Texto por Marco Fialho
Assistir a um filme de Alejandro G. Iñárritu (O Regresso, Birdman, entre outros) é esperar sempre que a narrativa do exagero e do excesso predomine. A experiência de "Digger" não é diferente. Aqui encontramos um empresário inescrupuloso, um presidente dos Estados Unidos escatológico (interpretado por John Goodman), ambos, dentro de um universo de uma encenação teatral, de uma peça dentro do filme.
É mais uma obra que descreve o pessimismo e a descrença na humanidade de maneira explícita, o grotesco de um poder desmedido. Óbvio que "Digger" encampa uma sátira alegórica e farsesca do Governo irracional de Donald Trump (e outros tão pavorosos como os da família Bush ou de Ronald Reagan) e escancara isso sem muito disfarces, muito embora, o presidente do filme seja até fichinha perto do monstro real tal como o conhecemos.
E o que dizer do personagem Digger (interpretado por um Tom Cruise descaracterizado do papel de galã), um empresário do petróleo para lá de asqueroso e irresponsável, em que só vemos contraditoriamente algum sinal de humanidade na sua relação com a gatinha de estimação. Não deixa de ser mais do mesmo, o do cuidado excessivo de um homem que concentra o seu amor nesse animal, que já se encontra em estado terminal.
Iñárritu cisma em pesar a mão ao espetacularizar sua obra, e mais ainda sua visão sobre a catástrofe ambiental, que na verdade, antes forjaria uma denúncia política, mas o diretor se perde ao revelar que vemos uma peça encenada e não um fato realista, retirando o impacto, muito embora ao final nos mostre o mundo real em sua face mais sinistra. Mas "Digger" não deixa de ser um filme arrastado, com diálogos óbvios e caricaturais, e uma mise-en-scène sonolenta e estéril em sua falsa ousadia formal.
Se o objetivo de Iñárritu seria realizar uma crítica social e política dos poderosos, que mandam e desmandam no planeta, a história tal como é construída não impacta tanto quanto o esperado, pois reduzir o real retratado ao universo da representação não dá o peso político esperado, já que a arte já é uma representação em si e jogar o tema da destruição dentro de uma peça acaba chamando a atenção mais para o processo de construção da cena do que para o que quer de fato denunciar.
E "Digger" vem embalado bem ao modo Iñárritu de ver o cinema, com sons acachapantes, cenários grandiosos e câmera sobressaindo mais do que o tema e atores em cena, muito embora Tom Cruise faça de tudo para roubar cada cena em que aparece. Já Sandra Hüller está bem mais discreta e mais uma vez acerta em sua composição como Emma, uma meia-irmã de Digger. Há até semelhanças entre "Digger" e Dr. Fantástico, o genial filme de Stanley Kubrick, mas há igualmente distâncias irreparáveis entre as duas obras, ainda mais que Kubrick foi aquele diretor exemplar em todos os gêneros que exercitou a sua gramática impecável.
Esse texto pode até ser considerado um diagnóstico áspero, contudo, como fugir do fato de que "Digger" não consegue esconder suas fragilidades e patina numa denúncia vazia e pouco reflexiva, imersa em um espetáculo audiovisual grotesco e farsesco, amparado numa comédia apocalíptica de mau gosto bem ao estilo habitual de Iñárritu? No filme, a gata se vislumbra em estado decrépito e o presidente dos Estados Unidos não fica atrás, com um "providencial" e escatológico câncer no ânus. Assim, faz Iñárritu, tratar os poderosos como seres patéticos e manipuladores, mas seres sujeitos à humanização da doença. Cada camada dessa que Iñárritu injeta em sua obra é mais um riso fútil que soltamos em nome de uma pretensa rebeldia vazia.

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