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CASA EM QUEDA (2026) Dir. Mohsen Gharaei


Texto por Marco Fialho

Tem filmes que são tão contundentes que fica até difícil chegar ao seu final. É o caso do iraniano Casa Em Queda, dirigido por Mohsen Gharaei. A obra aborda a luta da jovem Ensi (Laleh Marzban) para ser modelo na Turquia e enfrenta a resistência e a fúria de Rashid (Farhad Aslani), seu pai. 

É muito interessante o quanto o filme consegue reunir alguns momentos de realismo extremo com outros marcados por expressões simbólicas impactantes. E o que falar da ágil narrativa que está sempre a provocar novas sensações ao espectador. É um soco no estômago atrás do outro, um mérito indelével para a direção precisa de Mohsen Gharaei, com seus planos próximos precisos e que realçam cada tensão vivida pelas personagens.     

A cena inicial de Casa em Queda com a jovem Ensi (Laleh Marzban) recebendo um anúncio bombástico do médico, algo que pode impedi-la de realizar o seu maior desejo que é fazer carreira de modelo no exterior dá a entender que o filme fosse levado para uma outra discussão, a da decisão sobre viajar ou não devido ao problema de saúde. Contudo, estamos no Irã e as discussões serão de outra natureza. Mohsen Gharaei sabe que o específico cultural e político de seu país o faz caminhar para outras abordagens, por isso o tema da doença e as consequências desse anúncio médico só fará sentido com toda força lá no final do filme, quando o assunto retornará para ser decisivo e chamar à razão o pai opressor.

Por isso mesmo, o diretor Mohsen Gharaei explora com muita sagacidade o contexto do filme ao discutir o poder que a teocracia iraniana delega aos homens sobre os corpos das mulheres. E Mohsen Gharaei mete o dedo nessa ferida, sem dó nem piedade, expõe como é absurdo um pai de família poder pensar que é dono dos corpos de suas filhas e esposa. Nesse detalhe está a chave para uma reflexão sobre Casa em Queda. 

Vale ressaltar, que alguns filmes iranianos já abordaram o tema do aprisionamento e a opressão de mulheres, caso de A Maça (1998), de Samira Makhmalbaf, de O Círculo (2000), de Jafar Panahi e o recente A Semente do Figo Sagrado (2024). Casa em Queda só vem fortalecer uma ideia para lá de sabida, de que o fundamentalismo teocrático criou uma sociedade amparada na tortura e violência contra as mulheres iranianas. 

Mas voltemos à história de Casa em Queda. Rashid trabalha como agente penitenciário, mas está pressionado no trabalho por ter que responder na justiça porque mantém negócios com ex-presos, que depositam valores na sua conta bancária. Em paralelo, a casa onde mora está prestes a ser destruída para se construir um novo empreendimento comercial, o aviso oficial já foi dado e a sua família tem poucos dias para sair. É nesse tempo que Rashid prende a filha Ensi no quarto para que ela não viaje para Turquia para impedi-la de seguir na carreira de modelo, até que a filha lhe dê o passaporte. Mas Rashid prende também a esposa e a filha mais nova em um segundo quarto e a vida deles vira um inferno, especialmente para elas, que passam a ser torturadas por ele. 

O que Mohsen Gharaei constrói a partir desse momento é uma narrativa angustiante e de grande tensão. O prédio está prestes a ser demolido por pesadas escavadeiras prontas a por abaixo a casa onde todas as mulheres de sua família são mantidas como refém dele, sem que ninguém saiba do que está ocorrendo dentro da casa. O diretor filma tudo isso com um realismo absurdo, mantendo a tensão até o final do filme. 

Apesar de retratar fortemente a realidade social iraniana e a ideia dos corpos das mulheres serem tratados como propriedade pelo chefe da família, o próprio ato de desabar o prédio possui uma carga simbólica imensa, pois não é só o edifício que está a ruir, mas a ideia de família patriarcal e teocrática que provoca a infelicidade das mulheres. 

Quando Rashid torna as grades de sua casa uma prisão para as mulheres de sua família, a casa se transforma em um presídio e o espaço cênico da casa revela o terror de quem nasce mulher no Irã. O pai opressor vira um ditador e um inimigo declarado da liberdade delas. Se antes existia um sufocamento moral, agora o que existe é algo mais físico. E a mãe ainda diz que não é a primeira vez que Rashid a tranca em um quarto, já havia feito logo que eles casaram. 

Casa em Queda pode não ser o primeiro filme iraniano sobre o tema, mas é o mais contundente ao exibir as feridas de uma sociedade doente pelo patriarcalismo sustentado pelo fanatismo religioso. Elevar a repressão à prisão, só fez ruir de vez as relações familiares que antes já era crítica e difícil. Somente depois de todos estarem devidamente destruídos, Rashid descobre da doença da filha e recai nele uma imensa dose de culpa e tristeza, mas a destruição familiar então já era uma realidade irreversível.

A cena final dele preso por ele mesmo no subterrâneo da casa é exemplar e representa um novo paradigma social para o país, um dado simbólico importante que fica para a reflexão. Fica a impressão de que ideias ultrapassadas e que trouxeram muitas dores para as mulheres devem ocupar o subsolo social e serem demolidas e enterradas de vez. Por isso, o final é tão marcante e traz uma ideia definitiva, que todo o sistema de opressão deve desaparecer urgentemente. Casa em Queda infelizmente é um filme impactante e necessário sobre todos e quaisquer retrocessos de nossos tristes tempos.  

     

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