (Desterro e Os Dias Com Ele) nasce de um argumento feito pelo cineasta Chico Teixeira para encerrar a trilogia dos afetos, que foi impossibilitada de ser concluída devida a sua morte prematura aos 61 anos de idade, em 2019. Portanto, esse não deixa de ser um filme homenagem ao amigo que não está fisicamente entre nós.
Um dos presentes mais encantadores de Dolores é ver a volta da talentosa e subdimensionada Carla Ribas (A Casa de Alice) a um filme pensado originalmente para ser dirigido por Chico Teixeira. Indo mais fundo ainda, podemos dizer que o elenco é o maior atributo de Dolores. Três ótimas atrizes desenham mulheres de três gerações diferentes de nosso universo popular. Dolores é interpretado por Carla Ribas, já a sua filha Deborah é vivida com grande impacto dramático por Naruna Costa, que tem como filha, a jovem Duda (Ariane Aparecida).
Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar imprimem um ritmo delicioso para a trama em que três mulheres vivem seus sonhos em meio aos problemas cotidianos de suas vidas. Dolores é viúva e sonha ter uma Casa de Bingo; Deborah quer receber o namorado que está para sair da cadeia e viver uma lua de mel; e Duda quer ir ganhar dinheiro nos Estados Unidos. De quebra, ainda tem Marlene (Gilda Nomacce como sempre extraordinária), uma amiga da família que também espera a saída da namorada para viver sua felicidade, além de ser presente na vida de Dolores, da qual é muito amiga.
A direção se esforça para que a mise-en-scène de Dolores flua da melhor forma possível, filmando em locações reais de uma São Paulo longe das riquezas, mais próxima dos sonhos daqueles que passam longe do poder. Por isso, o território tem um papel fundamental na trama, pois é nele que Duda trabalha num clube de tiro, onde seu chefe aparece como uma figura pouco confiável e que pede para a jovem guardar armas de origem duvidosa em sua casa.
Embora a trama de Dolores imponha uma dose forte de realismo, pelas roupas, casas e ambientes, a personagem Dolores faz uma quebra quando constantemente vislumbra sonhos, que a direção filma como se fossem realidade. Inclusive a primeira sequência de Dolores é a personagem-título dentro de uma luxuosa Casa de Bingo, como se ela fosse a dona. Como Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar reproduzem sonho e realidade sob perspectivas bem similares, fica difícil distinguir um do outro. E essa sensação é resgatada na sequência final, toda vivida dentro de um Bingo na Cidade do Leste, no Paraguai. As imagens são muitas vezes mediadas por materiais de vidro translúcidos e essa textura é bastante expressiva para o resultado final pretendido pela obra, ou melhor, diz muito sobre o que se pretende expressar com cada uma das personagens.
Talvez Dolores não tenha a mesma força de outros trabalhos de Gomes e Escobar, seja a mais linear e aparentemente morna de suas histórias, porém isso não significa que esse trabalho possa ser desprezado. Somos atraídos nele por sua ludicidade, sua capacidade de projetar sonhos por meio do cinema. Como o sonho é algo imprescindível e basilar na sua estrutura e o que aproxima as três personagens femininas são as suas capacidades de projetar um futuro melhor. Deborah e Duda querem sair do país, já Dolores almeja ser dona de um negócio de jogo.
Um ótimo mote para melhor compreender Dolores é apreender esse trabalho sob o que é projetado para cada personagem. Diante do que é visto durante a projeção, o quanto essas mulheres fabulam suas vidas vindouras, precisamos por os momentos finais do filme em duas perspectivas. Pode ser que o diretor e a diretora estejam estabelecendo um realismo fictício e projetando um tipo de final feliz, com as três personagens sãs e salvas no Paraguai. Mas podemos também pensar o mesmo momento final como mais um sonho de Dolores, um delírio salvacionista perante a tragédia vivida pelas três mulheres. Duda é traída pelo patrão, Deborah pelo namorado, que a ignora e rouba seu dinheiro, e Dolores é traída por se viciar no jogo no qual queria dominar e ficar rica. O que resta para elas é uma reinvenção, e muitas vezes essa nova vida pode ser meramente onírica, já que a realidade é indesejável e só traz o revés.
Essa é a maior pergunta que fica de Dolores: qual das vertentes embarcaremos, no viés do realismo ou do onírico? O final é aberto, de certo, cabendo interpretações a partir dessas duas visões, mas não será mais apropriada a onírica, na medida que alguns elementos cênicos apontam para ela? O ônibus vazio, a Casa de Bingo, a inesperada união geracional e o salvamento de Duda que sequestra várias armas do seu ex-chefe traficante de armamentos e afins, são sinais de que algo muito azeitado está configurado, como se apenas no sonho essa realidade pudesse ser revertida. Cabe a nós escolher a versão realista ou a onírica. Aqui ficamos com o cinema e sua capacidade de recriar o mundo ao nosso bel prazer, afinal, sabemos que cinema é sonho.

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