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AGARRA-ME FORTE (2024) Dir. Ana Guevara e Leticia Jorge Romero


Texto por Marco Fialho

Se tem algo que nos dar prazer e felicidade no cinema é sentir o frescor vindo de um filme. Foi o caso de "Agarra-me Forte", dirigido pela dupla Ana Guevara e Leticia Jorge Romero, que abriu a 2ª Mostra Cine Uruguai - Novos Horizontes, na Caixa Cultural RJ. Essa é uma verdadeira pérola uruguaia, uma aventura nas profundezas do viver. 

O que mais chama a atenção é a virada de chave que o filme dá. As primeiras cenas, que compõem a primeira sequência de "Agarre-me Forte" é dilacerante. Nelas vemos um velório, o de Elena ou Ele para as amigas, uma mulher jovem, e nos consternamos com as reações de profundo choque pela sua inesperada morte. Os personagens assim são apresentados, embora ainda sem entendermos muito sobre eles e isso é que é fantástico, pois haverá o momento propício para isso. 

Com extrema sensibilidade, o roteiro de Ana Guevara e Leticia Jorge Romero encaminha a história pelo encantamento da fantasia e da saudade. Ao sair do velório, Ade se depara com um ônibus, cujo destino é Guazú-Virá e Araminda um lugarejo perfeito, que junta a paisagem campestre com a praia em um só local, e que traz memórias de uma viagem de Ele (Victoria Jorge), Adele ou Ade (Chiara Hourcade) e Luci (Eva Dans) e o filho ainda bebê. 

Esse é o momento da virada no filme, quando Ade entra no ônibus (ela entra mesmo ou o ônibus é só um detonador de uma memória?) e viajamos com ela para esse belo lugarejo situado em Canelones. Visualmente, essa é uma passagem crucial, que marca a entrada no lúdico e na fantasia. Um raminho de flores também é outro elemento a nos relacionar com esse lugarejo especial, ele aparece tanto no velório tanto no carro de Ade e na viagem delas a Guazú-Virá. São pequenos ardis que as diretoras, que também são roteiristas, adicionam para salientar uma aura mágica em "Agarra-me Forte".

Algo que Ana Guevara e Leticia Jorge Romero fazem é nos lançar nesse mundo inebriante das amigas, ao mergulhar nessa viagem de alguns anos atrás onde a felicidade fluía sem filtros. Durante a projeção, é nesse lugar que queremos estar, como mais um personagem a desfrutar aquela alegria do encontro delas como se estivéssemos também lá. É o poder do cinema de nos transportar para aquelas imagens que saltam poderosamente da tela. 

Quem não sonha viver um momento de ludicidade, como se o tempo estivesse suspenso e só importasse aquele instante repleto de luz. A fotografia de Yarará Rodriguez cria um contorno imagético que beira o onírico, quando elas estão em Guazú-Virá, a luz realça tanto as cores, o verde e um ambiente aprazível e solar. A trilha sonora de Luciano Supervielle caminha na mesma direção, ela nos ajuda a viver aqueles momentos em que a fantasia rege e triunfa, nos convidando a viver a intensidade e vivacidade dessas três mulheres que insistem na felicidade. 

"Agarre-me Forte" nos brinda com uma câmera despojada, que se oferece às três personagens e permite a elas um crescimento na tela, com desenvoltura e leveza. Ao trabalhar com o ambiente predominantemente lúdico, o filme costura o rock e pop inglês como impulsionadores do espírito jovial que se almeja encampar. Há um truque final decisivo, quando Pablo, o filho de Lucy, reafirma a fantasia como um componente definidor não só do filme como também da própria vida, de que precisamos valorizar o hoje e o amor incondicional.               

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