Texto por Marco Fialho
Se tem um tema que o cinema costuma fugir é o do filme adulto (também chamado de pornô) e sua indústria. A diretora holandesa Muriel d'Ansembourg, que também é responsável pelo roteiro, encara com coragem esse difícil tabu e se sai muito bem, em especial por construir personagens que transitam por esse universo tão cercado de questões morais.
O mérito de Muriel é criar personagens que em algum momento se defrontam com o mundo proibido do chamado filme adulto, muito embora nunca haja um maior aprofundamento sobre o tema, em especial algo que reflita a relação industrial e capitalista do corpo feminino dentro de uma ótica essencialmente masculinizada e patriarcal.
A trama se encaminha a partir da experiência de Alec (Caolán O'Gorman), um jovem que trabalha como cameraman para Dylan (Andrew Howard), seu pai, um veterano ator do filme adulto. O filme explora as experiências dele com Nina (Safiya Benaddi), uma colega da escola com quem precisa fazer um trabalho sobre o vício pela pornografia na internet. O mais interessante é ver como essa relação dos dois está para além do sexual (embora o sexo perpasse a vida deles), tendo a afetividade como algo a ser construído entre eles. Alec terá que lidar com o sexo praticado como meio de vida e seus sentimentos com Nina, que também envolve a descoberta tanto do amor quanto do próprio sexo. É nesse terreno movediço que o filme de Muriel d'Ansembourg finca suas bases e extrai seus desafios dramatúrgicos.
Literalmente Nu mais do que se propor a fazer uma análise da indústria dos filmes adultos, assume um viés comportamental dos três personagens principais: o pai, o filho e a menina Nina. Enquanto o pai se mostra um homem típico da indústria do cinema adulto, machista e disposto a tudo para ganhar o público com ousadias sexuais (a sequência do polvo é o melhor exemplo disso), Alec se esforça por esconder as atividades profissionais dele e do pai para os colegas da escola. Enquanto isso, Nina embarca na intimidade dessa família depois que aceita fazer em parceria com Alec o trabalho sobre o vício da pornografia na internet, depois que a professora só aceita o tema do trabalho se ele o fizer com uma menina, para que se tenha também uma visão feminina sobre o tema.
É nesse meandro íntimo que a pornografia é abordada em Literalmente Nu, é na relação que entre Alec e Nina que mergulhamos no cotidiano da casa dele. Lentamente, o filme vai se transformando na experiência do primeiro amor do jovem casal. Esse processo amoroso é muito bem construído e se destaca frente ao universo árido do filme adulto.
Em Literalmente Nu a discussão sobre o universo pornô ocorre pelas brechas, no intervalo das gravações e nas idas de Nina, sobretudo depois que ela descobre a verdadeira profissão de Alec e do seu pai. Assim, há momentos de interação de Nina com as atrizes, em que questionamentos são feitos sobre o corpo da mulher ser fetichizado por um mercado dominado por uma visão patriarcal e machista.
Se Literalmente Nu não se aprofunda na indústria do filme adulto e na discussão sobre a comercialização do corpo em um sistema que só visa o ganho de lucros, o filme ganha na abordagem sensível da relação entre Alec e Nina. No lugar de corpos estigmatizados pelo uso comercial, existe o entendimento da necessidade do amor e do afeto como motor das relações humanas.
Assim, Literalmente Nu talvez almejasse discutir corpo e patriarcalismo no mundo do comércio do sexo, mas acaba acertando enviezadamente na descoberta do amor e na necessidade humana de buscar sentido e prazer. O universo do filme adulto interage com a experiência do primeiro amor do jovem casal. Esse é o melhor viés que o filme aborda, o de refletir sobre o surgimento do amor em em um espaço onde o sexo é tratado como algo estritamente comercial e Muriel faz isso com extrema habilidade e sensibilidade.

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