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KAHITU (2026) Dir. Alberto Botelho


Texto por Carmela Fialho e Marco Fialho

"Kahitu" é um filme angolano dirigido pelo cineasta Alberto Botelho, uma adaptação do clássico conto literário Vozes na Sanzala (Kahitu), do prestigiado escritor angolano Uanhenga Xitu. A trama acompanha a trajetória do jovem Kahitu (Ferreira Adriano), que nasceu com paralisia e enfrenta severa exclusão, preconceito e hostilidade de sua própria comunidade rural. 

"Kahitu" denuncia a sociedade patriarcal onde as mulheres eram vendidas para os maridos e obrigadas mesmo contra a vontade, a terem relações sexuais com os parceiros escolhidos por acordos familiares. Em casos extremos de revolta contra os costumes, as jovens eram sequestradas pelos pretendentes e submetidas a vários tipos de violência.

Apesar de contar com a companhia das jovens da aldeia, que veem em Mano Kahitu um conselheiro, que também escreve cartas, ele não é considerado socialmente como um ser apto para ser escolhido como um parceiro para casamento pelas famílias e a trama vai justamente trabalhar com essa suposta interdição. Mas Kahitu se aproveita dessa descrença geral em sua masculinidade e sexualidade para arrumar um jeito de conquistar e seduzir a menina mais desejada da comunidade.

Segundo relatos orais Kahitu nasceu com a deficiência porque o pai não cumpriu preceitos ditados pela tradição dos curandeiros, que dizia que as entidades ancestrais exigiam das famílias escolhidas certos rituais que não foram seguidos e tiveram como consequência a deformidade do rapaz.

A narrativa passa por uma grande reviravolta quando Kahitu engravida a jovem mais bonita e cobiçada da aldeia, desencadeando intensos conflitos envolvendo tradições ancestrais e crenças amparadas em fenômenos sobrenaturais. Nota-se como a narrativa cinematográfica de "Kahitu" sofre grande influência da literatura angolana, com suas imagens poéticas e simbólicas à flor da pele, como as de dois pássaros voando ao final do filme.  

Assistir "Kahitu" nos mostra a pouca familiaridade que temos com o cinema que vem dos países africanos, suas formas próprias de narrar, muito ostentada pela oralidade e por expressões corporais e faciais exacerbadas. São maneiras diferentes e que nos causam um certo estranhamento, mesmo que haja momentos que se assemelhem aos ritmos próximos aos das novelas brasileiras. 

Não há na internet muitas informações sobre "Kahito", mas pode-se descobrir que o filme foi concluído em 2012 e exibido comercialmente apenas em 2019 em Angola. Fora do país esse intervalo entre produção e exibição foi maior ainda, com o filme participando apenas da edição de 2026 do Festin, em Portugal. Não encontramos registros sobre o elenco, apenas do protagonista que dá título à obra, que inclusive ganhou o prêmio de melhor ator no Festin. 

"Kahitu" nos brinda com diversas manifestações musicais dessa comunidade rural de Angola, onde as tradições ainda possuem um peso muito grande na cultura. O filme tem uma força em duas vertentes, na do diálogos expositivos e na parte visual, com a câmera sempre muito livre, se movimentando com muita fluidez entre os atores, captando suas movimentações. Os figurinos chamam atenção pela beleza e colorido, especialmente pelas roupas femininas. 

É surpreendente poder notar como o cinema de países que dividem a mesma língua que a nossa, estejam tão distantes de nós em muitos aspectos, embora possamos identificar a natureza musical e dançante que aproxima nossas culturas. No filme, em alguns momentos, os personagens falam em um dialeto ancestral (Kimbunda), o que mostra o quanto ainda resiste a língua como uma forma de resistência e a tentativa de preservação de uma cultura originária que não aceita por completo as ingerências do colonizador português.

Assistir "Kahitu" traz interrogações sobre a nossa ignorância em relação ao cinema africano em geral e sobre o próprio continente, pois dificilmente assistimos a filmes vindos dele, cuja migração provocada pela escravização no século XIX trouxe para o Brasil diversas gerações e culturas que hoje constituem a base populacional de nosso país. Embora a dramaturgia seja um elemento muito próprio, é interessante assistir a um filme bem acabado e com boa fotografia e que explora uma determinada situação cultural. "Kahitu" carrega consigo uma revolta feminina, de que seus corpos precisam pertencer a elas mesmas e que nenhum poder tradicional ou colonial deveria interferir nessa liberdade.                        

Comentários

  1. Parece ser muito bom, já quero ver

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  2. O filme "KAHITU" acaba por ser também um clássico, por conta também, da obra clássica "Vozes na Sanzala" de Uanhenga Xitu, em que foi adaptada.
    Depois da sua estreia no final de 2019, em quatro províncias (cidades) de Angola, não rodou muito por conta da COVID-19.
    Quando a COVID-19 terminou, ainda havia algumas restrições nas salas de cinemas que não permitiu continuar a rodar o filme, mas estamos felizes pelo percurso internacional que o filme está tomar.

    Diogonail Wajiza
    Autor - Guionista e Produtor Executivo do Filme Kahitu

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