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CACHORROS (2025) Dir. Gerardo Minutti


Texto por Marco Fialho

"Cachorros", dirigido e escrito por Gerardo Minutti, é um ótimo exemplo do vigor narrativo e da maturidade cinematográfica do cinema uruguaio contemporâneo. O elenco valoriza o bom roteiro, atento aos atores, mas deixando espaço para que a câmera desfile de maneira sensível pelas locações. O filme integra a Mostra "Cine Uruguai - Novos Horizontes", na Caixa Cultural RJ. 

O protagonista da história de "Cachorros" é Jorge (Néstor Guzzini), um personagem que vive com dificuldades em um Uruguai que passa por um momento econômico difícil, embora more com a família em um bairro de classe média organizado com casas. A família que mora ao lado, e tem uma vida mais confortável, vai viajar e pede para a família de Jorge tomar conta do cachorro, mas cometem um erro fatal, deixar a senha do segredo da entrada da casa com os vizinhos. 

Jorge e a esposa resolvem usufruir dos benefícios da casa confortável dos vizinhos, como o quarto com ar-condicionado, a banheira, o whisky e até a droga que estava no quarto do filho. Mas o maior problema ocorre quando o cachorro do vizinho some, gerando uma mudança na situação. Jorge representa um tipo de masculinidade, daquela que quer resolver tudo a seu modo próprio e tradicional. 

A câmera de Gerardo Minutti é delicada, se movimenta com muito cuidado, ficando à mercê dos personagens que estão dispostos a explorar a casa dos vizinhos. As cores sóbrias de "Cachorros" salientam um ar de desconfiança e a vida sem graça da família que busca um leve regozijo e veem uma oportunidade de desfrutar um momento de vida um pouco melhor do que eles possuem habitualmente no cotidiano.      

"Cachorros" trabalha com tipos latinos muito comum nas áreas suburbanas, os homens espertos ou malandros que se aproveitam de ocasiões para tentar se dar bem na vida. Há uma diferença econômica que Gerardo Minutti explora na sua trama, em especial quando o vizinho volta de suas férias e se depara com a iminente invasão de sua casa, um flagrante abuso, além do sumiço do cachorro. 

O elenco de "Cachorros" imprime um ritmo certeiro, consegue dar um brilho à trama, e explora um certo humor que a situação sui generis sugere. Há um fio tênue entre o humor e o ridículo e eles extraem o primeiro com muita classe e a sequência deles drogados é o melhor exemplo desse humor sutil, com a trilha dando o mesmo tom vaporoso dos personagens. Tudo é resolvido com uma violência que está presente, embora com uma tentativa de ser amenizada pelos próprios homens violentos. Carros riscados e cachorro envenenado fazem parte da rotina de violência de ambas as partes. 

"Cachorros" é um filme narrativamente simples, mas bem construído, visualmente uniforme, quase sombrio, mas com interpretações contidas e eficazes. O melhor é como o filme trata as diferenças sociais da sociedade uruguaia. O cachorros do título instala uma dubiedade, afinal, se está a falar dos bichos ou dos homens? Aqui, estamos em um subúrbio, repleto de personagens incomuns de tão reais que são, com suas individualidades latentes e muitas vezes secretas. Uma obra tão humana que chegamos a sentir o cheiro que vem da tela.

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