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ROSEBUSH PRUNING (2025) Dir. Karim Aïnouz


Texto por Marco Fialho

Um filme dirigido por Karim Aïnouz sempre atraia atenções, afinal, o diretor realizou obras significativas de nosso cinema como Madame Satã (2002), O Céu de Suely (2006) e mais recentemente Motel Destino (2024), mas sua guinada internacional ainda não emplacou. Rosebush Pruning seu mais novo trabalho é para lá de mediano, mesmo que o elenco estelar possa sugerir algo diferente. O mais espantoso é saber que esse é um projeto livremente inspirado no clássico De Punhos Cerrados (1965), do prestigiado diretor italiano Marco Bellocchio.

Rosebush Pruning aborda uma família disfuncional, tomada por incestos e outras esquisitices, mas não são esses elementos morais que enfraquecem o filme, mas a falta de um roteiro criativo e personagens mais solidificados dramaturgicamente. Parece mais Yorgos Lanthimos do que Karim Aïnouz, em que a sátira grotesca sustenta mais a encenação do que a própria crítica social. O amor de sangue é levado a um extremo doentio, com irmãos e pai se flertando e abusando dos tabus sociais. Não se sabe se a cegueira do pai tem algum valor simbólico, em um diálogo isso fica implícito. Há ainda o simbolismo dos lobos devoradores, mas tudo é encenado de maneira tão pobre que essa possível força dramática ou de humor se perde por completo.      

Não adianta ter um elenco composto por Ellen Fanning (Martha), Callum Turner (Ed), Pamela Anderson (mãe), Tracy Letts (pai), Riley Keough (Anna), Jamie Bell (Jack) e não existir densidade dramática, investir no acabamento visual, mas ter um roteiro sem o aprofundamento que provoque o público a refletir. As ações são meramente descritivas e possuem uma linearidade banal, são cenas desprovidas de verdade, tomadas por um artificialismo que quer condenar a ostentação burguesa, mas sem sair da superfície dos personagens. E olha que tinha ali bons personagens como a de Anna, a única irmã, que se perde durante a narrativa. O filme de Karim tem contundência, mas carece de verdade dramática.   

Durante a projeção ficamos vendo simbolismos psicológicos rasteiros, como o controle do pai na família em situações absurdas, como o de escovar o dente enquanto a esposa e depois o filho o masturbam e façam sexo oral nele. Rosebush Pruning sustenta uma ideia vazia de que os ricos são fúteis, mas em nenhum momento se discute verdadeiramente a origem do dinheiro da família. A mãe desiste do projeto familiar e simula uma morte para ir viver com uma mulher, mas esse é mais um personagem que não soma muito ao restante da trama.   

Como Rosebush Pruning é uma sátira à família burguesa, causa um estranhamento a relação de amor que de repente se vira para o ódio e a morte passa a orbitar a mente da maioria dos personagens. Essa é uma conta que não fecha, a maneira tranquila e sem arrependimento que os assassinatos vão se sobrepondo, pois todos se mostram doentes e adaptados às situações, e fora isso, não há complexidade nos comportamentos, grandes conflitos, até que todos mudam de forma abrupta suas condutas em relação ao outro. Do humor, inesperadamente, se parte para uma violência desproporcional, da vida aparentemente livre se parte para ações de morte.     

A obra desgasta suas metáforas, como o do cultivo de uma roseira, onde se é necessário fazer permanentes podas para manter sua integridade vital. Essa ideia de mostrar a deterioração de uma família burguesa é um tema já muito explorado e aqui falta elementos mais originais que valorizem a trama. A brincadeira com o escatológico no cinema já está batida, o que desafia ainda mais o realizador em sua tarefa.

Rosebush Pruning se apega muito à crítica ao vazio da riqueza, do consumismo desenfreado que coloca uma grife como algo fundamental na visão de uma família burguesa, mas o vazio dessa família acaba por contaminar a própria narrativa que não chega a lugar algum. Mesmo que os atores deem conta de seus personagens, o roteiro frágil e o distanciamento da direção arremessam o filme para o caos e as boas atuações acentuam ainda mais as fraquezas desse projeto. A impressão que fica é que Karim Aïnouz é mais feliz quando explora as tramas cotidianas de sua terra natal.       

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