Texto por Marco Fialho
"O Sentido da Vida" se realiza por um desenho narrativo surpreendente proposto pelo grande cineasta japonês Ryusuke Hamaguchi. Se, em um primeiro momento o filme se conforma como uma obra que beira um discurso político direto, sem filtros, com a discussão sobre o sistema capitalista de hoje e de como ele se manifesta no nosso contemporâneo, em um segundo momento, o filme se esparrama em um humanismo radical, ditado por uma camada sensível envolvente.
O roteiro de "O Sentido da Vida" é inspirado em cartas trocadas entre dois intelectuais, um filósofo com um câncer terminal e um médico antropólogo. Aqui, Hamaguchi transforma o médico antropólogo em uma médica psiquiátrica francesa que possui um método ousado com os pacientes de um asilo, Marie-Lou (interpretada pela magistral Virginie Efira) e Mari (Tao Okamoto), uma teatróloga japonesa, que adora filosofar e elucubrar sobre a organização social do mundo capitalista. A transformação de dois personagens homens em mulheres abre um caminho mais sensível, dá um toque mais à flor da pele ao filme e com emoções transbordantes.
O melhor de "O Sentido da Vida" é como Hamaguchi parte da teoria para a prática no desenvolvimento do filme, ancorado pelo talento e carisma de Efira e Okamoto. As personagens discutem cuidado e como implementar métodos e relações sustentadas pelo atenção e respeito ao outro. Nitidamente, o diretor expõe as suas ideias sobre o mundo e permite que a personagem de Marie-Lou defenda seus métodos sensíveis de cuidar de idosos e outras pessoas com condições físicas delicadas, normalmente devido a doenças degenerativas ou pela idade avançada. Hamaguchi discute a importância do treinamento dentro de um hospital onde todos os funcionários precisam absorver novas dinâmicas de abordagem aos doentes.
Contudo, Hamaguchi tem suas armas dramatúrgicas muito bem alinhavadas. Quando achamos que sua pretensão é apenas expor essa metodologia do cuidado que Marie-Lou chama de Humanitude, eis que há uma reviravolta, com a cuidadora indo ver a peça de teatro montada por Mari, que discute a loucura e as fragilidades do sistema manicomial convencional. O cenário da peça tem um espelho côncavo que duplica a imagem dos atores, objetos e coisas. É praticamente uma metáfora do que veremos a seguir, a de um mundo institucional que precisa desesperadamente olhar para além de si mesmo para captar a essência do outro. Uma imagem é sempre mais do que ela mesma, ela pode descortinar outros ângulos e enviesamentos.
O que "O Sentido da Vida" propõe a partir daí, preponderantemente, é uma relação entre duas mulheres, Marie-lou e Mari, uma se espelhando sobre a outra (espiritualmente, duas Marias), unidas em uma sinergia calma de um amor que mal cabe na tela e que se estende magicamente até nós. Só o cinema é capaz de expressar tais energias e duplicidades, não só por compartilhá-las mas também por permitir suas expansões. Sem que percebamos, aquelas personagens começam a tomar nossas almas. Já no debate da peça, Marie-Lou fala de sua experiência na clínica e formula uma pergunta a Mari que responde e ainda fala de uma grave doença que está vivendo e diz uma frase que sintetiza muito "O Sentido da Vida": "seria maravilhoso que o impossível se tornasse possível". Ao que tudo indica, está nessa frase a chave da compreensão maior dessa obra. Apesar desse momento ser apenas o segundo contato entre elas, ele já vem eivado de uma atmosfera de um amor envolvente e que extrapola a tela. Esse é um filme de sensibilização, de engajamento do espectador, se não há a conexão esperada, o filme fracassa junto.
O que "O Sentido da Vida" nos passa é uma ideia de que o amor nasce de afinidades e completude. O que une essas duas Maris (Marias) é a inteligência dos argumentos e a imensa vontade de transformar o mundo. Se no plano cinematográfico esse talvez não seja o trabalho mais interessante de Ryusuke Hamaguchi, ainda assim, há uma engenhosidade dramatúrgica muito bem pensada, uma crítica bem embasada ao sistema capitalista e suas contradições, mas também uma tradução acerca do quanto é doentio se viver nele e sobreviver a sua indiferença ao humano. Mas, ao mesmo tempo, brota das profundezas do filme uma esperança emanada das relações construídas pelas personagens e a sua riqueza se assenta nesse mero detalhe. É dentro dessa referência humanista, que a obra respira e impõe seu existir.
A maior guinada dramática ocorre quando Mari vai trabalhar e morar na clínica francesa onde Marie-Lou é diretora, o que possibilita que a primeira dê prosseguimento ao seu tratamento de saúde e colabore para aprofundar as teorias da terapeuta francesa. A partir desse momento, o amor assume o comando, não um amor físico, mas um amor espiritual e profundo entre duas pessoas, mas não só, também epidemicamente nas relações de todos que estão na clínica. Os planos de Hamaguchi são quase sempre fixos. Embora o plano sequência não seja algo tão presente em "O Sentido da Vida", já que o diretor usa muitos cortes dentro da mesma cena, isso cria uma fluência à narrativa e mostra o desejo de não querer enfastiar o espectador, já que há um propósito bem evidente de que o amor transite livremente naquele coletivo.
"O Sentido da Vida" é um filme que nos brinda com diálogos preciosos e profundos, repletos de explicações filosóficas e sociológicas sobre como o indivíduo pode se rebelar e sobreviver dentro do sistema, sem se esquecer de proliferar o amor entre as pessoas. O filme estranhamente transita entre o discurso político radical e a ação amorosa ditada pelo olhar, pelo toque sutil das peles. Esse diálogo entre essas duas camadas é o que sustenta a beleza da poética obra de Ryusuke Hamaguchi, sobretudo a fisicalidade do amor entre o cuidador e o cuidado.

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