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O JOGO (2026) Dir. Juan Cabral e Santiago Franco


Texto por Marco Fialho

O Jogo, documentário dirigido por Juan Cabral e Santiago Franco, aborda a famosa partida de quartas-de-final da Copa do Mundo de 1986, entre Argentina e Inglaterra, jogada na altitude do Estádio Azteca, no México. O filme tem como proposta compreender os diversos fatos que antecederam esse jogo, tanto os relacionados ao futebol quanto os do extracampo que tornaram esse jogo, mesmo depois de passados quarenta anos, um dos mais comentados e lembrados.

Os diretores convidaram os jogadores que ainda estão vivos das duas seleções, para dar depoimentos sobre aquele emocionante jogo. Essas imagens são registradas em um curioso P&B, o que sugere que ouviremos relatos voltados àquela determinada época. Mas Juan Cabral e Santiago Franco não se contentaram com essas falas, eles também fazem uma excelente pesquisa histórica para fundamentar os depoimentos dos jogadores, com imagens de arquivo que muito valorizam o documentário.

É interessante como O Jogo não fica dependente de uma narrativa cronológica aprisionante e horizontalizante. A narrativa ágil faz um contínuo zigue-zague no tempo, indo às vezes muitos anos atrás para poder trazer algum elemento que possa acrescentar ou justificar ações futuras. O filme chega a retroceder até séculos anteriores para citar a época que os ingleses conquistaram a Ilha de Falklands, que os argentinos chamavam de Malvinas. 

Juan Cabral e Santiago Franco não vão direto para o jogo, antes eles compõem um painel amplo da situação política dos dois países envolvidos na partida. Assim, a posição do governo conservador inglês, com Margaret Thatcher é lembrada, assim como os generais ditadores argentinos também. É óbvio que a Guerra das Malvinas (1982) é um ponto central desse jogo, que fomentou a rivalidade entre os dois países. Essas são contextualizações cruciais para o filme, que muito o enriquecem.

O documentário ainda resgata um histórico de jogos entre os dois países e mostra como essa rivalidade ficou de pé com o passar dos anos. É lembrado um jogo de 1951, o da Copa de 1966 e o da Copa de 1982. Os jogadores comentam os bastidores desses e do próprio jogo de 1986, narrando polêmicas e brigas. Embora os jogadores negassem que o jogo de 1986 era só mais uma partida de futebol, se fica a impressão que a guerra estava presente e tinha um peso considerável para aumentar a disputa entre eles. 

Evidente que o ponto alto de O Jogo é a reconstituição da partida e os comentários de época e de agora sobre o que foi viver aquele momento que tornou-se histórico. Maradona foi o grande personagem do jogo, e com ele alçou o seu nome para uma esfera mitológica. Fazer um gol de mão (o famoso gol que ficou conhecido como "a mão de Deus") e depois outro que ele dribla o time inglês partindo ainda do campo da Argentina, o consagrou como um dos maiores jogadores da história do futebol. Os diretores se prendem bastante na discussão sobre o quanto esse jogo salienta algo de contraditório no talento de Maradona, e que de certa maneira sintetiza como o argentino é visto: como um misto de espertalhão e de habilidoso. 

Mas precisamos colocar o quanto alguns elementos incomodam durante a narrativa de O Jogo. Um deles é uma excessiva narração em voz off, que pretende explicar demais. O outro é a trilha musical escolhida. Às vezes, ela insiste em parecer épica, o que causa até um estranhamento por chamar demais atenção e tentar impor uma emoção ao espectador. Entretanto, há também os momentos mais tristes como o da morte de Maradona, em que a música tenta acentuar ainda mais a tristeza do acontecimento. 

No cômpito geral, O Jogo traz depoimentos muito sinceros dos jogadores e acerta ao aproximar a câmera dos rostos deles. Tem momentos engraçados, como os do técnico Carlos Bilardo, com suas manias, tenacidade e superstições. Esse é um documentário mais voltado para os fãs de futebol, que se aprazem e regozijam com a memória do esporte mais popular do mundo.                                            

   

 

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