Texto por Marco Fialho
Quem acompanha a música brasileira com mais atenção, prestando atenção aos detalhes das fichas técnicas dos discos lançados, já leu diversas vezes o nome do músico uruguaio Hugo Fattoruso, isso porque nos anos 1980 o músico gravou com os maiores nomes da MPB, como Milton Nascimento, Djavan, João Bosco, Geraldo Azevedo e Chico Buarque.
Mas o documentário "Fattoruso", dirigido por Santiago Bednarik, em exibição na Mostra Cine Uruguai - Novos Horizontes, na Caixa Cultural RJ, não é só sobre a participação do músico uruguaio aqui no Brasil. O filme se propõe a dar um painel amplo desse artista diverso, que ama a música e por isso não se entrega a um só estilo, passeando pelos ritmos uruguaios como o candombe, mas outros estrangeiros como o jazz, o samba, o rock, e muitas vezes a mistura de vários dele. Essa é a perspectiva mais incrível de "Fattoruso", a de mostrar a riqueza da música de Hugo Fattoruso e a versatilidade do seu som.
Ver Hugo Fattoruso tocando é realmente algo de extraordinário pela maneira orgânica que o músico toca os instrumentos. A própria mãe chega a dizer que aos 6 anos ele pegou uma sanfona e saiu tocando, como se ele já estivesse nascido com todas as habilidades musicais. O entusiasmo do artista está em cada cena vista, o que encanta quem está assistindo.
Santiago Bednarik realizou uma pesquisa de imagens belíssima, coletada em diversos países, com apresentações como instrumentista de grandes cantores ou em trabalhos de grupo ou solos. Algumas imagens foram captadas em 16 milímetros, o que conferem uma textura bem característica, mais granulada. "Fattoruso" mescla cenas mais íntimas com outras mais públicas, mas todas tem em comum o amor de Fattoruso pela música.
A trajetória de Hugo Fattoruso beira o mágico, mesmo que sua simplicidade tenda a esconder o brilhantismo de seu trabalho. Os depoimentos dos colegas de profissão reforçam a qualidade técnica de Fattoruso, mas quase todos reforçam a ideia de que a sua personalidade agregadora é um dos pontos mais importantes, mesmo que todos reconheçam tanto o virtuosismo quanto a falta de preconceitos em relação aos ritmos. Do erudito ao batuque vindo do povo, passando pelas harmonias complexas do jazz, Fattoruso passeia por todos com desenvoltura e prazer.
A proposta de montagem de Bednarik para "Fattoruso" pode ser vista como um dos maiores méritos de sua realização. O diretor se desprende da cronologia fácil e arrisca em viajar anarquicamente junto com o músico por diversas datas. De repente estamos em 2015, depois nos anos 1980, depois 1970 e daí ele vai implodindo com uma ideia de ficar escravo de uma cronologia. A riqueza e a leveza de Fattoruso é tamanha que isso não atrapalha, pelo contrário, deixa o filme tão solto como o protagonista. Aliás, esse é um protagonista que caminha na contramão do estrelismo e da vaidade fácil. Fattoruso passa a imagem de ser a pessoa mais tranquila do mundo, preocupado somente com a música, a família e os amigos.
Outro aspecto interessante de "Fattoruso" são os vários filhos, quase todos músicos, nem todos da mesma mãe, mas todos tocando com o pai, assim com o próprio Fattoruso também o fez com o seu. O documentário se constrói e os filhos vão se agregando ao filme naturalmente. As esposas talvez sejam as que mais sofreram com a devoção dele à música, restando pouco tempo entre viagens, ensaios e composições para uma maior dedicação. Mas o filme não se prende a isso, as esposas que aparecem enaltecem a personalidade doce e desapegada ao dinheiro do artista.
Dentro do trabalho de pesquisa do filme, vale realçar o resgate do início da carreira de Fattoruso, quando montou bandas jovens, como a famosa The Shakes, um simulacro dos The Beatles, e responsável por aglutinar fãs inclusive em outros países da América Latina, como a Argentina e o Brasil. Formou também a banda Opa, essa mais experimental, com influência mais jazzística.
Mas o que mais marca em "Fattoruso" é o seu amor e identificação pelo Uruguai e a maior prova disso foi a passagem de Hugo Fattoruso pelo Brasil. Aqui, todos os grandes nomes o queriam, em especial pelo som tão original que vinha de seus teclados, assim como sua simpatia espontânea e sua facilidade de trabalhar em parceria. Mesmo estando no auge da carreira no Brasil, o músico uruguaio não titubeou em voltar para o Uruguai, afirmando que sentia muitas saudades do país natal. E uma das imagens mais sensacionais do filme é ver Hugo tocando piano acompanhado da bateria de seu tio Osvaldo Fattoruso, o entrosamento é tanto que é difícil não se emocionar.
O mais incrível é o quanto "Fattoruso" enquanto realização cinematográfica se coloca no mesmo patamar de seu protagonista, à altura de seu despojamento, deixando fluir as energias que Fattoruso inspira cena a cena. A maior sensação ao sair desse documentário é a certeza de que conhecer Fattoruso é conhecer um pouco mais do espírito livre, leve e solto do Uruguai. E isso é palavra de quem já visitou o país e vivenciou exatamente esse aprazível espírito.

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