Texto por Marco Fialho
Historicamente, o cinema brasileiro pouco se interessou pelo terror. José Mojica Marins foi o maior incentivador desse cinema de gênero, mas recentemente deixou discípulos como Rodrigo Aragão, a dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, Anita Rocha da Silveira, Gabriela Amaral Almeida, entre outros. Maju Paiva e Bernardo Florim (do ótimo Avenida Beira-Mar) se juntam a esse grupo seleto com o seu segundo longa, Diário do Fogo.
Diário do Fogo se inscreve dentro de um tipo de filme que muito se assemelha aos primeiros trabalhos de Juliana Rojas, especialmente Trabalhar Cansa (2011), que junta temáticas sociais caras à realidade brasileira com os códigos do cinema de horror. Aqui alguns temas sociais como as ocupações de moradias abandonadas e a violência contra a mulher sobressaem com fortes pitadas sobrenaturais.
Na trama, Graça (uma Isabel Teixeira impecável) mora com a filha Duda (Juliana Veloso) numa casa ocupada, quando um incêndio no meio da noite as obriga a procurar abrigo na casa de uma parente que há muito ela não via. Tanto a mãe quanto a filha veem mortos, mas precisam fugir de vivos que não querem a volta delas para a antiga casa incendiada.
No caminho de Graça passam o segurança Souza (Higor Campagnaro) e o capanga Vidal (Ranieri Gonzalez), o primeiro para protegê-la e o segundo para tentar impedir que ela volta para casa. Souza não deixa de ser um personagem enigmático e indefinido, pois sua presença é quase sempre fantasmagórica, ao contrário da presença de Vidal, bastante efetiva e violenta. Esse é um filme em que os mortos transitam pelo dom da menina Duda e Graça, e desses momentos saem um suspense muito bem alinhavado e filmado. Essa mistura do real e da visita do sobrenatural traz elementos interessantes e vivazes à trama.
Se pensarmos no aspecto mais realista da história, Graça é uma personagem feminina e do povo, que responde às dificuldade da vida com valentia. Ela está sempre pronta à luta e capaz de responder à violência que sofre. Maju e Bernardo constroem uma narrativa sombria assentada nessas bases materiais, em um território situado numa pequena cidade com uma praia bravia, mas aparentemente sem uma presença de um poder público atuante. A fotografia soturna de Luís Abramo reafirma o lado soturno e obtuso dessa realidade social, abusando das sombras e das imagens noturnas. A concepção visual caprichada contorna a atmosfera de mistério e horror do filme.
Os planos secos narrados com distanciamento são a marca de Diário do Fogo. A direção não deixa que os espectadores se envolvam, sempre há um corte que nos tira de um envolvimento emocional ou uma crua violência que provoca repugnância. O fantasmagórico é aqui outro elemento que nos afasta da narrativa e o terror oscila entre a imaginação recalcada e a dura realidade do social. Vidal é um personagem do terror social, ele não é um espírito, tem materialidade, e muita. Vivos e mortos atormentam Graça e Duda, os demônios estão à solta, na mente e nas esquinas. Escapatória não há.
Há em todo o filme uma única imagem na praia em um dia de sol, com a mãe dando atenção à filha (numa conversa amigável e íntima), o que causa até um estranhamento no todo, quase sempre tão escuro. Essas imagens são quase um contrassenso quando as comparamos com as restantes, mas elas acabam dando um tom solar pontual, como um reconhecimento de que qualquer vida possui algum instante de respiro e prazer.
O filme transcorre em uma morosidade angustiante e esse ritmo adiciona uma camada a mais, que beira o onírico. O tempo está inserido em uma suspensão e muitas vezes não sabemos se estamos presenciando um sonho ou mais um fato da vida dos personagens. Essa sensação de incerteza confere um tom interessante, pois enquanto Graça parece ter sempre muita concretude, Souza e a menina Duda são fluidos e lembram mais entidades do que presenças físicas.
Diário do Fogo é um belo exercício de terror à brasileira, justamente porque o tempero de tudo são os nossos dilemas sociais. Graça cria a filha sem o pai (que ao que tudo indica foi assassinado pela companheira em um momento de autodefesa) e ainda precisa enfrentar o capanga do dono do imóvel que morava. Nada mais brasileiro do que um conflito com um capanga, enquanto o verdadeiro criminoso provavelmente vive luxuosamente bem longe daquele território.
O filme expõe a relação doentia de uma elite que prefere estragar sua própria propriedade ao ver uma família que precise ocupando seu imóvel. Há muito de crueldade e frieza nesse contexto. Em um diálogo entre Graça e Marcia, uma antiga vizinha, essa última diz em relação às suas perdas materiais: "os outros me dão tudo de graça. Ser pobre é uma benção". Essa é uma frase que diz muito sobre como a situação de pobreza se torna um espelho cruel e reafirma as desigualdades sociais. É quase um "nascemos para ser essa bosta e precisamos nos conformar". Isso sugere uma certa vitória do discurso das elites, que nesse caso, estamos ouvindo pela boca do próprio oprimido, como aceitação de sua condição miserável.
Mesmo que Diário de Fogo não consiga interligar todos os pontos conflituosos a contento, com um final abrupto que deixa as coisas por demais indefinidas, como a da relação da filha com o fantasma do pai ou quais os desdobramentos efetivos entre Graça e Souza. Mesmo assim, a narrativa intrigante do filme permite que muitas dessas pontas que ficaram soltas induzam o espectador a fazer ele mesmo o seu próprio juízo sobre a história.

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