Texto por Marco Fialho
O quê um filme pode dizer sobre um acontecimento histórico socialmente dolorido, como foram as ditaduras militares na América Latina, que se estenderam dos anos 1960 até os anos 1990? O belíssimo "A Outra História do Mundo", do diretor Guillermo Casanova, responde a essa pergunta com o devido sarcasmo e leveza, usando de imaginação e fantasia como armas poderosas de contra-ataque. Esse é um dos filmes que integram a Mostra Cine Uruguai - Novos Horizontes, que acontece na CAIXA Cultural RJ.
A trama de "A Outra História do Mundo" parte da resistência de dois amigos, Esnal (o sempre ótimo César Troncoso) e Milo (Roberto Suaréz), que resolvem reagir à presença de um coronel, disposto a impor autoridade, vigilância e regras rígidas ao pequeno vilarejo de Mosquistos, no interior do Uruguai. Eles tem um plano para boicotar o regime autoritário que impõe inclusive o fechamento de bares depois de uma certa hora, o que acaba com a vida noturna do local. É claro, que o plano para lá de atrapalhado não só dá errado como também leva Milo para prisão e desaparecimento.
O diretor Guillermo Casanova elabora um filme em que o seu tom está entre o real e o fabular. O trabalho da direção assume caminhar em um fio tênue, delicado, e tendo a rebeldia como um ponto central e o balizador de sua narrativa. A música de Hugo Fattoruso fortalece essa ideia do lúdico ao desenhar uma moldura doce e inventiva para a trama. A trilha musical se relaciona muito com os desejos e sonhos dos personagens que se sentem sufocados pela atmosfera aprisionante ditada pela presença ostensiva de militares que controlam o cotidiano da pequena cidade de Mosquitos.
Quando Esnal solicita ao coronel uma permissão para dar um curso sobre a história universal, a mesma autoridade o limita a não ultrapassar o ano de 1492, data oficial da chegada de Cristovam Colombo nas Américas. O recado do coronel é bem claro, não se pode discutir nessas aulas nenhum tema envolvendo os países latino-americanos, a história devia passar ao largo do presente e da política colonial ou contemporânea.
Uma leitura possível de "A Outra História do Mundo" é vê-lo como uma resposta à imbecilidade da censura e uma homenagem às narrativas que se reinventam para poder resistir à opressão. Muitas vezes, o universo fabular permite essa reinvenção e instaura um nó na cabeça do opressor. Striga é o sobrenome da família do amigo Milo, e Esnal cria lendas fantásticas com personagens da família Striga inventados, em aventuras mirabolantes em séculos distantes e por terras na Europa Oriental, que hoje formam a Croácia e arredores. Com isso, Esnal consegue inserir uma família uruguaia em épocas remotas, mas que indiretamente se associam com o terrível mundo contemporâneo.
No Brasil, o Uruguai hoje está ligado à duas figuras. Uma delas é a do ex-presidente José Mujica; a outra, é a do compositor e cantor brasileiro Belchior, que se refugiou no país vizinho quando quis repensar e refazer a sua vida pessoal. Quando ouvimos uma personagem ouvindo e dançando o clássico "Velha Roupa Colorida", eis que surge Esnal, com seu bigodão que nos remete de imediato à figura rebelde e irônica de Belchior. Essa semelhança não é aleatória, ela é devidamente construída pela composição caprichada de César Troncoso, já que Esnal não deixa de ser uma homenagem ao nosso compositor cearense, que sempre enalteceu as insurgências contra o status quo.
É sublimando uma rebeldia eivada de criatividade que "A Outra História do Mundo" enaltece a resistência às ditaduras. A fotografia predominantemente nos tons em sépia de Gustavo Habda tonifica uma sensação de irrealidade ou de que essa é uma época desastrosa e que não pode mais se repetir, pelos absurdos sociais que ela provoca, como a censura desmedida e o controle político sobre os corpos. Guillermo Casanova realiza um filme que sabe o poder da imaginação perante a idiotização de um poder abusivo e cruel.

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